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28/04/2017

Mentalidade “meio socialista” no Brasil


A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, com as revelações dos crimes de guerra do nazi-fascismo e do genocídio programado, com a literatura de qualidade surgida sobre o tema e, principalmente, o cinema, todo o universo do Eixo foi caindo em desgraça dando espaço para a formação de uma nova mentalidade popular. “O nazista” tornou-se a encarnação do demônio, sim, mas sob o rótulo de vítima de uma patologia. Afinal, ninguém conseguia aceitar que o mal está solto por aí, pronto para ser feito por todos nós. Todo mundo quis sair pela tangente e se proteger de si mesmo, acreditando que só uma doença, um acidente, poderia fazer alguém ser um Hitler.

Essa imagem ficou na consciência dos povos, ainda que nazistas disfarçados tenham continuado em governos aqui e ali, ou de maneira relativamente civilizada ou de modo completamente louco, como na África do Sul, o lugar em que se fez vigorar o Apartheid (nunca é demais lembrar que nossa ditadura militar aqui não deixou de ter uma faceta fascista, em especial quando da tortura em morte de muitos índios, acusados de colaborarem com a guerrilha – genocídio mesmo!).

Cá entre nós, especialmente na América Latina e Caribe (de certo modo também na Ásia e África), o nazismo também se tornou o exemplo do totalitarismo máximo, mas na Europa as coisas foram mudando, especialmente no Leste. Paulatinamente os crimes de Stalin foram sendo revelados para mais e mais pessoas e aos poucos a URSS, durante a Guerra Fria, foi mostrando que os novos governantes iriam combater o estalinismo com mais estalinismo: o terror de estado contra o indivíduos, a ideia de que clínicas psiquiátricas e campos de concentração são os verdadeiros colégios de internação para desajustados. Ou seja: gente que não consegue deixar de gostar do capitalismo mesmo sabendo que se trata de um regime em que os ricos massacram os pobres deve ir ou para campos de trabalho forçados ou para hospitais de loucos.

Quando do fim da URSS, que caiu sozinha, de podre, uma boa parte da Europa que pedia liberdade não o fazia lembrando a liberdade perdida com os ataques nazistas, mas invocando, sim, o sufoco criado pelo totalitarismo comunista. Muitos europeus, inclusive, tinham adquirido um ódio estupendo à associação entre o imperialismo russo e o comunismo, capitaneados militarmente nas Forças do Pacto de Varsóvia. Esse ódio, no entanto, não se disseminou de modo forte em outros lugares mais pobres, como aqui no Brasil e no que era o chamado Terceiro Mundo. Entre nós, o socialismo permaneceu um bom ideal até mesmo após a Queda do Muro de Berlim e a desagregação da URSS. Embora o comunismo e o socialismo mais endurecido tenham perdido adeptos, nunca os brasileiros abandonaram a ideia, genericamente social democrata, de que o estado deve arrecadar impostos e promover certo bem estar social, certa “justiça social”.

Entre os brasileiros, nunca o comunismo foi ameaçador, muito menos o socialismo foi um mal. Para jovens hoje, inclusive, há quem diga que existe um bom socialismo, o do tipo do proposto pela social democracia. Há até gente da velha guarda aqui, que apoiaria Fidel caso esse pudesse fazer retroceder a abertura cubana que está em curso, o que é efetivamente impossível. Entre nós o socialismo nunca foi o dos Gulags, mas sim algo vago, que dizia que entre os ideais da Revolução Francesa, “liberdade, igualdade e fraternidade”, o prioritário era o segundo. Por isso, entre nós, a direita extremada, após 1945, nunca conseguiu ter um partido, tendo de viver da retórica de grupos de jornalistas mentirosamente liberais, enquanto que, em contrapartida, sempre foi possível ver por aí partidos bem votados reclamando para si ideais socialistas, mesmo depois da Queda do Muro. Nossos amores e ódios são menos globalizados do que querem alguns.

A Europa do Leste odeia o que outros europeus não odeiam tanto. No Brasil, o ódio que vem do Leste, contra formas de socialismo, é ininteligível. Compreendemos isso só por meio de livros. Somos anticomunistas de modo muito mais brando que os americanos e mais ainda que os europeus do Leste. Mas isso porque o comunismo nunca foi, para nós, perda de liberdade, e agora que ele não existe mais em lugar algum, é até ridículo discutirmos com revista de direita, como a Veja, do que se trata. Damos de ombro.

É necessário notar essa formação de mentalidade política, a partir de horizontes mutáveis e experiências históricas diferentes, para que possamos compreender “qual é a do brasileiro”. Somos politizados de um modo muito particular. Quando lemos literatura política americana ou europeia, não a entendemos com a facilidade com que imaginamos entender em uma primeira vista.

Perdoamos nossos erros autoritários com facilidade se eles estiverem calçados de boas intenções – reais ou propagandísticas – em favor da igualdade. Isso faz com que o socialismo ou a social democracia (e até a palavra “comunismo”) sobreviva entre nós. Desse modo, até um tipo de populismo de esquerda, como foi o que Brizola herdou de Jango, e que agora Lula aperfeiçoou, desperta nossa simpatia. Nossos liberais conservadores e a direita em geral aparecem como sendo uma facção pouco generosa para com os ideais de igualdade, necessários, e na prática nem mesmo protegem os ideias de liberdade, para os quais se elegem protetores – falsos protetores, não raro.

Vivemos às vezes mais avançados que outros povos mais cultos. Mas, em contrapartida, vivemos sem capacidade de autopercepção, isso por incultura generalizada que nos impede de um autoexame socrático. Temos uma enorme dificuldade de traçar esse panorama geral, um panorama que possa revelar aquilo que é mais estrutural em nossa politização, ou seja, nossa mentalidade política. A filosofia política não pode deixar de mexer nisso, investigar isso. Faz parte de um de seus ramos essa pesquisa.

©2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo

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18 Responses “Mentalidade “meio socialista” no Brasil”

  1. julio cesar
    14/11/2015 at 17:00

    comunismo=fascismo=nazismo=racismo

  2. julio cesar
    14/11/2015 at 16:59

    comunismo=fascismo

    • 14/11/2015 at 18:48

      Não mesmo. Leia no blog artigos onde mostro as diferenças.

  3. noNato
    04/02/2014 at 21:00

    Ghiraldelli, vc já viu algum governo no mundo comemorar apagão? ahahha.

  4. Lino
    03/02/2014 at 17:49

    Paulo Ghiraldelli, mais um texto para ser refletido, vou ter que ler todo dia para fazer frente a minha ideia formada de que o brasileiro é de mentalidade “meio conservadora”, “meio autoriatária de direita”. Eu dizia que o brasileiro é de mentalidade “meio capitalista”, perante o seu texto eu estou misturando as coisas?

    • 03/02/2014 at 17:56

      Conservador em costumes, social democrata em economia.

  5. Julio Mott
    02/02/2014 at 21:26

    o Brasil é meio socialista pq entende socialismo como dar esmola.

    • 02/02/2014 at 21:30

      Não! Você não entendeu o texto e ainda por cima caiu num conto da direita política – errado. A Folha andou fazendo uma pesquisa sobre o perfil do ideológico do brasileiro. Dê uma olhada.

  6. Pedro
    02/02/2014 at 13:49

    Discordo de que a mentalidade brasileira seja socialista. O que grassa por aqui é a mentalidade patrimonialista, de desresponsabilização individual e eterna dependência da administração pública, constantemente privatizada por interesses corporativos. Não há “meio socialismo” simplesmente porque o uso da máquina estatal para satisfação de interesses de a, b ou c enquanto a, b ou c é muito diferente de qualquer grau de socialismo. “Mais estado” só é socialismo para a vulgata liberaloide, que nada mais representa que o paroxismo do agudo privatismo que caracteriza a mentalidade brasileira e que em conluio com o Estado representa esse patrimonialismo. Seria melhor pensar o socialismo como o momento de reconhecimento do ser humano na totalidade social, e portanto o socialismo demanda uma consciência iluminista que faça desenvolver esse ser humano enquanto agente e momento social.

    • 02/02/2014 at 14:09

      Pedro, felizmente eu parei de dar aula e assim fico livre desse tipo de comentário que nem mesmo o título do texto consegue ler. Agora, tenho de aturar só um ou dois. Não 30 sem saber ler. Ah, só um detalhe: patrimonialismo é tudo, menos doutrina, não está em questão no approach.

  7. 02/02/2014 at 00:51

    Marx tinha um pé contra o estado, então como “marxistas” podem defender que o estado deve promover certo bem estar social? Eles não deveriam ser a favor de uma justiça social sem o estado?

    • 02/02/2014 at 02:40

      Pedro, o estado de bem estar social não é propriamente marxista, é keynesiano.

    • Pedro Possebon
      02/02/2014 at 03:49

      Sim. Claro. Mas marxismo está mais próximo de subscrever o projecto keynesiano do que de fazer uma “oposição” a fazer de um não estado.

    • 02/02/2014 at 13:32

      Pedro, depende. No meu tempo de jovem não. O marxismo disputava com ele mesmo e outras esquerdas próximas.

  8. Rodrigo pistolão
    02/02/2014 at 00:37

    Sinto muito cara, mas vc falou nada com nada. PErdi meu tempo. Começou em nada e foi pra lugar nenhum. Fraco.

    • 02/02/2014 at 02:45

      Eu que sinto, Pistolão, não só pelo seu apelido, mas pelo fato de você não conseguir entender nem mesmo um texto fácil, didático, jornalístico. Eu sei que isso deve ser triste para você e lhe dar a sensação de perda de tempo. Mas veja, se insistir em ler gente como eu, vai continuar tendo essa sensação, porque isso realmente nao e´para você. Tente puxar uma carroça. Isso é prá você.

  9. Jonny
    01/02/2014 at 15:07

    Paulo, o que vc achou do beijo gay de ontem na novela?

    • 01/02/2014 at 15:48

      Acabei de fazer um flix news sobre isso, logo estará na Flix! Mas foi muito bom, um excelente passo e uma coisa merecida para o Matheus Solano, que ficou com o mérito histórico.

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Filósofo