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16/10/2019

Religiosos e conservadores são mesmo menos inteligentes?


Pesquisas divulgadas há algum tempo, feitas no Canadá, mostraram uma considerável diferença de performance em testes de inteligência entre conservadores e não-conservadores, a respeito de preconceitos (não falei em direita e esquerda, como alguns jornais anunciaram erradamente).

Claro que os conservadores (e religiosos) contestaram, reclamaram e desqualificaram a pesquisa. Todavia, esse tipo de pesquisa vem se repetindo em tempos e lugares e os resultados são semelhantes. As universidades europeias encontram o mesmo que as americanas e canadenses. Até pouco tempo, tudo isso não saía de alguns jornais e do âmbito acadêmico. Agora, tal coisa anda ganhando nova dimensão.

Novas pesquisas, agora sobre outro prisma, mostram que uma parcela das pessoas mais escolarizadas em vários países começa a se preocupar com os filhos a respeito de novos parâmetros, pensando duas vezes sobre colocá-los em escolas religiosas dogmáticas ou mesmo sob o controle de doutrinas conservadoras. Claro que isso sempre foi uma preocupação de setores mais intelectualizados nos Estados Unidos e, de certo modo, em qualquer lugar do mundo. Mas, com o aumento de jovens ocidentais que aderem ao terrorismo ou que, ao contrário, aderem internamente a posições islamofóbicas ou que se encaminham para aquilo que nos Estados Unidos se chama “lavagem cerebral”, a preocupação dos pais mudou de figura.

A tal “lavagem cerebral” (brainwashing) é alguma coisa que os especialistas afirmam que é mais fácil de ser executada em pessoas de QI baixo (que se tome o termo QI segundo parâmetros atuais, bem sofisticados e válidos, que implicam em variabilidade). Não precisa ser muito baixo. Basta ser um QI de pessoas com dificuldade de três operações: 1) abrirem-se realmente para experiências novas; 2) se colocar sob o ponto de vista de outro, adotar um certo perspectivismo, ter ângulos de compreensão múltiplos; 3) ter dificuldade de equacionar problemas.

Isso pode parecer, ao menos em relação ao primeiro item, contraditório. É mais fácil não ceder seu cérebro sendo justamente a pessoa mais disposta às experiências novas? Não seria o oposto?

As pesquisas feitas por psicólogos, médicos, filósofos e linguistas indicam que aquele que é educado sobre regras únicas, sob parâmetros únicos, como quem é educado em religiões inflexíveis e sob partidos conservadores é exatamente o mais propenso a abandonar tudo e adotar um outro sistema, contanto que esse outro sistema seja também unificador, que louve o Um e não o múltiplo, e que contenha regras bem rígidas. Nesse sentido, com esse tipo de pessoa, mesmo que ela opte por um projeto revolucionário, de guerra, de mudança, o que é feito é em um sentido conservador e, é claro, dogmático. O que se quer é que o mundo volte a um estado real ou imaginário em que as coisas não podem mudar. Faz-se uma guerra de mudanças, mas para que nada mude mais.

É significativo que certos tipos de terrorismo façam questão de mostrar a degola. O que se quer não é matar, mas é mostrar ao outro, o inimigo, que ele vai perder a cabeça como um ato de ajuste (ajuste, ajustar, tornar justo, justiçar) porque ao pensar diferente já havia, de fato, perdido a cabeça.

Mussolini

Mussolini

O que se louva segundo esse tipo de militância é uma caricatura da coerência. Nós louvamos a coerência porque com ela entendemos, principalmente, seguir um dos princípios da lógica de não entrar em contradição, ou seja, de não afirmar p e não-p no mesmo tempo e lugar e no mesmo contexto. O militante degolador não entende isso. Para ele a coerência não depende de raciocínio, mas de um conjunto de frases que nunca mudam. Então, ele segue um líder que ele vê como coerente, porque fala sempre a mesma coisa, mesmo que o que diz seja, para nós, um conjunto de disparates que se contradizem. Isso é um claro indicador de pessoas que, em um teste, apresentam QI baixo, e isso é bem presente em estudantes conservadores submetidos às pesquisas sobre o assunto nos Estados Unidos, Europa, Oceania e Canadá.

Quanto ao ponto de vista estritamente intelectual, cognitivo, o jovem que adere a tais

Nigerian Cartoon

Nigerian Cartoon

opções como a do terror ou de extremismo conservador piora mesmo seu desempenho? Sim! Ele adere, e é já é mais ou menos fraco em vários dos testes cognitivos, em lógica, em matemática e, principalmente, em capacidade de previsibilidade. Aliás, uma das coisas que se nota é que os jovens que fogem para o radicalismo da religião, do conservadorismo político e social e, enfim, vão para o terrorismo, perdem o “amor pela vida” exatamente porque não possuem capacidade de planejar sua fuga após um ataque, terrorista ou não. O chamado cabeça-dura vai para a morte porque acredita que não há como escapar. Só resta pensar a morte como ato heroico, porque atacar e conseguir ter um plano para fugir, não lhe é inteligível (uma versão do kamikaze). A ideia de um mundo no além bem próspero não vem como primeira opção, mas como único prêmio para quem de antemão tem dificuldade em raciocinar sobre como fugir e fazer novo ataque.

Os mecanismos pelos quais a religião e o conservadorismo atuam são simples, e se fazem em complemento ao que as crianças são em tenra idade. A leitura de um texto religioso que não permite interpretação, que é lido literalmente e, não raro, lido por outro, quase que em forma de ditado, é o meio pelo qual se tira da criança a ampliação do universo vocabular, o manuseio da sintaxe e da semântica e, assim, todo o aparato de pensamento reflexivo. A linguagem é nossa vida. Quanto menos podemos ser sofisticados com ela, menos vida temos, menos opções de vida vislumbramos. Nossa imaginação se entorpece. Nossa inteligência, isto é, nossa capacidade de equacionar e resolver problemas esmorece. Hoje em dia tudo isso está claro. E muitos pais já sabem disso. Há nos Estados Unidos pais que são politicamente conservadores, mas que não querem que seus filhos cresçam em meios conservadores, exatamente com medo de que se inviabilizem intelectualmente. Eles estão certos.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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20 Responses “Religiosos e conservadores são mesmo menos inteligentes?”

  1. Thiago Leite
    02/02/2015 at 21:17

    Paulo, o totalitarismo é necessariamente uma religião?

  2. Wagner
    31/01/2015 at 15:16

    Paulo, venho de uma família católica extremamente rígida. Tenho dois tios que são irmãos maristas já idosos, descansando em Uberaba – MG, e grande parte da família é ligada a algum tipo de atividade ligada à paroquia da cidade.
    Devo confessar que boa parte do meu interesse por conhecimento veio das histórias que ouvia de meu tio, suas descrições geográficas impecáveis, seus incontáveis nomes de plantas e animais, suas viagens à Europa.
    Mas, em contrapartida, nutri desde novo uma desconfiança que me afastou gradativamente do convívio religioso. Detectei alguns traços de personalidade, de modus operandi, ranços, medos e covardia.
    Me espantei com um modo de pensar que mais tarde viria a mim brilhantemente descrito e pensado por Nietzsche: o ressentimento.
    Grande parte de minha família é conservadora por rigidez de criação e está adoecida pelo ressentimento. Não posso afirmar que são pouco inteligentes, pois possuem ou já possuíram grandes habilidades cognitivas, mas o modo de pensar ressentido as adoeceu minando suas energias com os conflitos mentais.

    • 31/01/2015 at 16:24

      Wagner uma coisa são aspectos como estes aí, outra coisa, mais grave, é quando as crianças não conseguem mais transladar posições no raciocínio. Aí a coisa fica feia. Vira olavete.

    • Wagner
      31/01/2015 at 17:26

      É verdade e eles têm a isca perfeita: o inimigo em comum para a união e fortalecimento do grupo e as teorias da conspiração para forjar uma sensação de superioridade cognitiva diante dos cegos e tolos (o resto do mundo).
      Mas acredito que os mentores dessas crianças e adolescentes (e adultos também) dominam os mecanismos que usam e sabem bem como usá-los. Os considero desonestos, corruptos e irresponsáveis, mas não os vejo como idiotas, pouco inteligentes.
      Usam a inteligência para dominar, fanatizar e direcionar de acordo com os seus interesses. Gozam com isso. Alegram-se com isso. Poderiam estar no exército, não nas artes e na cultura.
      Acredito que sabem o que estão fazendo, não são meros fanáticos disseminando suas paixões, e isso os piora!

    • 01/02/2015 at 01:58

      Wagner! O energúmeno não precisa fingir que é energúmeno para ter seguidores, basta ele ser o que é, energúmeno.

    • Wagner
      01/02/2015 at 15:05

      É possível! Mas tenho dificuldade em crer que não haja um direcionamento, uma meta comum entre eles. Há certa organização e não a subestimo. O burro é perigoso, como disse Adorno.
      Mas a inflexibilidade cognitiva, a aversão à Filosofia e a cultura pode ser bem compensada com a expressão corporal e habilidades de oratória. O líder fascista é um maestro quando o assunto é emoção e paixão.

    • 01/02/2015 at 15:32

      Wagner não há dúvida que um monte de burros tem um chefe. Veja as olavetes, sempre andando de dupla desescolarizada.

    • Alexandre Chagas
      15/02/2015 at 12:24

      Porque não se coloca também neste pacote o esquerdopata? Não seria também doutrinária e profundamente limitante a visão de mundo que foi enraizada nas mentes de nossos jovens através do Marxismo cultural de nossas escolas, faculdades, cujo o Sr. mesmo foi vítima?
      Vejo hoje a pecha de Olavete como um orgulho ferido de quem claramente almejaria ter seus Ghiraldelletes.

    • 15/02/2015 at 13:32

      Alexandre Chagas fiquei com dó de você. Você é uma olavete e, como tal, segue um analfabeto. Agora, meu caro, eu não vou ter ghiraldelletes. Eu não faço filosofia para ter seguidores. Mesmo no período que vivi só dos meus livros, ainda assim jamais escrevi ou filosofei para ter seguidores. A filosofia não é feita para tal, ela é feita para ter interlocutores. E estes eu tenho, no mundo acadêmico, claro. No mundo dos que não conseguiram sequer terminar o ensino fundamental, aí não dá mesmo. Esse é o seu mundinho.

    • Alexandre Chagas
      16/02/2015 at 11:53

      Como sempre, diante de uma contestação, melhor que responder é contra atacar. O que seria a Filosofia se não uma ciência da vida? Existe somente para deleite de acadêmicos que se colocando em pedestais inalcançáveis excluem os demais?

    • 16/02/2015 at 17:46

      Alexandre não creio que você entendeu o texto. Sua resposta dá a impressão que não. O texto não pede resposta. Não cabe uma resposta que você deu a esse texto. Não faz sentido.

    • Isabelle
      28/04/2016 at 20:54

      E quando aos cientistas? Você acredita que eles estão livres de conservadorismos, sendo simpáticos às mudanças?

    • 28/04/2016 at 21:42

      Isabelle, ser favorável “às mudanças” na ciência sempre significa mudança do tamanho do pensamento científico, ou seja, setorial, parcial, recortado segundo o objeto.

  3. Ronilson Teles
    31/01/2015 at 13:47

    Muito obrigado Filósofo Paulo Guiraldelli! Estou pensando agora em René Descartes: “Quero que se saiba que o pouco que aprendi até agora quase nada é, comparado com o que ignoro e ainda espero poder aprender” (Discurso do Método). De fato, pela leitura dos textos publicados neste espaço, tenho tido a oportunidade de confirmar o quanto tenho de aprender sobre a Filosofia e sua importância no mundo atual.

    • 31/01/2015 at 16:26

      Ronilson eu tento ser responsável o máximo que um filósofo deve ser. Tanto ao deixar informaçoes quanto ao cultivar formaçoes. As pessoas que sacam isso, conseguem aproveitar meu trabalho.

  4. Cesar Marques - RJ
    31/01/2015 at 12:20

    Bem que o senhor poderia escrever um livro sobre o Stephan Zweig. Conheço poucas publicações sobre ele português, as mais relevantes, são do Alberto Dines.

    • 31/01/2015 at 16:29

      Cesar existe uma obra fantástica sobre ele que é do Deonísio Da Silva.

  5. 30/01/2015 at 23:04

    Antes de nascer um lar conservador e religioso já me aguardava (meu prórpio nome é prova disso), saí desse dogmatismo tarde, aos 22 anos. Ainda bem que saí.

    • 31/01/2015 at 00:50

      Nem todo conservador e burro ou tem família burra. Veja meu artigo no final.

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