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18/12/2017

Menino morto com pancada na cabeça (sobre “amor fati”, de Nietzsche)


O dono da loja deve ter ficado pasmo, amaldiçoando o azar do menino e o seu próprio. A mãe deve estar chorando até agora. O delegado chamado quer encontrar culpados! Quem é o culpado?

O menino foi à loja e subiu num aparador que, como todos os aparadores, inclusive o aqui de casa e o de milhares de outros lugares (imagine o supermercado!), está lá encostadinho na parede. O aparador virou com a puxada do menino de cinco anos e o fez bater a cabeça no chão, matando-o. A mãe estava do lado, mas, é claro, sem olhar para baixo a todo momento porque seres humanos precisam olhar para a frente para andar. Não faz o menor sentido o delegado vir dizer que há culpa da loja, que o aparador deveria estar preso ao chão.  Mas, se o policial insistir logo a mãe se convencerá que há culpados e logo aparecerá gente na imprensa para pedir que se queime a loja. Afinal, uma criança, um anjo, um ser imaculado morreu e alguém tem que pagar. “Alguém tem que pagar” – ressoa!

Deus e Nietzsche ensinaram que não há o que pagar. Deus e Nietzsche, geralmente discordantes em quase tudo, nessa hora, vendo tudo isso, diriam, respectivamente: “olhem para Caim e Abel” e “amor fati”.

Caim matou Abel de pura bobagem, de inveja tola. Deus havia gostado mais do presente de Abel, ainda que se tratasse de um filho e não de uma colheita, ou seja, de algo que não custou muita labuta (creio!). Caim inventou de sua própria cabeça a tolice do “merecimento”. Deus deveria ser justo, igualitário, ou então escolhê-lo por merecimento do esforço. Mas Deus quis mostrar só uma coisa: sou Deus. Ser Deus significa não premiar ninguém por “merecimento”, apenas ser a ordem do cosmos, ou a desordem, a força que deixa as coisas acontecerem e que mostra ao homem o contingente, o acidente, a sorte e o azar. Nem tudo possui responsáveis morais, nem tudo possui culpados. Caso houvesse, ter-sei-a de culpar Deus pela morte de Abel, uma vez que ele provocou a inveja de Caim. Mas Deus não é culpado de nada. Deus é Deus. Um Deus culpado seria um deus não judaico-cristão.

Nietzsche diz algo equivalente: que se ame os fatos. Não cabe a nenhum de nós querer não compreender a contingência, o azar, a sorte, o resultado do jogo de dados uma vez que, enfim, nem fomos nós nem ninguém que sequer lançou os dados. Além disso, no jogo de Dados os lançadores de dados, se existem, não são culpados do resultado, apenas podem dizer “tive sorte” ou “deu azar”. Há coisa no mundo que é da responsabilidade de alguém e se podemos eleger culpados, dentro de parâmetros sociais em que culpados são necessários. Mas, há muito mais coisa no mundo que não obedece essa regra dos homens. Nietzsche chega até mesmo a desafiar o “livre arbítrio”, que teria sido inventado pelos padres da Igreja (ele não leu Santo Agostinho, não importa) exatamente para criar uma legião não só de responsáveis, mas principalmente de culpados, exatamente para poder criar a punição seletiva e útil. Nada além de vontade de poder, no caso, de domínio, exercida pelos padres. Quando pudermos ser antes amantes dos fatos, ou seja, capaz de vivê-los, sem querer alterar o inalterável (mas alterando, claro, o alterável), seremos nietzschianos.

O caso do menino e do aparador é exatamente este: acidente. Alguns gostam de banalizar dizendo “acidentes acontecem”. Nietzsche não diz isso diante de acidente. Ele não pede resignados ou cínicos. Ele pede atenção para isso: os fatos são os fatos, eles possuem a força de cair sobre nós, nos enredar, e se somos amantes da vida temos de amar a vida também nos infortúnios, caso contrário não estaremos vivendo. Amar aqui significa união. Temos de estar unidos à vida, vivendo-a. Não há como viver sem viver, ou seja, estar com aquele controle remoto mágico na mão, de Adam Sandler no filme Click (Estados Unidos, 2006), em que ele se livra das cenas de sua vida que lhe são desgostosas, pulando-as realmente. Ao final ele percebe que não viveu, que pulou quase tudo.

Quando Nietzsche diz amor fati ele está dizendo exatamente isso: viver é viver todas as situações da vida. Nietzsche foi contra os cristãos porque ele entendia o cristianismo como o supra sumo da negação da vida, ou seja, a ideia esdrúxula de saltá-la, ir para o além-da-vida. Há algo mais deprimente que ver aquele que vive como o Leonardo Boff, vendendo livro de auto-ajuda para que todos “vivam bem” e ao mesmo tempo dizendo que só na vida eterna, após a morte, é que haverá vida? Não! Nietzsche urinaria na boca de Boff, e talvez Deus também.

Paulo Ghiraldelli

Veja a notícia, talvez você seja daqueles que precisam encontrar culpados. Clique aqui.

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18 Responses “Menino morto com pancada na cabeça (sobre “amor fati”, de Nietzsche)”

  1. 12/11/2016 at 02:30
  2. Legalzinho
    15/05/2015 at 13:50

    O q Santo Agostinho tem a ver com essa história toda?

  3. Legalzinho
    15/05/2015 at 13:49

    Nietzsche era imoralista?

    • ghiraldelli
      15/05/2015 at 17:54

      Legalzinho, Agostinho aparece no texto em contraponto a Paulo, não viu?

    • ghiraldelli
      15/05/2015 at 17:56

      Não cabe o termo imoral. A coisa é mais complexa.

  4. sonia
    15/05/2015 at 11:56

    Nietzsche não leu Santo Agostinho? Não foi ele q criou a noção de livre-arbítrio?

    • ghiraldelli
      15/05/2015 at 17:55

      Tudo indica que Nietzsche não leu Agostinho. Sua crítica ao livre-arbítrio, claro, não precisaria de Agostinho para se colocar.

  5. sonia
    15/05/2015 at 11:08

    Nietzsche pregava o fim da moral?

    • ghiraldelli
      15/05/2015 at 11:11

      Nietzsche não pregava, ele não era pastor.

    • sonia
      15/05/2015 at 11:17

      Sim, mas ele era contra qualquer moral?

    • ghiraldelli
      15/05/2015 at 17:57

      Sônia, a coisa é mais complicada que um “sim” ou “não”. Comece por A aventura da filosofia, I e II (Manole). OK?

    • Lucian Donizetti Maciel
      25/05/2015 at 15:16

      Acho que de certo modo esse texto a respeito de Nietzsche mostra também como as pessoas são afobadas não só em busca do “culpado”, mas também de respostas, e também de automaticamente quererem classificar os outros. Por exemplo, “fulano é de esquerda ou direita?”, “você é a favor ou contra?”, “Nietzsche era moral ou amoral?”

  6. claudio dionisi
    11/05/2015 at 15:30

    Se o menino subisse em uma cadeira e caísse de cabeça no chão, de quem seria a culpa? Da cadeira, do chão ou da Herbalife? Fatalidades ….

    • ghiraldelli
      11/05/2015 at 15:34

      O problema filosófico no caso, enfrentado por Nietzsche, não é essa questão, mas questão: por que criamos a “culpa”.

  7. Roberto William
    09/05/2015 at 09:56

    “Ser Deus significa não premiar ninguém por “merecimento””. Interessante, eu sempre vi Deus como alguém que oferece aquilo que merecemos e não aquilo que queremos ou supostamente necessitamos. Embora já faça um tempo que eu tenha ciência desse caráter aleatório da vida. Não temos tanto controle da vida tanto quanto desejamos. Muita coisa acontece por acaso.

    • ghiraldelli
      09/05/2015 at 10:02

      O herói do texto é Nietzsche, não Deus.

  8. Marcos Miller
    08/05/2015 at 23:58

    Paulo, um bom exemplo do amor fati será que poderia ser o Meursault (O Estrangeiro, de Albert Camus)?

    • ghiraldelli
      09/05/2015 at 01:13

      Não sei dizer Miller, eu vi coisas de Camus nos anos 70, no colégio, depois nunca mais peguei.

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