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25/05/2019

Massacre de Suzano: a seita dos Chans e o mundo das imagens


Não há dúvida que os assassinos do massacre da escola Raul Brasil, em Suzano, passaram pelo fórum virtual dos Chans. Trata-se de um grupo de anônimos na Internet que cultiva as armas, o “fazer justiça” e, enfim, a morte. Há vários desses grupos pelo mundo virtual, em todo tipo de língua.  Os estudos sobre esses grupos, infelizmente, é levado adiante, no mundo todo, principalmente por psicólogos. A tendência dos psicólogos, no caso, é a de reduzir a visão a questões de bullying, baixa estima, narcisismo, predisposições suicidas, descaso dos pais etc. A maior parte dos artigos vindos dessa área desconsidera o estudo histórico de grupos desse tipo e, pior ainda, não dão atenção para a própria estrutura dos fóruns, que são como que seitas organizadas.

Ações de ataques seguidas de suicídio são bem diferentes de suicídio solitários, de pessoas depressivas etc. Ações de ataques são feitas com objetivos grandiosos.

Em geral, o que se busca no mundo antigo, com tais ações, é a glória. Não é necessário, no caso, qualquer visão substancialmente transcendente. Basta que o nome seja inserido no panteão dos deuses. Mas não como uma homenagem individual que, afinal, não poderia ser observada pelo autor, pois este já está morto quando o respeito da comunidade vier a cair sobre ele. Trata-se, no caso, de não desobedecer aos deuses, cumprir seu destino, não deixar que se impere o caos. O cosmos precisa ser mantido. Ou seja, a harmonia tem de prevalecer. Quem nasceu para herói, então, que seja herói. Foi por isso que Aquiles voltou à Guerra de Troia, para cumprir seu destino. Não honrar a morte de seu companheiro, matando o adversário, seria tirar a Terra do seu eixo, seria fazer o Cosmos virar o Caos.

Mas como ocorre a glória, ou o que restou dela, no mundo moderno?

A visão moderna apela para a transcendência: Cristo se oferecendo na Cruz, os kamikases se jogando contra navios aliados e ganhando uma atenção do Imperador divino, os terroristas do mundo árabe atual se colocando a caminho das mil virgens, e por aí vai. Mas o que resta da glória, na comunidade dos Chans, nada tem de apelo ao transcendente. Nem se trata de uma volta à glória antiga. Não se quer passagem para o Céu ou outra vida, nem se quer entrar para o panteão dos heróis cultivados na memória dos que ficaram. É aqui que os estudiosos erram. Imaginam que com o movimento No Notoriety (sem notoriedade), eles podem barrar as ações dos Chans. Basta não publicar nada sobre eles, e então eles perderiam a motivação. Não é isso. Não se consegue barrá-los por meio dessa atitude. Pois os Chans não querem notoriedade pela imprensa comum, e nada querem a posteriori. Eles obtém a reverência necessária no exato momento apoteótico da ação. E isso, de maneira real. Pela profusão na Internet e perante outros Chans, das imagens de sua ação. Trata-se de espetáculo. Minutos antes do final da ação, na hora do suicídio, eles ainda olham a comunidade que já os glorifica, gritam por eles, transmitem as fotos em tempo real e os cultiva. Tudo é questão de minutos. Mas vale a pena. Pois a endorfina obtida ali é maior que um gol marcado, uma droga, um êxtase religioso ou um êxtase sexual. É na verdade um êxtase e um ecstasi (no sentido heideggeriano), ou seja, um gozo e também uma confluência do tempo, um acontecer que funde passado, presente e futuro num só ato. Isso é essencial para a glória moderna, que é glória individual. Mas, nesse caso, uma glória realmente vivida, sem apelo transcendental. Isso singulariza dos Chans e grupos similares.

Nada que se faça para barrar o aparecimento do feitos desses jovens na imprensa regular, mudará as coisas. A ideia dos Chans é a obtenção da supremacia. Portanto, prova-se para si mesmo que se é melhor que outros, tidos como melhores, exatamente pelo ato de matá-los, “fazer justiça”, e ultrapassar a morte pelo suicídio – os outros, os mortos ou feridos, correram, fugiram, foram covardes. O atirador se mata, em comunhão com sua arma, sua adoração. Morre completamente feliz. Não fugiu. Em um momento único, foi ungido rei. E sempre o será, pois a comunidade, nos minutos antes de sua morte, presencia todas as imagens e sabe que está diante de alguém que não voltou atrás. Que se impôs. Aliás, quando alguém está disposto a dar esse passo, começa a postar fotos referentes ao que vai fazer, denuncia o assunto, deixa claro para todos que algo grande vai ocorrer, que devem ficar atentos, pois a missão de bravura e supremacia está para acontecer. E acontece.

Todos os meus estudos sobre essas comunidades, de uns três anos para cá, me deram condição de ver essa regularidade de comportamento, e a regularidade da cerimônia instantânea de cultivo à gloria. Quando Bolsonaro cria, a partir do poder, o cultivo às armas, e quando a Taurus vê seu lucro crescer, essas comunidades ficam visivelmente excitadas. Jamais faltou nessas comunidades frase de regozijo com a morte da Marielle. Não por Marielle, mas pelo modo como ela morreu. Os tiros, a ação, a aventura – tudo isso encanta esses jovens. Mas os assassinos de Marielle não foram comemorados. Não se mataram. Não foram dignos. Isso, para os Chans, ficou bem claro. A família Bolsonaro é vista com bons olhos por eles, mas por estarem vivos, ainda são de segunda categoria, são covardes.

Paulo Ghiraldelli Jr., 62, filósofo.

42 Responses “Massacre de Suzano: a seita dos Chans e o mundo das imagens”

  1. 26/03/2019 at 15:47

    Muito bom Dr., quando posso ver uma palestra sua aqui em são paulo? Abraço!

  2. Fernando Lefevre
    18/03/2019 at 14:58

    MASSACRE DE ZUZANO E A NECESSIDADE DE SEU ENTENDIMENTO

    Ferando Lefevre

    2019

    Os dois assassinos do massacre de Zuzano (março de 2019) se mataram no fim do drama, da cena trágica.
    Significa isso que jamais saberemos ou avançaremos no entendimento dos porquês do ato?
    Paulo Ghiraldelli comentou recentemente a ocorrência e o espírito de seu comentário foi o de crítica às explicações que, segundo ele, fatalmente teriam lugar.
    Pensa ele que deveríamos ficar alertas para criticar tais explicações convencionais – de natureza psicologizante, influência dos games violentos, fascínio pelas armas, etc. – para colocá-las no seu devido lugar, o do senso comum.
    Estamos vivendo, no Brasil e no mundo pós moderno, está perfeitamente claro,considerando um contexto mais proximal e mais distal (Ghiraldeli se refere nesse sentido, por exemplo, à “sociedade do consaço” de Byug-Chul Han, com sua ênfase no sujeito que mais que explorado se auto-explora), num espaço global e local (com suas cenas e narrativas explicitas encarnadas no fascistóide local e em seu entorno) onde é evidente a presença da violência, do culto às armas, do autoritarismo machista, da “deep web” e até mais diretamente (via Estados Unidos sobretudo) dos massacres em Escolas.
    É claro que tudo isso concorre para situar o massacre de Zuzano, no tempo e no espaço, para iluminar este caso específico e mesmo para afastar o perigo da explicação meramente psicologizante.
    Mas acontece que “desgraçadamente” ( para usar um termo que busque fugir de mal entendidos) os autores se mataram e, com isso, dificultaram, se não impediram a busca das causas eficientes.
    Restam, assim, entre outras, as perguntas: por que do ato em si? Por que na Escola? Por que dois assassinos? A dupla tinha a(s) mesma(s) (s) motivação (ções) ou cada um as suas? Por ambos não se suicidaram, já que um assassinou o outro? Etc.
    É basicamente importante saber tais causas mais diretas (além das circunstâncias) para poder lidar preventivamente com o fenômeno. Mas como: a voz dos autores não poderá ser ouvida; como, no dizer de Baudrillard, os fatos notáveis, na pos modernidade, são como cometas que brilham no ceú e deixam rastros que somem rapidamente na espera de outra notícia “bomba” e, finalmente, como estamos no Brasil, onde investigações policiais aprofundadas não fazem parte de nossa tradição, notadamente em casos onde a Escola é pública e não privada e, consequentemente, as vítimas são pobres e, mais decisivamente, onde no fundo, não são investigações “necessárias” (afinal, com o suicídio dos autores, de um ponto de vista meramente policial, o caso não estaria “encerrado”?) é bem provavel que o massacre de Zuzano passe para a história como, mais um, crime sem (a devida ) explicação.
    Podemos pensar, como sugeriu um amigo, que, na cultura desses massacrantes, o suicídio imediatamente após o ato seja uma condição necessária (de pertencimento ao grupo) para que o próprio grupo ou a própria seita não sejam revelados.
    De qualquer forma o entendimento do massacre de Zuzano e outros do mesmo tipo sera sempre incompleto, com o suicídio dos autores.

  3. Micael
    18/03/2019 at 02:02

    Muito bom professor, análises bem sólida.

  4. ELIANE DE MELLO
    17/03/2019 at 21:52

    Prof. Paulo, lhe admiro muito e tenho aprendido com seu trabalho. Sou estudante de psicologia e me interesso muito por estudos que nos ajudam a entender de onde vem essa pré-disposição a ataques violentos. Cheguei a um projeto chamado MKULTRA, programa ilegal e clandestino de experiências com seres humanos desenvolvido pelo programa de Inteligência dos EUA (não sei se de fato existe essa relação), o interesse final seria o controle total da mente, utilizando vários fatores, como drogas, músicas, etc, para ser utilizado com técnicas de torturas e ataques solitários ou em alguns casos reivindicados por grupos extremistas, entre outros. Essas comunidades teriam de fato alguma ligação clandestina como o estado americano (na origem) , isso é possível? Gostaria que fizesse um estudo explicando qual seria o interesse dessas comunidades? Como foram criadas e o que elas buscam? Como você mesmo disse, não existe nada mais aprofundado sobre como se estruturam internamente?
    Como exemplo de música utilizada por essas comunidades para chegar ao jovens e adolescentes, encontrei a Pumped Up Kicks” … – Veja mais em (https://entretenimento.uol.com.br/noticias/redacao/2019/03/14/foster-the-people-parou-de-tocar-pumped-up-kicks-por-ligacao-incorreta-com-atentados.ht/?cmpid), da banda americana Foster the People, fiquei simplesmente chocada com a tradução dessa música.?

    Muito obrigada pela disposição de repassar conhecimento.

    • 19/03/2019 at 17:59

      Cuidado com as ficções a respeito do Leviatã americano

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