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19/10/2019

Marx e Nietzsche só para inteligentes


Marx morreu em 1883, quando Nietzsche entrava em sua segunda e última década produtiva. Os scholars afirmam que Marx e Nietzsche não se leram. Além disso, trabalharam em registros distintos.

Nietzsche fez uma crítica à filosofia metafísica utilizando-se de elementos do que em seu tempo estava tomando corpo como ciências humanas. Marx fez uma crítica ao que seriam as ciências humanas, especialmente ao que viria a ser a sociologia e a economia, tendo nas mãos instrumentos filosóficos metafísicos aos quais acabou dando grande contribuição. Os que não prestam atenção nisso, podem errar duplamente. Não são poucos os que erram, mesmo não sendo jovens.

Em geral, ao lermos a modernidade segundo suas óticas, podemos encontrar no campo filosófico vários temas comuns, todavia, talvez o estudo da hierarquia seja o que pode uni-los sob uma mesma rubrica. Marx e Nietzsche se deixaram impressionar pela modernidade enquanto uma época de quebra de hierarquias valorativas. Ambos foram empurrados pelo seu tempo no sentido de criarem um novo tipo de conversação a respeito do valor. A democratização dos valores advinda das revoluções burguesas ou, digamos assim, a própria modernidade, atingiu ambos profundamente. Eles reagiram tecendo inovadoras teorias do valor. Marx construiu com isso uma teoria da ideologia, enquanto Nietzsche elaborou uma filosofia da história. Respectivamente seus elementos foram a mercadoria e o niilismo.

 Marx estudou o mercado e, nele, a maneira como os produtos deixavam essa sua condição para se tornarem mercadorias. Perdiam seu valor de uso e ganhavam o seu valor efetivo, ou seja, o valor de troca. Dessa maneira, as mercadorias podiam ser trocadas por um elemento comum, abstrato, o dinheiro, e fazer o mercado deixar de ser um lugar de troca de produtos para ser um campo de circulação de valores numéricos. Marx notou também que a universalização do mercado capitalista levava a todos os lugares o modo de pensar do próprio mercado, e que esse modo, que é de equalização de tudo com tudo a partir do elemento abstrato, o dinheiro, tornava as relações todas entre homens como relações do tipo da relação do mercado. Pessoas e coisas perderam seus rostos e suas características ao serem valorizadas como o que se iguala ao elemento abstrato para existirem, para então ainda terem algum valor como valor.  Em um mundo assim, as próprias mercadorias, uma vez impondo sua feição a tudo, passaram a dar ordens, ganhando vida – o que Marx chamou de fetichismo. Ao mesmo tempo, os produtores e consumidores dos produtos, então mercadorias, passaram a obedecer tais ordens, se tornando então coisas – e isso Marx chamou de reificação. Essa inversão de papeis entre o que é o morto e o que é o vivo passou então a aparecer socialmente como ideologia: todos nós somos capazes de falar do real ao falarmos que o mercado é importante, mas ao mesmo tempo não conseguimos nos ver como vivendo no mundo do Walking Dead, e é isso que a ideologia mostra e ao mesmo tempo esconde.

Eis o exemplo. Entramos numa loja e achamos que compramos e levamos uma calça jeans, mas não é bem isso que ocorre. O que acontece é que a calça jeans só vai conosco ao nos ver obedecendo a determinadas condições: faz-nos não só trabalhar mais para comprá-la, mas nos leva a emagrecer, inclusive nos obrigando a pagar para que médicos e academias arranquem nacos de nós. A calça age como sujeito nos colocando na condição de objeto.  O morto comando o vivo.

Nietzsche estudou a “morte de Deus”, ou seja, o avanço da concepção de mundo científica como dominante e, desse modo, afastando de uma vez por todas todo e qualquer “mundo real”. O mundo da ciência e, portanto, de sua filosofia associada, o positivismo, é um mundo de modelos. Nada é efetivamente o real, tudo é modelo que explica as coisas dando-lhes seu “para que” como solução para o seu “o que?” Depois, esse modelo pode ser trocado por outro melhor e outro e mais outro. Enquanto duram, eles são chamados de retrato fidedigno do real. Mas todos nós sabemos que a ciência só continua viva mantendo-se na atividade de desmentir o modelo vigente e, se consegue, é para criar outro modelo. Nesse sentido, nenhum valor absoluto mais se põe no horizonte e, então, a filosofia metafísica perde espaço. A teologia explode ainda que as pessoas possam continuar a ter religião. A perda de todos os valores mais profundos e altos por conta da perda da esperança em encontrar um valor absoluto varre o mundo, e isso é o que Nietzsche chama de niilismo. Trata-se da desvalorização de todos os valores.

Marx viu que todas as coisas perdiam seu valor adquirindo o valor de uma abstração e, daí, forçando uma equalização de coisas, animais, terrenos, homens e mulheres, sentimentos etc. Nietzsche viu que todas as coisas perdiam seu valor à medida que o valor maior, o valor absoluto, nada era senão algo não mais interessante. Na conta de Marx, uma sociedade sem mercado, aboliria a ideologia vinda do fetiche e da reificação. Na conta de Nietzsche, um mundo sem o homem, aboliria o próprio ato de valorar, essa maldição “demasiadamente humana”. Uma sociedade comunista, ou seja, sem mercado, seria uma sociedade de visibilidade completa de tudo, sem ideologia. Uma vida segundo o Além-do-homem seria uma vida vivida em sua plenitude, sem a perda de valores uma vez que valor nenhum mais importaria.

Marx estava falando de uma transformação que implicaria em uma revolução nos moldes das revoluções que ele viu: as revoluções burguesas. Nietzsche estava falando de uma transformação que implicaria uma transvaloração de todos os valores, nos moldes do que ele exemplificou por meio de uma transvaloração ocorrida: a “revolta dos escravos na moral”, os inúmeros episódios tipológicos nos quais Nietzsche mostrava a vitória do fraco ou doente sobre o forte ou sadio.

Quando conversamos nesses termos, nossa linha sociológica de pensamento diminuiu sua cobrança, e Marx e Nietzsche se aproximam de um campo mais filosófico, digamos. Podemos então vê-los numa mesa de bar em uma conversa que não é a das crianças, que ficam juntas, mas se mantém isoladas, pois brincam cada uma o seu brinquedo. Fora desse campo comum, os riscos dessa criancice voltar a aparecer não são pequenos. Quando ocorre, então estamos diante dos erros fatais, que, como disse, não é algo cometido por gente nova somente.

Filosoficamente Marx e Nietzsche foram revolucionários.  Inspirar-se neles para criar teses conservadoras e aprisionadoras é ridículo. É mostrar não tê-los lido. Olha, há até pessoas escrevendo orelhas de livros de ambos sem os terem estudado, ou mesmo lido!

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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8 Responses “Marx e Nietzsche só para inteligentes”

  1. alexandre
    16/03/2015 at 15:50

    A respeito do exemplo da calça jeans (que se aplica a tudo) transformamos o produto em sinonimo de bem estar ou seja se eu tiver aquilo terei o que tanto desejo: a felicidade.
    Tudo virou apenas um objeto, uma viagem , um livro, um prato de comida sofisticado, ou seja são objetos que servem apenas para ostentação nada mais que isto.
    Não sei se sempre foi assim ou se sempre foi isto está cada vez mais sofisticado.

    • 16/03/2015 at 16:06

      Alexandre, nada tem a ver com a felicidade. Nem mesmo agora com o bem estar. Mas simplesmente com o “viver” como “sobreviver”, a ideia de que se pode controlar algo. Quanto menos controle, mais me apego a algo que me faz achar que controlo. Comprar algo dá essa sensaçao. É com achar que ter uma arma dá proteççao.

  2. 4F
    15/03/2015 at 23:13

    Mais um excelente texto!

    Uma vez reconhecido o problema do niilismo, que se poderia fazer? Não seria possível desenvolver uma teoria moral que não dependa de nenhum princípio trascendente?

    Infelizmente, não tenho lido um conjunto significativo da obra de Nietzsche, mas conjeturo que foi isso o que ele tentou fazer.

    Nesse sentido, [pergunta:] conseguiu Nietzsche desenvolver uma tal teoria?

    Não sei a resposta. Talvez não tenha produzido uma teoria completa, mas acho que deixou esboços: [pergunta:] Não seria o Além-do-homem um exemplo de sujeito pautado por esse tipo de moralidade?

    • 15/03/2015 at 23:15

      Você não entendeu a solução dada por Nietzsche? A de Marx é mais popular? O Além do homem precisa ser, paradoxalmente, homem? E sujeito? Que isso?

    • 4F
      16/03/2015 at 00:16

      Algo do tipo “viver amando ao destino” não seria apenas uma prescrição sobre a condição psicológica do sujeito?

      Confesso que não consigo enxergar que tipo de sociedade seria aquela onde _todos_ os sujeitos sejam Além-do-homem, como estaria organizada, etc.

      Talvez porque estou atribuindo um valor à “organização da sociedade”, mas em tal sociedade valor nenhum mais importaria. Quero dizer, valor metafísico.

    • 16/03/2015 at 00:34

      4f Você só sabe pensar sociologicamente. Você lê o artigo, eu inicio mostrando que Nietzsche não faz sociologia, e você quer uma socieade a partir de Nietzsche? Mas por que não levar a sério o texto e lê-lo?

  3. Hudson Vieira de Andrade
    15/03/2015 at 15:40

    Quando cheguei na UFAL, uma amiga que morava comigo, convidou-me para assistir uma aula do professor de filosofia Sérgio Lessa. No período, estava inciando a leitura do Nietzsche, cheguei eufórico no final da aula ao professor com o objetivo de mais esclarecimentos e tenta abrir um diálogo sobre algumas ideia. Para o meu desapontamento, assim que citei o nome do filósofo, o professor disse que iniciou sua leitura na juventude, mas abandonara, dizia que tratava-se de um autor “burguês”. Ainda, sugeriu-me que abandonasse sua leitura, seguindo da indicação de algum filósofo mais sensível “aos problemas sociais” – se me recordo Georg Lukács. Puts, na época fiquei desapontado, sempre me ensinaram a ler filosofia de modo “apartidário”, sempre me ensinaram a valorizar os clássicos. Entre temor e tremores imaginei que lendo autores de base marxista ficaria bobo tanto quanto nosso professor, me distanciei dessa leitura. Hoje, percebo que fui tão tonto ou mais que essa figura.

    • 15/03/2015 at 15:42

      Hudson você é jovem e pode simplesmente não reproduzir comportamento de professor dogmático. Aliás, é fácil fazer isso para quem é inteligente. E por mais que um burro tente nos guiar quando somos jovens, nossa inteligência, chega uma hora, se revolta.

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