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23/10/2017

Marx e Nietzsche: comunhões


Marx e Nietzsche trataram de temas bem próximos, ainda que com abordagens distintas. Os tempos modernos os impressionaram quanto ao tema da mudança de valores, e ambos buscaram compreender esses tempos justamente abordando o tema do valor.

Nietzsche falou na “morte de Deus”, ou seja, na desvalorização de todos os chamados valores máximos, e deu a isso o nome de niilismo. Marx falou no mercado como campo de substituição do valor de uso pelo valor de troca, e na mensuração deste por uma abstração, o dinheiro.

Marx tomou o valor reinante como não tendo mais caráter de valor propriamente dito, uma vez que o “equivalente universal” não seria outra coisa senão quantidade, ou seja, o dinheiro. Falar em valor seria falar em número e, portanto, algo bem diferente do que se entendia até então como valor, algo necessariamente qualitativo. De certo modo, estava-se falando, nesse sentido, do sumiço do que era o valor. Na linguagem de Nietzsche, o fim mesmo dos valores enquanto valores. Assim, de certa forma, o niilismo exposto por Nietzsche seria uma maneira de falar daquilo que no jargão de Marx foi exposto como a universalização da sociedade de mercado.

Vendo assim o ocorrido com os valores, ambos os pensadores tiveram de reinterpretar o homem. No caso do homem moderno, que se punha na condição de sujeito, eles não escaparam de ter de teorizar sobre os rumos da subjetividade moderna.

Nietzsche falou do sujeito como inexistente do ponto de vista substancial, tendo de ser visto somente como elemento gramatical. O eu responderia apenas a uma necessidade gramatical, e não a um agente substancial com capacidade de exercer a liberdade e, então, realizar espontaneamente atos e julgamentos. Com isso, Nietzsche quis atacar seriamente a metafísica cuja expressão máxima, na modernidade, seria a tríade Descartes-Kant-Hegel. Por sua vez, Marx falou da inversão do sujeito por conta do fetichismo da mercadoria. Uma vez produzida pelo trabalhador em situação de divisão do trabalho, e uma vez sendo expropriada do trabalhador de modo a voltar sobre ele no mercado e no fluxo das imagens da modernidade, a mercadoria forneceria sua dança, seu espetáculo. Assim, agiria como o sujeito, submetendo o homem, até então sujeito, a agora se comportar como objeto. O homem trabalhador transformado em consumidor seria manipulado pela mercadoria e suas imagens, capazes de dizer a ele o que seriam seus desejos.

Assim, de um ponto de vista geral, Marx e Nietzsche questionaram a facticidade do sujeito moderno e a própria noção ou conceito de subjetividade moderna.

Atacando a instância de certo modo responsável não só pelo “eu quero”, mas também pelo “eu penso”, Marx e Nietzsche tiveram de comentar os processos de conhecimento. Nietzsche declarou que não tinha como admitir o texto ou o fato, mas apenas interpretações. Inaugurou com isso o perspectivismo. Marx não chegou a tanto, mas fez algo não menos radical. Trouxe a interpretação humana como sendo crivada exatamente pelo mercado, pelo fetichismo e reificação, que ele chamou de alienação do homem – isso seria uma ideologia emergente do próprio mercado, e impediria o homem de enxergar essa sua situação de degradação em forma de coisa.

Desse modo, o homem nietzschiano, caso tivesse de sair do senso comum, não teria alternativa senão ser perspectivista. Por sua vez, o homem marxiano, caso quisesse escapar da dominação da ideologia, vitimadora do senso comum, teria de desenvolver um pensamento crítico capaz de desvendar os processos de alienação, o núcleo da ideologia. Claro que, em ambos os casos, tais posturas não poderiam ser exclusivamente intelectuais, mas envolviam mudanças de comportamento. E nisso veio o projeto de Nietzsche, de edificação individual, e o de Marx, de revolução social.

Talvez esse ponto tenha sido o mais marcante quanto às distinções que se seguiram a Marx e Nietzsche, quanto aos que os leram e os aproveitaram. Duas escolas filosóficas que se desenvolveram no século XX ficaram em grande dívida para com tudo isso, e se diferenciaram bem quanto aos procedimentos a respeito do conhecimento, da ação e da visão geral das coisas. O perspectivismo foi abraçado pelo pragmatismo americano. A crítica da ideologia tornou-se elemento forte da Escola de Frankfurt.

Em tudo que fazemos hoje em filosofia, há algo dessas duas escolas. Pode-se dizer que é difícil filosofar sem elas hoje. Mas, enfim, quem iria querer passar sem elas? Elas ainda nos dão muito que pensar a respeito do que vivemos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 57, filósofo.

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2 Responses “Marx e Nietzsche: comunhões”

  1. Thiago Leite
    09/06/2015 at 18:53

    Nietzsche e Marx tem alguma relação com o muro de Berlin? O muro pode ser considerado uma divisão entre os dois?

  2. Matheus Kortz
    02/06/2015 at 20:58

    SEN SA CIO NAL, quase um “espetáculo” só pra parafrasear haha

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