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28/06/2017

Marilena Chauí: o aprendizado a respeito da palestra sobre família


Quando Marilena Chauí diz que “a família é uma invenção do capitalismo”, apesar da frase ser um pouco grosseira, ela está certa. É uma verdade sociológica. A família dita família é uma criação burguesa, no sentido de criação da modernidade. Esse padrão de família da chamada sociedade tradicional é, na verdade, fruto não da vida tradicional, mas da vida moderna, um mundo bem descrito no retratos das várias classes sociais da excelente série Downton Abby.

Ou seja, a estrutura familiar antiga e medieval não corresponde ao conceito que temos de família, hoje em dia. E o que temos como família, hoje em dia, tem a ver com os tempos do capitalismo clássico, e que em geral funciona antes como preconceito que como um bom conceito. Trata-se da ideia de um pai e uma mãe com no máximo três filhos, todos filhos biológicos de um primeirao casamento, sendo este pai e mãe também não divorciados. Trata-se da família dos profissionais liberais que se fazem entre famílias aristocráticas e família proletárias. Qualquer elemento fora disso, é sim aceito como família por boa parte da sociedade, na vida prática, mas na hora dessa mesma sociedade explicar o que é família, ela recorre o conceito que, enfim, é esse conceito que pode ser preconceituoso, pois muito restritivo.

O longo desenvolvimento do capitalismo, criando a vida na cidade e, então, a privacidade burguesa, gerou esse conceito de família. Marilena deveria explicar isso, mas não explicou, e nisso residiu o seu pecado na palestra feita para um colégio caro de São Paulo, em 2016, que lhe rendeu tantos problemas quanto aqueles outros já obtidos pela sua frase “eu odeio a classe média”. Mas o que ocorre aqui, nessas frases, em especial no caso da noção de família?

O que se passa é que a professora e filósofa Marilena toma o capitalismo negativamente, e então, sendo a família algo do capitalismo, esta também logo desliza para o plano negativo, como sobrecarga de juízo de valor nas costas. Isso fere o conservador, que tem a noção de família tradicional como ideal; mas o problema é que tende a ferir até mesmo o não conservador, que pode achar que a filósofa está falando de um tipo de família na qual ele vive, que não é nada tradicional. Nos tempos em que estamos vivendo, um certo relativismo e uma certa explicação para além da conta, se faz necessário sim. A duras penas eu tenho também aprendido isso.

Quando vamos falar como professores e filósofos, o melhor é relativizarmos. Por exemplo: “segundo uma visão social, capitalismo e família estão ligados em gênese, e segundo uma visão, os males do capitalismo então colonizam a família”. Daí por diante, trata-se então de explicar isso, e deixar por conta da visão apresentada enquanto uma perspectiva a noção de família. É uma forma mais elegante de agir, e em nossos tempos, necessária. A elegância vem pela relativização, a necessidade vem por conta de que de fato se está trabalhando hoje com uma juventude menos propensa a visões contestadoras do capitalismo, e também menos culta em história. Não vejo esse tipo de preocupação em Marilena Chauí. Ela parece falar como se falava nos anos 80, quando todos aceitavam o seu discurso, e parece que ela própria se esqueceu que mesmo quando todos aceitavam, ainda assim ela própria, filósofa, não poderia ter aceitado tão facilmente o que falava.

Todavia, vamos ser críticos. Nos anos setenta e oitenta, Marilena já falava com um sorriso de canto de boca. Falava como quem estivesse desvelando uma verdade que só ela (ou marxistas ou coisa assim) soubessem. Palestrava como quem fosse um oráculo capaz de dar charadas fáceis, e que só teriam um caminho para o entendimento. Dava aula como quem desvendava a “ideologia dominante” que todos os conservadores estavam tentando esconder ou então estavam “sem consciência” para notar. Isso lhe deu sucesso, hoje isso é a sua desgraça. E tal coisa tem de ser vista em dois sentidos, como já disse. Positivamente: hoje há interlocutores que não partilham dos mesmos pressupostos. Negativamente: hoje há interlocutores que não são interlocutores, são pessoas menos cultas que tomam tudo ao pé da letra,  e que são capazes de acreditar que Marilena é comunista ou coisa assim. Não levar em consideração esses dois fatores é querer se enterrar. Ou então optar de vez por ficar só dentro de uma claque de fanáticos.

Não há mais espaço para filósofos inteligentes no campo da esquerda ou direita. Os filósofos precisam se retirar da política. Podem até fazer campanha política, mas, para pensar, precisam fazer melhor do que estão fazendo. Todos nós filósofos precisamos melhorar nosso pensamento, sabermos falar a partir de várias perspectivas. Explicar melhor o que são pressupostos e petições de princípio. Não vamos conseguir isso se acharmos que atualmente cabe a fusão de pensamento e militância, como se estivéssemos ainda nos anos 60 e 70. Não estamos, felizmente.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo 19/02/2017

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7 Responses “Marilena Chauí: o aprendizado a respeito da palestra sobre família”

  1. Orivaldo
    04/03/2017 at 16:33

    O catequista por natureza tem sempre “esse sorriso”. O de quando você concorda porque enfim entendeu, ou o de quando você discorda porque a sua ficha ainda não caiu. Nesse caso “o sorriso” também é pra demonstrar toda paciência que ela tem .

  2. Paulo
    22/02/2017 at 20:27

    A foto da Chaui é bem antiga. Dava até um caldo. Mas hoje…

    • 22/02/2017 at 21:49

      Markes! Chauí foi uma moça linda. Mas filósofos não precisam de beleza, precisam de mente aberta.

  3. Raimundo Marinh
    22/02/2017 at 11:45

    Mestre Ghi, obrigado pelo texto.

    Achei o sorriso dela parecido com o do Pondé !!!

  4. Bruno
    19/02/2017 at 20:51

    Já perdi a conta do quanto de pessoas esquerdistas com esse sorrizinho de canto de boca que eu conheci na minha vida intelectual. Felizmente, estou muito afastado delas hoje.

  5. Matheus
    19/02/2017 at 16:10

    Ótimo quadro da filmagem esse em que ela já está esboçando “o sorriso de canto de boca”.

    • 19/02/2017 at 17:28

      Era exatamente assim, Matheus. Pode reparar nas palestras dela. Isso era muito chato.

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