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25/04/2018

Marielle repõe o Brasil na sua polaridade correta


[Artigo para o público em geral]

A política brasileira não pode se resumir a uma polaridade sobre “prender Lula” ou não. A terrível morte da vereadora Marielle, do PSOL, em 24 horas, remodelou tudo – e parece ter corrigido isso. A polaridade recolocada é a de “defensores dos Direitos Humanos e da civilização”, de um lado, e os desprezadores da via política, por outro.

A polaridade anterior era ridícula. A polaridade atual, mais séria e necessária, infelizmente teve de se reinstaurar desse modo trágico. Marielle esperava mudar as coisas. De fato mudou. Mas não pensava em pagar com a vida para tal.

Uma primeira prova de que Mariella mudou o Brasil em 24 horas é que a Rede Globo, em mais uma excelente reportagem, insistiu na condenação vinda das forças anti-violência do mundo todo quanto à agressão contra os os defensores dos Direitos Humanos no Brasil. Uma segunda prova: Raquel Dodge, Procuradora Geral da República, deixou claro que a morte de Marielle não é uma morte comum, é a execução de uma militante política, e que isso precisa acabar, pois trata-se de um crime contra a democracia liberal e, portanto, uma crime contra a nação, uma vez que nossa Constituição endossa a democracia liberal oficialmente.

Será que vamos conseguir polarizar a política nesses termos? Será que vamos ver que estamos, de fato, nos encaminhando para a situação pela qual a Colômbia viveu com Pablo Escobar, e então reagir a isso como Marielle vinha fazendo? Ou vamos logo voltar à lenga lenga da prisão ou não de Lula (o homem que jogou seu biografia no lixo e quase que leva o país junto)? Lula tem que ser preso como qualquer outro. E a parte do PSOL que ainda quer defendê-lo, que se dane. O que importa mesmo é agora manter Marielle viva como símbolo dessa nova polarização. Temos de convencer uma boa parte da juventude brasileira que ou todos nós assumimos a defesa dos Direitos Humanos, ou as milícias e o banditismo, que se fundem e arrastam boa parte de policiais, irão criar a inviabilização da política e, portanto, a instauração da barbárie. A inviabilização da via política é a inviabilização não só da democracia liberal,  mas, no nosso caso, o próprio fim da vida cotidiana, primeiro para pobres e em seguida para ricos. Ninguém escapará.

O Estado tem o monopólio legítimo e constitucional da violência (Weber) e, por isso mesmo, tem de ser observado e controlado por forças sociais. Nesse caso, todo país civilizado tem seus Defensores dos Direitos Humanos, pois em todo lugar o estado está sempre diante da possibilidade e cometer erros, excessos, ou até mesmo se deteriorar e se associar as milícias que, enfim, nada diferem dos bandidos comuns. Aliás, milícia não aparece só onde tem pobreza.

Uma cadeia com ratos mordendo presas não pode existir. Uma cadeia superlotada não pode existir. Tortura de presos, então, nem pensar. Não só por humanismo, mas para que se cumpra a lei que diz que quem está sob a guarda do estado não pode ser colocado em situação humilhante. Pois se um preso é tratado sem dignidade, nada garante que o Estado venha, diretamente ou através do conluio com milícias, a tratar indignamente qualquer cidadão. Essa sabedoria simples, que qualquer ginasiano deveria aprender, é o que gente sem formação correta não entende. No passado, chamávamos tais pessoas de reacionários, hoje eles ganharam um nome específico, são os bolsonaristas. É gente que não entende que a via política deve excluir a via da violência. É gente que não entende que a morte de policiais é uma coisa, a morte de cidadãos comuns é outra, e a morte de uma militante política que aspirava falar por uma comunidade de 46 mil votos, é ainda outra coisa, diferente de tudo. Uma coisa é o crime contra o indivíduo humano, outra coisa é o crime contra o cidadão brasileiro, que é o crime contra as Marielles, contra aqueles que, pela persuasão e não pelas armas, queria que sua comunidade fosse tratada dignamente pelas forças policiais.

O Brasil é o país que mais mata militantes políticos e líderes sociais do mundo. Nem as ditaduras da China, Coreia do Norte e Cuba chegam aos números que temos. Ou seja, há aqui a tendência de se querer acabar com a via política de fazer as coisas, e criar a anomia social. Não deixar que isso ocorra é uma tarefa supra-partidária, supra-ideológica, é uma tarefa dos civilizados contra os não-civilizados. Você pode se instruir e ficar do lado certo.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 16, 03/2018.

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13 Responses “Marielle repõe o Brasil na sua polaridade correta”

  1. Guilherme Gouvêa Pícolo
    19/03/2018 at 03:37

    “Uma cadeia com ratos mordendo presas não pode existir. Uma cadeia superlotada não pode existir. Tortura de presos, então, nem pensar. Não só por humanismo, mas para que se cumpra a lei que diz que quem está sob a guarda do estado não pode ser colocado em situação humilhante. Pois se um preso é tratado sem dignidade, nada garante que o Estado venha, diretamente ou através do conluio com milícias, a tratar indignamente qualquer cidadão”

    Putz, professor, é por isso que lutamos todos os dias, e sempre recebendo flechadas nas costas como resposta.

    Os neonazis já saíram da casamata no Brasil, inclusive já terão dois ou três candidatos à presidência e membros (minoria, graças a Deus) no legislativo e Judiciário fiéis à tradição de Nina Rodrigues e Sílvio Romero.

    • 19/03/2018 at 08:30

      Eles podem e devem ter candidatos. Na hora do voto, não passam de 10%. Numa situação ruim mesmo, chegam a 15%.

  2. josé fernando
    17/03/2018 at 14:32

    Olha, Paulo, de um modo geral você está certo, faço apenas a ressalva de que tendo a separar Spinoza dos estoicos no que tange ao tema da paixão: para Spinoza, somos seres afetivos, portanto ao longo de nossa indeterminada duração seremos ininterruptamente afetados por paixões, por isso precisamos aprender a (re)conhecê-las, transformando em ações as que potencializam nosso conatus e nos afastando daquelas que nos enfraquecem; já os estoicos (que conheço bem menos!) almejavam a eliminação das paixões (a edificação de uma vida plenamente virtuosa). Agora, sobre a questão que seu artigo coloca, te faço um relato para explicar minha repulsa à nova dualidade: em meu facebook estou acompanhando (sem me envolver) amigos num embate cego sobre a idoneidade da Marielle (alguns mais à direita afirmando sua ligação com o Comando Vermelho, e outros mais à esquerda a vendo como uma mártir dos direitos humanos), por isso minha alusão à mudança de questão, mas não à atitude destemperada.

    • 17/03/2018 at 17:30

      José Fernando: novamente: os estoicos não falam em “paixão”. Volto a dizer: paixão é algo do âmbito dos modernos. Os antigos não trabalham com essa dualidade e sim com uma alma tripartide, no estilo Platão. O que chamamos sentimentos caem para o âmbito do thymos. As forças timóticas não são as propriamente as paixões latinas e modernas. Essas confusões atrapalham tudo. Não há nada mais impulsivo e louco que um grego sábio.

  3. LMC
    17/03/2018 at 12:26

    Vai ser bem tragicômico ver
    o Lula preso e o Jucá,o Delfim,
    o Bolsonazi,o Aécio e o Geraldo
    Cunhadão Alckmin soltos.
    Nossa direita que ama Trump
    e Putin saiu do armário pra
    soltar a franga.Rarará!!!!

  4. josé fernando
    17/03/2018 at 11:38

    Paulo, Sócrates (no Alcebíades), Epicuro, Epiteto, Plotino, Sêneca e Spinoza são exemplos de pensadores que exortam o afastamento das paixões (Spinoza não fala em afastamento, de qualquer modo a servidão às paixões caracteriza a antítese do homem livre, ou seja, do homem que age). Não se trata de assumir atitude passiva, mas de buscar na ponderação fornecida pelo conhecimento o equilíbrio necessário para não ser arrastado por toda sorte de desequilíbrios coletivos.

    • 17/03/2018 at 11:49

      Fernando, a divisão paixão e razão é moderna, ela não existe na psicologia antiga. Sua leitura engole o senso comum, que esquece que a coragem, a raiva, a ira, o reconhecimento, o orgulho são funções de uma instância chamada thymos na antiguidade, e que na modernidade desaparece da psicologia. Quando esquecemos isso, erramos tudo. E aí nem compreendemos a razão pela qual até mesmo a loucura (mania) é elogiada por Sócrates no Fedro. Agora, sobre o Alcibíades, o tema não é o do afastamento das paixões. E por fim, a tríada Epiteto, Sêneca (e Spinoza, em parte) compartilham o estoicismo, e aí, por definição, o autocontrole para a não frustração é a própria definição de filosofia. Então não vale. No caso de Epicuro, como no caso de Sócrates, não vale falar em paixões. No caso de Epicuro vale falar em educação dos sentidos.´
      Sobre o papel do thymos em filosofias atuais, veja meus dois livros sobre Sloterdijk (Via Vérita e o segundo pela Vozes), ali você pega o fio da meada. Sobre Sócrates, veja o meu “Sócrates: pensador e educador”, da Cortez.

  5. josé fernando
    17/03/2018 at 10:44

    Mudamos de Corinthians x Palmeiras” para “Flamengo x Vasco”, ou seja, continuamos alimentando e nos nutrindo de desequilíbrios e paixões. Assim, nunca vamos sair da infantilidade generalizada.

    • 17/03/2018 at 10:52

      Fernando, não é bem isso não. Lei de novo, por favor. Outra coisa, não se alimentar de “desequilíbrios e paixões” é simplesmente ser pedra. Ou cemitério.

  6. Mauricio Bonetti
    16/03/2018 at 17:48

    Achei importante a reação generalizada da sociedade no episódio. Porém fico preocupado com a quantidade de forças atuando em sentido contrário a democracia em nosso país. Será que as pessoas estão desacreditando da via política? Eu por vezes me pego pensando que nossa democracia é apenas um engodo, esse pensamento vem e vai, antes ia embora da minha cabeça com mais rapidez, agora ta demorando mais. Isso me preocupa.

    • 16/03/2018 at 23:07

      Maurício amigo véio! Se os Estados Unidos é governado pelo Trump e se a Rússia pelo Putim, então, vamos ser sinceros, até que nossa democracia vai bem.

  7. Luciano
    16/03/2018 at 14:48

    A direita poe as mortes tudo no mesmo balaio. São incapazes de perceber a simbologia da morte de Mariella. Fazem acusações, culpam a vítima, comemoram… Não perdem a beligerância e a verborragia nem por 1 segundo. Por que as pessoas carregam tanto ódio?

    • 16/03/2018 at 14:54

      Luciano a direita extremada é formada pelos magoados, os ressentidos que se sentem impróprios para a vida civilizada e moderna. Veja o policial interrogador do filme “Uma mulher contra Hitler”. Note quem é ele. Vai entender como surgem os bolsonaristas. Se quiser ir mais fundo, veja “A fita branca”.

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