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18/11/2018

Mariana Ghiraldelli gosta de Astolfo, um discípulo de Agamben


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

Acordei cedo com a Fran me mostrando um vídeo que a Mariana, minha neta, gosta muito, segundo informação da Paula. A Mariana é fã do porquinho Astolfo, do Cocoricó. Aprecia especialmente o episódio  em que Astolfo cai diante do Monstro da Palha. Fiquei olhando aquilo e descobri que tenho o mesmo gosto da Mariana!

O porquinho Astolfo conjectura a respeito da queda do seu brinquedo fora do berço. Ele tentaria apanhá-lo, mas seria aterrorizado pelo Monstro da Palha. A maldição do Monstro não falharia: toda vez que Astolfo quisesse chorar, chamar, gritar, só um canto alegre sairia de sua voz. Então, ele estaria perdido. Sua mãe sempre pensaria que ele estava passando bem, e não apavorado. Mas, enfim, como ele não pararia de cantar, acabaria rouco, sem voz, e o próprio silêncio acabaria chamando a atenção da mãe. Assim ele seria salvo do Monstro da Palha. Mais fofo que isso impossível, eu achei. Mas, também, mais filosófico que isso, impossível.

Astolfo é a exposição pura da filosofia da subjetividade de Agamben. O que é o Monstro da Palha senão a visão do fim da infância?

A infância é, por definição, a época (histórico-transcendental em Agamben, e não uma época empírico psicológica) em que não temos fala. O in-fante é aquele que não fala. Todavia, na infância temos fonemas, voz, que depois são transformados na nossa fala enquanto linguagem. Mas a linguagem não é a nossa voz. A linguagem é o que vem no lugar da voz que não veio, que se perdeu. Não somos como os animais, que possuem voz. Não temos um miado ou um latido como voz própria. Somos os sem-voz, que falamos a linguagem, um “elemento de razão” que está pronto, e que nos toma. Adquirimos a linguagem antes dos doze anos ou não teremos mais fala. Não à toa Heidegger notou que é a linguagem quem fala pela nossa boca, nós mesmos, de certo modo, estamos mudos, ou sem voz própria. Sair da infância é, então, cantar e cantar exatamente na medida em que não se tem mais voz, e sim linguagem. Cantar é o modo de escapar da prisão da linguagem, da “escravização da semântica”. Agamben explicita isso claramente: “Há a música; o homem não se limita a falar, antes de tudo sente a necessidade de cantar uma vez que a linguagem não é sua voz, e porque ele habita a linguagem sem ser capaz de fazê-la virar sua voz”.[1]

Não à toa, exatamente para contar o que se passa com ele, Astolfo não fala, mas canta. Todo o o episódio é cantado. Canta porque já vive o seu próprio pesadelo, o de estar diante do Monstro da Palha, aquele que lhe deu só o canto, não uma forma de expressão própria. O Monstro da Palha é o tormento da infância de Astolfo, que teme o momento em que, falando, não terá mais voz, e que então terá de cantar, mas só será realmente ouvido naquilo que é, se silenciar.

A estrutura da subjetividade, em Agamben, depende de dessubjetivação. Perde-se a infância, a voz, há então dessubjetivação, mas só assim pode-se usar da linguagem, especialmente no que ela tem de subjetivação, que é o uso do “eu”. O “eu” não é psíquico, mas apenas elemento linguístico, tanto para Nietzsche quanto para Agamben, que segue Benveniste. De fato, a criança demora para utilizar a primeira pessoa do singular (ela não diz eu, mas sim “o bebê”). Pois é o uso da linguagem que a faz desaparecer como criança, perder a voz, e emergir com algo que não é a sua voz, que é a sua fala, a linguagem. Quando isso ocorre, a infância realmente se foi. É o terrível momento que o pesadelo de Astolfo anuncia: a época em que talvez só nos reste cantar ou, então, o silêncio – e talvez só este possa dizer algo.

Somos porquinhos e já sabemos lidar com as coisas. Estamos como no fim do episódio de Astolfo. Porquinhos que sabem se virar, ou assim fazem porque não restou outra opção diante do destino posto pelo Monstro da Palha, ou seja, a cultura e a civilização.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, Jaguaré, 11/03/2018.

[1] Agamben, G. What is philosophy? Stanford: Stanford University Press, 2018, p. 99.

Vídeo do Astolfo

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6 Responses “Mariana Ghiraldelli gosta de Astolfo, um discípulo de Agamben”

  1. José Silva
    16/03/2018 at 11:23

    Obrigado, professor. Irei atrás de outras obras do Agambem. Ele me interessou muito, principalmente a forma como ele conseguiu a partir da problemática do “acontecimento indizível” formular seu pensamento sobre o sujeito, vergonha e testemunho.

    • 16/03/2018 at 11:42

      Sim, acho que cheguei a escrever sobre isso. A esquerda que publicou o livro não entendeu essa parte do texto.

  2. José Silva
    16/03/2018 at 02:35

    Professor, sou formado em Jornalismo, portanto não tenho a intimidade necessária com a Filosofia e algumas obras me trazem algumas dificuldades na absorção. Estou lendo o livro O que resta de Auschwitz, e queria entender, a partir deste processo de aquisição da linguagem como dessubjetivação, o papel do muçulmano dado que ele passa por um processo de pouco falar por impossibilidade física. O muçulmano se torna um retorno à infância ou deve ser pensado só a partir do limiar entre humano e não humano?
    Abraços.

    • 16/03/2018 at 09:59

      José Silva, as duas coisas – sempre lembrando que infância no Agamben não é a infância de cada um, empírica, mas uma instância histórico-transcendental, um campo ideal, lógico, de limite da experiência, um lugar onde uma experiência subjetiva existe e tem seu fim.

  3. lucas
    11/03/2018 at 12:38

    Olá Paulo!

    Quando volta o hora da coruja?

    Abraços.

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