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24/03/2017

Maria Rita Kehl e o aborto nosso de cada dia


O assunto sobre direito ao aborto reapareceu. A bancada conservadora no Congresso quer punir até quem toma a pílula do dia seguinte? Como fica?

Maria Rita Kehl escreveu em espaço cedido pelo psicanalista Contardo Calligaris, na Folha:

“Já é uma vida humana, dizem os membros da bancada da repulsa ao sexo. Sim, é uma vida. Mas se fosse humana, a sociedade teria criado ritos para incluí-la na cultura –batizar e sepultar os óvulos fecundados, por exemplo, quando expulsos por abortos espontâneos. Parece um absurdo, não é? Parece uma ideia bizarra. Assim é: porque de fato não os consideramos ainda como seres humanos. Nomeação e sepultamento são práticas culturais que nos definem como humanos. Nenhuma delas se aplica a essa forma incipiente de vida.” (Folha de S. Paulo, 05/11/2015).

Espera lá! Não entendi! Ela concorda com os seus adversários que o óvulo fecundado é uma vida e, depois, diz  que não é uma vida humana e, então, por isso, é possível extinguir a vida? Ou seja, não sendo vida “humana”, não é assassinato extingui-la! Mas é uma vida animal, feita por dois humanos? Não! Não é! É uma vida. Mas, como o critério é cultural-pragmático, ou seja, seria vida humana se tivesse velório para óvulo fecundado, então podemos extingui-la. É isso? Está confuso, Maria Rita. Confuso mesmo. Não dá para engolir.

Todas as vezes que os apoiadores da descriminalização do aborto entram pela via metafísica, induzidos pelos seus adversários, caem em uma armadilha. É muito estranho que nunca percebam isso. Aliás, isso parece ser um problema da esquerda:  sempre acha que suas posições estão tão corretas que nunca se importa de ver se elas são sustentáveis filosoficamente, e então entram no campo de jogo do adversário sem consultar as regras, já feitas pelos próprios adversários. A esquerda, já faz tempo, vem pecando por prepotência intelectual.

O debate sobre o aborto não tem qualquer solução no campo metafísico. Disputar quando começa a vida ou se se temos ou não vida humana não conduz a lugar algum. Pode-se dizer que Maria Rita tentou escapar disso, ao invocar o critério cultural-pragmático que, em geral, não me faz mal aos olhos. Mas, nesse caso, o critério parece tirar o debate do campo metafísico para ceder a ele novamente. A ideia de falar do que é vivo e do que não é torna-se tão ruim quanto falar do que é “vida humana” e o que é simplesmente “vida”.

Vejamos: se não temos vida humana, ou nenhuma vida, então podemos destruir o que temos na frente? Um monumento histórico não é mais importante, pois não sai do útero de ninguém, então, pode ser destruído. É isso?

Também rompemos com o preceito liberal, que inclusive está na nossa Constituição, de defesa dos mais fracos? Defendemos cachorros de maus tratos, pois os amamos, mas também por que estão à mercê dos mais fortes e cruéis. Fazemos isso também com crianças pequenas. Mas, se elas estão dentro do útero, então temos de saber o tempo que estão lá, e se ao saírem não provocarem velório, então concluímos que o tempo não era o tempo ideal, e estávamos então liberados de defendê-las? É isso? Estranho também.

Na verdade os defensores do direito ao aborto só ganham alguns pontos quando invocam o problema da prisão. Aí sim, eles têm pontos a favor. É realmente horrível ver uma pessoa fazer um aborto, estar fragilizada de todos os lados, inclusive por ter optado por solução tão drástica, e ainda por cima perder tudo ao se tornar uma criminosa. Por essa via, aí sim, o time da Maria Rita pode ganhar algum tento. Fora disso, só perde.

Desse modo, insisto, se os do time da Maria Rita quiserem ao menos tentar empatar o jogo, o melhor que fazem é abandonar dogmas militantes e começar a abrir a cabeça para mais propostas. Tornar criminosas as mulheres que interrompem a gravidez é algo que pode começar a ser pensado em evitar, e isso a partir da adoção adrede contratada. Nos Estados Unidos existe essa possibilidade. Posso conseguir uma mãe que queira ser mãe, e ficar com o filho que eu não posso cuidar. No Brasil, as normas de adoção são burocráticas e, ao invés de proteger e salvar crianças, apenas destroem possibilidades.

O estado brasileiro tem condições de fazer bom acompanhamento de casais que gostariam de adotar  bebês ainda na barriga. Não é difícil evitar mães de aluguel ou tráfico de crianças nesses casos, não é mesmo. O estado brasileiro faz acompanhamentos de violência doméstica muito mais difícil do que seriam tais situações.

Mas o problema é que o time da Maria Rita Kehl parece que prefere, antes de tudo, continuar o embate pela ideia de “meu corpo minhas regras”. Parece que é mais importante manter vivo o feminismo velho que manter vivos filhos e mães. E isso, realmente, dificulta tudo. É difícil, sem criatividade, enfrentar os conservadores.

A esquerda tem abortado boas ideias.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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13 Responses “Maria Rita Kehl e o aborto nosso de cada dia”

  1. Thiago
    07/11/2015 at 23:06

    Paulo, confesso que sou pró-vida mas que você tocou numa questão fantástica: tirar a discussão do campo metafísico. Realmente, os que são contra o aborto geralmente vão para esse lado, mas os abortistas quando vão para esse lado fica uma coisa deprimente, dizendo mentiras do tipo “foram descobertas evidências científicas(que nunca tem fontes) de que a vida começa aos 3 meses”, e assim por diante. Realmente se a questão for posta de maneira mais realista, coisas como a desburocratização de adoção, descriminalização das mulheres que abortam seria uma via que daria muito mais efeito. Obrigado, Paulo, por ter nos ajudado a esclarecer mais essa questão.

  2. Orlando
    07/11/2015 at 18:48

    Prezado Paulo,
    Como disse inicialmente, para o bem ou para o mal, regras são apenas frutos da utopia dos humanos que imaginam resolver as suas imperfeições pautando-se nelas. Obviamente as regras não garantem nada. São apenas um norte de orientação. Todos os dias possivelmente centenas de órgãos são vendidos consensualmente, ou retirados de seus donos por quadrilhas de contrabandistas de órgãos humanos, dezenas de crianças são gestadas em barrigas de aluguel, pessoas andam despidas em locais públicos, etc. A diferença, se é que podemos chamar de diferença, é que estes atos são praticados na forma que se convencionou chamar de ilegalidade, ao arrepio das regras vigentes. Mas exitem (esses comportamentos) todos os dias e continuarão existindo por tempo indeterminado. Infelizmente, é o que nos é dado observar.

    • 07/11/2015 at 19:11

      Orlando acho que você não está entendendo o que uma regra. Ela vem de ethos e mores, e garantem tudo. REgra no caso não é regra convencional de jogo. E no caso da expressão, minhas regras é uma coisa dúbia: regras e regra (menstrução), mas isso não vem ao caso. Nosso direito e nossas regras são baseadas em nosso ethos e mores. Por isso funciona.

  3. Orlando
    07/11/2015 at 15:20

    Prezado Paulo,

    Embora o aborto não seja um dos temas que considero prioritário à discussão de qualquer sociedade, respeito todas as opiniões que possam ser expressas sobre o assunto, no que pese divergir de muitas delas. Parece-me interessante, porém, a declaração de que “meu corpo, minhas regras”. A utopia dos humanos, ao longo dos milênios, tem procurado proteger a vida contra a violência de cada indivíduo sobre ele mesmo ou sobre terceiros, sem nenhum sucesso que valha o esforço dispendido nesse sentido. Mediante a criação de normas de conduta socio-moral ou através de mandamentos coercitivos de punição (leis), milhões acreditam ter a vida protegida ou proteger a vida de outrem. Bom, o engano foi feito para todos que não consigam discerni-lo. Proibir ou impedir que alguém faça ao seu corpo o que melhor lhe aprouver me parece ou reprovável absurdo, exceto no caso daqueles que sejam incapazes de regerem a sua própria vida.

    • 07/11/2015 at 16:04

      Orlando você não pode vender seus órgãos, você não pode sair pelado, você não pode ter barriga de aluguel etc. Então, como vê, só as regras menstruais podem ser suas, e às vezes, nem isso.

    • Alfredo
      25/11/2015 at 03:13

      Eu estava assistindo o curso do M. Sandel, “Justice”, e por algumas aulas ele discute o princípio da “auto-possessão”, que os libertaristas desenvolveram a partir de uma radicalização desta ideia em Locke, para combater o risco aos direitos individuais fundamentais inerente à doutrina utilitarista. Posteriormente ele apresenta várias objeções a esse princípio, de Rawls e dos comunitaristas. Enfim, este princípio lembra o cogito cartesiano que, embora pareça algo evidente, é permeado por pressupostos problemáticos e questionáveis. Acho que na questão do aborto a esquerda tende a ser um tanto leviana quando se apega ao princípio “meu corpo, minhas regras”.

  4. Maximiliano Paim
    07/11/2015 at 15:18

    Me ocorreu o que diria o Pondé para contribuir com a conversa. Talvez liberdade de mercado, como sempre.

    • 07/11/2015 at 15:19

      Paim esse cara é um picareta, ele não tem nada a dizer.

    • Maximiliano Paim
      07/11/2015 at 15:47

      Eu sei. Já me esclarecestes sobre ele em seus artigos. Faço só um exercício humorístico, se é possível, com a caricatura dele.

      Gracias!

    • LMC
      09/11/2015 at 13:07

      PG,pro Pondé,o aborto é
      coisa do Satanás,igual a
      esses crentes que tem
      por aí.

    • 09/11/2015 at 14:15

      Fico deprimido com o Pondé, cada dia produzindo mais lixo. Fico triste quando uma pessoa começa a se degradar.

    • LMC
      09/11/2015 at 13:00

      Paim,o Pondé é contra o aborto.Ele
      acha que o aborto é coisa de
      comunistas-marxistas-bolivarianos.
      kkkkkk………

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo