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29/03/2017

Maria Rita Kehl, Contardo Calligaris e a proibição de matar baratas


Por conta de uma conversa sobre aborto, referente ao artigo de Maria Rita Kehl no espaço da coluna do Contardo Calligaris na Folha de S. Paulo, surgiu da parte dela, respondendo a um texto meu, a questão de praxe: se você é a favor da vida, então, se for vegetariano, não mate insetos (assim ela disse, em uma conversa particular). 

Esse argumento é costumeiro. Uma vez, um colunista da Folha, bem à direita, usou tal coisa contra nós, protetores de cães, no episódio da “libertação dos beagles” (lembram?). Ou seja, se são tão protetores de animais, deveriam amar baratas.

Já escrevi várias vezes como que esse argumento que pede coerência quer escapar da filosofia e da sociologia para pensar o mundo pela lógica, mas uma lógica vazia. Não se pode cobrar coerência em assuntos que desde o início o critério é a vida cotidiana, não a matemática ou a lógica.

Em cuidado com outros, nós não funcionamos senão pelo critério de notar se o outro pode ou não ser “um de nós”. Se alguém é “um de nós” ou quase isso, podemos estender benefícios que são concedidos a nós. Ou seja, precisamos ter alguma identificação com o outro para que ele se torne menos outro do que é. É assim que o europeu agiu na condição de Homem, e deu o tom para todos, e é como ainda agimos. Incorporamos à “civilização” e seus direitos cães, crianças, mulheres, negros, índios etc., à medida que, em meio a situações histórico-geográficas diversas, pudemos criar identidades com tais elementos ao nosso redor. É assim que Rorty desenvolve a ideia da “justiça como uma ampliação da lealdade”, e não como como duas coisas em oposição. Não tratamos as baratas e os robôs, ainda, com qualquer gota de lealdade, e por isso nem mesmo uma gota de justiça chega a eles. Para robôs temos o lixo, quando quebram, para baratas temos inseticida, quando não quebram.

Desse modo, a luta pela proteção dos animais começa pelo cachorro e passa para o panda, mas para atingir as baratas é necessário que elas, como ocorreu com cães, negros, índios, mulheres, crianças, pandas, golfinhos etc, tenham a sorte de criar algum mecanismo de identificação conosco. Por exemplo, se um grupo de humanos ficar preso numa caverna, após uma hecatombe nuclear, e puder contar com a ajuda de baratas, talvez não só como alimento, mas como carinho e aquecimento, as coisas podem mudar. O cão tem uma aparência de fera, tem uma arcada dentária horrível que lembra a de monstro, mas seu olhar nos conquista e abafa a impressão da arcada dentária com caninos salientes. Quem sabe o nosso nojo de barata não desapareça após muitas décadas sendo acariciados por tais bichos que depositam suas antenas em nossos rostos, fazendo com que o frio de uma era glacial de um mundo pós-guerra se amenize?

Mas, por enquanto (ufa!), não estamos nessa. Por enquanto o que nos ganha é o olhar do cão, que provavelmente já vivia conosco nas cavernas, antes de ser cão e antes de nós sermos humanos (defendo a tese de que o cão não foi domesticado, ou até foi, mas que nós nos encontramos antes – o cão é o único animal cujo olhar provoca o aumento de ocitocina em nós! O gato não tem esse dom).

Mas e o embrião? Queremos ter empatia com ele ou não? Os que defendem a criminalização do aborto não querem ter nenhuma empatia ou identificação com o feto. Eles apenas cumprem o ritual do dogma metafísico-religioso ocidental que diz que o embrião em qualquer estágio é vida, é vida humana, e que não deve ser maculado. Os que defendem a descriminalização do aborto, se estiverem na linha da Maria Rita Kehl, tentarão escapar do argumento metafísico, e entrarão pela via pragmático-cultural (que, como disse, eu até gosto, pois isso lembra Rorty). Dirão, como ela diz, que não temos empatia com o embrião, não o consideramos vida humana, e isso é mostrado, segundo ela (no artigo citado), pelo fato que se o embrião aparecer num aborto espontâneo, não vamos fazer velório ou enterro. Ou seja, também os que defendem a descriminalização do aborto, não possuem nenhuma identidade com o embrião. Todos nós, se temos alguma identidade, é como feto já parecido com bebê (aliás, sobre isso, vale ler o filósofo alemão Thomas Macho e os critérios de espraiamento da rostificação no mundo moderno – infelizmente os brasileiros editores não querem traduzir Macho que, por sua vez, é amigo de Sloterdijk – os adeptos da Teoria Crítica – meno eu – ainda proíbem!).

Assim, de um certo ponto de vista, ou seja, o da espera de alguma empatia, o embrião tem menos chance que tiveram negros, índios, mulheres, pandas, cães, crianças e golfinhos. E como não consigo criar uma ficção para eles e nós, como a que criei falando da barata em vida conosco em caverna, posso dizer que o embrião está em condição de esperança pior que a das baratas. Condição de desesperança. Nesse sentido, quanto à identificação, há empate. Ninguém gosta de embrião, ou melhor, ninguém o considera como coisa a ser gostada ou não. Sendo assim, se os argumentos de estilo pragmático-cultural puderem ter mais peso que outros, até por conta do desgaste natural e moderno da metafísica, as coisas ficarão fáceis para a turma da descriminalização do aborto.

Nesse ritmo, nem seria preciso muita luta feminista. Bastaria o desgaste dos religiosos e … pimba, a descriminalização viria de qualquer maneira. Aliás, é isso mesmo que ocorrerá, é uma questão de tempo. Mas, enquanto o tempo não passa, não seria interessante, também, conversar mais, e ter outras alternativas na mão?

Não nos livramos da escravidão de supetão, mas com leis atenuantes. Então, que tal começarmos a considerar não só a “pílula do dia seguinte”, o aborto em casos de estupro e o aborto de anencéfalos, mas também e principalmente o mecanismo de adoção previamente acordada. Nos Estados Unidos existe essa possibilidade. Uma pessoa vira mãe e decide não abortar, mas não pode ficar com o filho, então, procura uma outra pessoa que quer ser mãe. No Brasil isso praticamente resolveria muitos problemas. Pois há gente em fila de adoção. Muitos gostariam de adotar com o bebê ainda na barriga. E o estado brasileiro tem condições de fazer o acordo entre mães no sentido de evitar tráfico de criança, barriga de aluguel etc. Aliás, o estado brasileiro lida com situações muito mais complexas que estas, e até se sai bem. Afinal, nós proibimos a instituição da Roda, que acolhia os “enjeitados”, mas não a substituímos por formas “mais civilizadas”, que existem em outros países.

Por que essa minha proposta não pode ser conversável? Por que as feministas reagem raivosas à minha proposta? Não será pela razão que elas querem fincar pé no dogma do “meu corpo minha regras”? Ou seja: ou passa esse slogan ou não passa nenhum! É assim que estão pensando? Talvez. Talvez o feminismo esteja naquela fase de desconsideração da verdade de que “o bom é inimigo do ótimo”. E, nesse caso, o feminismo não está nem a favor e nem contra a descriminalização do aborto, mas apenas funcionando como um partido político marcando posição para não perder a claque. Ou às vezes funcionando como coisa de professor militante, aquele cara de esquerda (que imita a direita) que quer que as coisas aconteçam segundo o que ele diz em sala de aula que é o certo!

Ou talvez, e isso eu temo, a questão do aborto esteja mesmo é passando pelo crivo do “descarte” e “desapegue”, o momento OLX que impregna toda a sociedade moderna (veja artigo aqui).

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

PS1: notem as respostas a esse texto. Notem bem, algumas delas poderão confirmar esse meu último parágrafo de modo assustador. Vocês verão.

PS2: peço desculpas aos leitores que não suportam a filosofia. No meu blog eu não a faço de modo acadêmico (às vezes só), aqui eu a utilizo como elemento de crítica cultural, mas ainda assim, é filosofia, é texto argumentado, é necessário gostar de ler e gostar de acompanhar o texto argumentado para poder curtir e entender o que faço.

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6 Responses “Maria Rita Kehl, Contardo Calligaris e a proibição de matar baratas”

  1. Jordan Bruno
    10/11/2015 at 11:24

    A Maria Rita precisa ver aquele filme da Pixar, o Wall-e: quem são amigos na Terra abandonada? Um robô e uma barata!

    • 10/11/2015 at 11:45

      Bruno, cê tem razão! A esquerda precisa ver muito filme, mas não como o Zizek!

  2. Marta macedo
    10/11/2015 at 09:22

    Mais explicado que isso… adorei seu texto!

    • 10/11/2015 at 10:59

      Marta, obrigado por ser inteligente. Tá difícil, sabia? Aparece umas figuras aqui que não entendem mesmo o simples.

  3. João Santos
    09/11/2015 at 18:24

    Paulo, sobre o momento OLX que passamos, há uma comunicação interessante do professor Leandro Karnal sobre este tema. Ela faz uma leitura da dissolução contemporânea da relação
    com o orgulho. Dialogando com a cultura clássica e judaico-cristã.

    https://www.youtube.com/watch?v=cpxVd5whW9U

  4. Jokas
    09/11/2015 at 15:59

    Existe um problema de saúde publica, milhões de mulheres fazem aborto clandistinamente, muitas morrem por complicações, sem poderem procurar um hospital, já que podem ser criminalizadas. Já vi um caso de uma mulher que morreu por hemorragia interna depois de um aborto mal feito.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo