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29/05/2017

Marcelo Coelho em ritmo de selfies e daimons


Os selfies incomodam? Marcelo Coelho, meu amigo colunista da Folha de S. Paulo, não anda de bom humor com tal prática fotográfica via celular. Ou talvez esteja de excelente humor, apenas ridicularizando aquele que, com o próprio artigo de Marcelo nas mãos, fez um selfie e o enviou para o Facebook. (1)

Seja lá por qual motivação, a mensagem de Marcelo é clara: tirar a foto de si mesmo ou de uma cerveja que se está bebendo, para mostrar ao mundo, se é que há algum mundo que esteja vendo, pode estar simplesmente querendo dizer o seguinte: eis a realidade, eis aquilo que agora existe porque está exposto como uma propaganda, um comercial.

Fazendo assim, Marcelo trabalha mais ou menos no meu campo: há algo de filosófico no cotidiano. No caso: a narrativa ontológica de hoje não é senão o subproduto do mercado, ou seja, a imagem da propaganda comercial. Só é real, inclusive eu mesmo, aquilo que tem estatuto ontológico definido pela semântica de meu celular e do Facebook. Só é real o que é uma cópia, mas segundo o padrão do que faz qualquer empresa ao dizer que seus produtos são reais porque estão disponíveis. Ontologia ditada por Deus, ou seja, o Mercado.

Não creio que essa análise seja tola, ainda que batida. Marcelo Coelho vem da nossa “escola”, ou seja, das “Humanas da USP”, da leitura de Marx, dos frankfurtianos, e sabe muito bem conversar sobre os efeitos da mercadorização e da “sociedade do espetáculo”. Há muito ele vem trabalhando esse tema. Há uns vinte ou trinta anos ele fez um artigo semelhante, sobre como não se podia ficar em silêncio em lugar algum, até no elevador havia “música ambiente”, para garantir que estávamos ali, vivos, existentes. Seríamos tão vazios de realidade que teríamos de ser preenchidos por sons em todo e qualquer lugar. Excelente texto que, agora, se complementa com esse dos selfies. No entanto, acho que posso colocar algumas pitadas no assunto, mas a partir de um viés novo. Talvez isso ajude nossa compreensão filosófica do que vivemos.

Peter Sloterdijk (2) em sua esferologia tem ensinado que não nascemos sozinhos. Somos todos frutos de uma primeira esfera, um microcosmo interior à vulva que contém “não-objetos”, ou seja, elementos placentários e um feto. Esse é o campo que dará forma para a subjetividade, inicialmente posto como microcosmo formado por uma dupla de polos, que depois se separarão, sendo que a placenta vai para um lado e o bebê para outro. Na separação o psíquico já está pronto para restabelecer a dupla que existia em termos físicos, digamos assim. O vazio deixado pela falta de companhia dos elementos placentários é substituído não exclusivamente pela voz da mãe e seu corpo. Quando esta se põe, se faz como um terceiro. Pois a dupla já está reestabelecida, sendo que a companhia nova é a do gênio ou anjo da guarda, etc. Isso vai depender, é claro, de onde se deu e em que tempo se deu o nascimento. Ilustrativamente, Sloterdijk fala de uma experiência contada por Warhol, de como que a TV ocupou esse papel de segundo polo, aquela espécie de parceiro que é necessário para que o campo subjetivo se estabeleça sempre do mesmo modo que se iniciou, ou seja, ao menos com dois polos.

Sendo possível considerar a teoria das esferas de Sloterdijk (3) como algo que fornece também uma teoria da subjetividade, eis aí que não é difícil encontrar no celular um dos parceiros que substituiria o anjo da guarda, o gêmeo de Nabokov, o daimonion de Sócrates e a TV de Warhol – tudo aquilo que cumpre o papel de companhia, na “primeira esfera”, e que um dia foi papel do conjunto formado por cordão umbilical, líquido amniótico e enfim todo o aparato da esponja placentária.

Um celular que nos conforta e que, enfim, fala, joga, traz amigos e manda imagens não é um perfeito e melhorado parceiro que mantém em harmonia o campo subjetivo? O filme Ela (com Joaquim Phoenix) está aí nas telas e seria ridículo acha-lo ridículo.

Por essa via, posso dizer que os filhos do Marcelo, que ele diz que já estão considerando como não sendo de bom tom postar selfies, assim eles falam porque, sem o saber, já andaram arrumando por aí novos gêmeos, novos anjos da guarda,  novos daimons. Será que ficaremos sabendo quem são ou o que são? Vão voltar à pobreza do vídeo game? Quando vão apresentar para nós esse novo duplo? É só aguardar e observar.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez).

(1)   Artigo de Marcelo na Folha: Selfies

(2)   Falo aqui, principalmente, do Esferas I. Já não existe só em alemão, mas também em inglês, e está prometido em português pela Estação Liberdade.

Desse modo, Sloterdijk evita aquele problema das teorias que optam por mostrar a formação de um sujeito de ego solitário. Pois essas teorias, depois que montam o solitário, se desesperam na tarefa de ter de recriar de modo artificial a intersubjetividade. Teorias desse tipo precisam explicar as razões da solidariedade e do amor que nos fazem inerentemente seres “de família”, como dizia Agostinho, o que Aristóteles confundiu com seres da política, chamando o homem de animal político. Ora, somos socializáveis e socializados porque já emergimos em situação de pré-subjetividade que não traz nenhuma solidão. Sloterdijk se livra da teoria liberal de Rousseau, do homem solitário, e da teoria liberal-comunitária de Habermas, do homem refeito homem pela intersubjetividade. Tenho acreditado que esse tipo de teoria é mais coadunável com o que eu vinha construindo a partir de Rorty e Davidson.

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9 Responses “Marcelo Coelho em ritmo de selfies e daimons”

  1. 25/04/2014 at 11:36

    caro ghiraldelli,

    excelente análise!

    a propósito, recentemente debati – ou tentei debater… – este tema na “academia”.

    o que, inclusive, me levou a escrever um texto no meu blog – e que me parece já corre pela rede:

    http://abuladabola.blogspot.com.br/2014/04/cultura-do-nada-ou-do-escarnio.html

    valeu!

    um abraço,

    rodrigo

    • 25/04/2014 at 12:00

      Bom, sua via é a do Marcelo Coelho, mas eu acho que é uma via frankfurtiana que pode tender à vulgata, a via, não o seu texto. Veja o meu A filosofia como crítica da cultura (Cortez), na tentativa de vias diferentes para pegar a “sociedade do espetáculo”. Depois me diz!

  2. Rafael Costa
    24/04/2014 at 10:03

    O selfie, postar no face, é o novo Cogito cartesiano.
    Posto no face, logo existo. rsrsrsrsrrs

    É incrível como as pessoas dependem dessa conexão com o ciberespaço, como uma conversa com um “amigo” no whats pode ser mais importante que conviver com seus amigos no “aplicativo” mesa de buteco.
    A voz da mãe, como terceiro elemento, está sendo substituida pela convivência concreta com as pessoas.

    • 24/04/2014 at 10:19

      Rafael, bem, acho que você resvalou o texto. Dá para ir além.

    • Rafael Costa
      24/04/2014 at 16:20

      rsrsrrsrs Realmente dei uma escorregada no tema do texto, mas faz parte. Quis externar, a minha quase irritação com a dependência das redes sociais e da internet. Sei que o tema do seu texto e do Marcelo Coelho vão além disso.
      Como a necessidade de registar por meio das fotos em celulares algum fato presenciado pelo sujeito, como se o fato de o sujeito estar presente em determinada situação não fosse o suficiente.
      Senti muito isso quando fui ao show da banda de rock Black Sabbath, onde a todo instante via várias pessoas com o celular, tablets na mão, registrando o show inteiro, para dizer “Eu estive aqui”;

    • 24/04/2014 at 16:28

      Rafael, não tentei dar nenhuma admoestação. Só pontuei. Agora, o eu estive aqui, deveríamos notar, é uma prática comum nessa desde as cavernas, note bem.

    • Rafael Costa
      24/04/2014 at 16:58

      Mas o “Eu estive que aqui” no qual me refiro é do sujeito, que precisa registar esse momento, para dizer a si mesmo que esteve lá. Talvez tenha me expressado mal.

    • 24/04/2014 at 18:08

      Então, repare como isso não é propriamente algo inédito. O eu estive aqui, do homem, está sempre presente. A história do retrato, do auto retrato e do registro dos lugares é algo milenar.

  3. Afonso
    23/04/2014 at 16:47

    Sei que o artigo não trata propriamente disso – mas de algum modo também trata disso – as fotos e vídeos invadiram até mesmo as genitálias e placentas – ver o artigo de Tati Bernardi na Folha: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/2014/04/1443276-gata-eu-nao-quero-ver-a-sua-xota.shtml

    Abraço,

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo