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14/12/2017

Marcela Temer, teoria da comunicação e feminismo imbecilizado


Marcela Temer é “bela, recatada e do lar”, segundo a revista Veja, segundo ela mesma e, enfim, segundo todas as outras revistas, de tendências variadas, até muito pouco tempo. 

É uma descrição de Marcela, não é uma avaliação. O feminismo perdeu faz tempo o olhar fenomenológico, se é que o teve algum dia. Fenomenologia, a doutrina que diz para que se olhe “a coisa mesma”, nunca foi uma teoria forte no feminismo.

Mas é possível pensar que a Veja fez uma avaliação? Claro, mas, nesse caso, uma avaliação positiva só na cabeça de alguns, não de todos. Achar que a Veja quis melhorar a imagem de Temer ou que é uma revista (agora, sob novo editor) reacionária, que “defende o patriarcalismo” (para usar o jargão do feminismo atual) é realmente uma estupidez imensa. “Bela, recatada e do lar” não é positivo para todos, e hoje em dia, até mesmo negativo para muitos. Tanto é verdade que entre esses muitos estão as feministas atuais. Elas mesmas se desmerecem ao acharem que a opinião delas não vale nada. Esse é um primeiro erro.

O segundo erro das feministas é o de autoritarismo. Querem que a revista Veja (e o mundo todo) fale o que é a mulher segundo seus rótulos. Os rótulos dos outros não vale. É um comportamento meio birrento e infantil, de mulheres que não saíram da cozinha … da  cozinha da senzala. Nunca vão sair, o cérebro está preso, embotado.

Mas há mais um erro, o terceiro, que é amplo e pega até não-feministas, quando da crítica à Veja, que é o de adoção de uma visão pouco inteligente no campo da teoria da mídia . Só o pensamento rasteiro, que se infiltrou no feminismo nos últimos anos, é que fez a visão dessa doutrina adquirir parâmetros assim, endurecidos, politizados demais. Analisar a Veja como tendo uma doutrina política inflexível, algo que funciona ideologicamente somente, sem autonomia política, é algo inconcebível para a teoria da mídia atual. É não perceber que, antes de tudo, informação é mercadoria e também mais que isso. Informação é entretenimento, e este é mercadoria, e é também um modo da vida moderna nas sociedades da abundância e da leveza (Sloterdijk), como é a nossa sociedade atual. Não se faz uma revista para perder dinheiro e, portanto, não se faz uma revista exclusivamente por política, mas, sim, por razões de se conseguir leitores. A Veja tentou funcionar na base da política, foi para perto da bancarrota, agora trocou de editor para voltar ao critério de mercado que é, ao mesmo tempo atualmente, o critério de adaptação à vida pós-histórica (sociedades como a nossa, em estufas, estão fora da história).

Informação no mundo atual é entretenimento. E este é modo de vida, o que inclui também, como causa e efeito, bom relacionamento com solicitações funcionais. No meio disso, funcionar é, também, funcionar no sentido de não saltar fora do mundo do dinheiro e da ludicidade, que se interpenetram.

Assim, se Marcela Temer é “bela, recatada e do lar”, logo em seguida, a cantora Ana Carolina diz “sou bi, e daí”. Reportagens da Veja. As feministas conseguem olhar para a primeira reportagem, podem até olhar para a segunda, mas não conseguem por as duas juntas e explicar. Por quê? Sim, porque estão imbecilizadas. O que as imbeciliza, especificamente, em termos amplos, e não só cognitivos? Simplesmente a prática de não atentar para a transformação das sociedades da abundância em sociedades em que o parâmetro do trabalho caiu por terra, e tudo agora deve ser leve, deve ser um grande jogo, um entretenimento dos do tipo do Sílvio Santos para uns, e os do tipo do vídeo game para outros. Marcela Temer e Ana Carolina ganham versões mais próximas delas mesmas e podem assim ser expostas, podem e devem mostrar suas verdades, porque vestir personagens (verdadeiros) em um reality show eterno é também um grande jogo, um ponto de entretenimento fantástico.

O que ocorre então? Sem que as mensagens políticas desapareçam, elas se subalternizam em função da prática da sociedade do entretenimento. Como é isso?

Vamos brincar de trocar avatares? Sim, é esta a proposta da mídia, como num grande facebook planetário. Hoje é o avatar Marcela Recatada, amanhã o avatar Carolina Bi. Vistam suas bonecas de acordo com a brincadeira de troca de avatar. Troquem as roupas das bonecas, tenham a fantasia momentânea. A diversidade funciona verdadeiramente, a verdade não precisa ser maculada, nem mais importa, uma vez que estamos mostrando rostos para a troca de avatares, convidando o leitor a participar do jogo por meio da identificação momentânea. Não estamos falando de troca de disposições ético-morais, estamos falando da troca de rostos, corpo, elementos quase “da vida nua”, e, portanto, tendo a política como acessório, não como base.

Marcela Recatada é a boneca de hoje, para brincarmos, vamos vesti-la e desvesti-la, vamos nós também sermos Marcela Recatada hoje? Carolina Bi é a boneca de hoje, para brincarmos, vamos vesti-la e desvesti-la, vamos nós também sermos Carolina Bi hoje? E assim por diante! A velha revistinha que trazia a boneca para trocarmos de roupa é hoje a troca de avatar, a nossa identificação com algo que é só momentâneo, que nos faz acreditar que a diversidade é nossa identidade atual, e que isso é apenas um avatar. Isso é leve. Isso é entretenimento.

Quando olhamos a mídia mundial assim, povoada de modelos para o leitor se identificar, justamente porque nesse momento o leitor vive uma sociedade de “identificação sem pessoa” (Agamben), onde somos rostos, só esteriótipos, todos avatares, então começamos a entender em que mundo entraram as revistas, e, nisso, inclusive a Veja. Só sobrevive a mídia que entrar para a era da mídia-na-sociedade-da-leveza.

Olhar a mídia assim daria para as feministas um parâmetro para responder a questão que são incapazes, talvez, até de formular. Elas não conseguem entender a Veja falando de Carolina Bi junto com Marcela recatada. Mas, com tal teoria, poderiam formular algumas hipóteses. Mas não vão raciocinar. As feministas se tornaram cabeças duras, algumas delas literalmente cabeçudinhas (já notaram?), e não podem pensar fora dos trilhos de um pensamento ideológico, carcomido e doutrinário-dogmático. Não pensam a política, pensam só sob a regra de uma determinada política. Uma pena.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

veja

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7 Responses “Marcela Temer, teoria da comunicação e feminismo imbecilizado”

  1. Daniel
    23/04/2016 at 15:29

    Está parecendo que estão encarando a revista Veja como uma igreja.

  2. Beto
    23/04/2016 at 13:01

    A veja com essas capas parece mais a revista capricho. Ao fim e ao cabo, no Brasil, quem tem poder pode tudo, pode ter avatares, pode ser bi, pode ser tri, pode ser trans. Pode ser da rua, pode ser do lar. Pode ser magra, pode ser gorda. Quem não tem poder só encara o avatar da exclusão e de impossibilidade de avatares. Nesse sentido, não concordo que vivemos na pós-história para todos. Pensar assim é, parafreseando o filósofo, para pessoas que “não pensam a política, pensam só sob a regra de uma determinada política”.

  3. 23/04/2016 at 10:18

    Personagens são criados e destruídos diariamente. E vamos nos afeiçoando a cada um deles e descartando-os, conforme nossa disposição para a vida naquele momento. Os que atacamos, dizem muito sobre o que somos ou sobre o que atinge nossos próprios recalques. A argumentação mais detalhada que a dos quase aforismos do Facebook, me fez rever minha opinião sobre sua opinião a respeito.

  4. Orquideia
    23/04/2016 at 08:41

    Eu,como quase todo mundo que opinou nos últimos artigos seus, não gostei da reportagem da Veja,mas segundo o sr.,para qualquer revista,o personagem famoso do momento é uma “estrelinha” sobre o qual se pode falar,sob toda perspectiva.
    Eu achei mesmo que a reportagem na verdade,tentou “caçoar” da família Temer, mas então o sr.lembrou que a mídia é uma iniciativa comercial.

    A filosofia dá bastante “isenção”,não…

  5. 23/04/2016 at 07:23

    Que revista ridícula. Sem noção este homem, radical e autoritário nas suas opiniões. Péssima reportagem.

    • 23/04/2016 at 08:00

      Jane, nem explicando em miúdos deu para você né? Putz!

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