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29/03/2017

Marcela Temer precisa nos dar um escândalo


Marcela Temer é linda, mas não estou procurando fotos dela nua na Internet. Nem do presidente – garanto. Também não estou procurando fofocas da vida íntima do casal, que poderiam estar no celular de Marcela, hackeado. Mas, segundo o entendimento de vários estudiosos do Direito, errou feio o juiz que autorizou a censura à Folha de S. Paulo na publicação do conteúdo hackeado. A censura não cabe no Estado de Direito que vivemos. Deveria ficar ao sabor do critério interno do jornal o modo de expor tais notícias, dentro da lei de responsabilidade sobre a escrita que já existe e não é fraca.

Bem, o assunto censura é um prato cheio para filósofos. Mas não é esse meu tema aqui. Na pegada da filosofia como crítica cultural, o tema pode ir para a questão da Folha de S. Paulo como veículo que caminha não só pela informação, mas pela informação que pode render dinheiro, ou seja, aumento de anunciantes e assinantes. Assim, para o nosso bem e para o nosso mal, a imprensa atual é menos doutrinária do que quando começou, e mais voltada para os escândalos. Mas seria tolice da minha parte desconsiderar a palestra de Alain Badiou de 2012, publicada em francês em 2015 com o título de A la recherce du réel perdu, em que o filósofo marxista tece, entre várias caracterizações do real, uma especial abordagem do escândalo. A publicação chega agora ao público brasileiro sob o título Em busca do real perdido (Autêntica, 2017), e sobre o escândalo, diz o seguinte:

“O escândalo sempre se apresenta como uma revelação de uma pedacinho do real. Um dia ficamos sabendo, por nossa mídia preferida, que fulano foi à casa de ciclano e saiu de lá com uma mala cheia de dinheiro. E aí temos todos a impressão irreprimível de tocar em algo mais real do que tudo o que toda essa gente costuma contar. O escândalo é precisamente aquilo que vai, em termos de opinião, abrir a porta para uma espécie de desvelamento de um cantinho do real, mas desde que esse fragmento seja imediatamente tratado como uma exceção, uma escandalosa exceção”. (pp. 15-16).

Nada mais certo. De fato, quando nos pegamos sabendo de algo que é um segredo e que se torna um escândalo, temos a sensação de que tudo que vivemos é da ordem do mero aparente, não do real. O real então é o conteúdo do escândalo. Ele nos dá, ao menos como brecha instantânea que logo se fecha, um vislumbre do real. Não à toa, a concepção que nos mostra escândalos da maldade humana, da corrupção, é chamada em filosofia de realismo. Maquiavel, Hobbes e Sade são, nesse sentido, realistas. Não vemos todo o real pela fresta do escândalo, mais ficamos com a sensação de que vivemos no ambiente duplo, entre o sol e o interior da caverna, e que o escândalo mostra esse duplo e nos deixa ver um pouco do sol. Não à toa, também, falamos em “choque de realidade”.

A realidade não pode ser aquilo para o qual não fazemos um gesto de espanto! E talvez por isso mesmo a filosofia, na tradição metafísica de cultivar o mundo duplo, a tradição platônico-aristotélica, se autodefiniu como um espanto. Essa concepção que, aliás, alimenta o marxismo, segundo o qual o mundo é duplo, vestido de ideologia e realidade, ou às vezes de superestrutura e estrutura, pode sim notar o escândalo como legitimamente uma fresta para o real – o verdadeiro real. Não é a concepção pragmatista, segundo a qual a duplicidade metafísica não tem utilidade, e tudo que vemos sempre já víamos. Nessa concepção o fazer filosofia é apenas multiplicar perspectivas, e não ficar descobrindo o real que vai se desvendar pelo escândalo. Mas, sejamos sinceros, não considerar a tradição platônico-marxista, seria negar uma perspectiva e, então, não ser um bom pragmatista.

No caso do conteúdo hackeado do celular de Marcela Temer, o que está em jogo é um escândalo, e se há interesse pelo escândalo, se vamos procurar explicação no texto de Badiou, não temos como nos maravilhar ao ver que é nossa íntima busca pelo real, como um motor filosófico, que nos movimenta para vir comprar a Folha de S. Paulo, caso ela vença a censura. Não deve existir vida íntima para o presidente e sua esposa, pois eles são figuras pública na sua totalidade. Ainda mais em um país como o nosso. Mas ao mesmo tempo temos que fingir que todos tem, ainda hoje, vida íntima, para que o escândalo possa surgir. Com ele, satisfazemos nossa ideia de achar o real como quem acha o tesouro na final do Arco Íris. Ufa! enfim um ancoradouro ontológico ao meio de tantas perspectivas, livrando-nos da sensação da vertigem relativista. Que bom ter o escândalo e voltarmos a ver o mundo na sua estrutura dual ensinada pelos gregos pós-socráticos, e não o mundo dos espelhos refletidos ao infinito, posto por filósofos que durante os anos 80 até pouco tempo eram os “pós-modernos”.

Assim, o escândalo do tipo Marcela-hackeada pode nos dar tripla satisfação. Primeiro, é um escândalo e, então, nos dá a fofoca necessária para termos conversação; segundo, é um escândalo que, como Badiou diz, nos mostra um cadinho de real; terceiro, que é a minha tese, nos tranquiliza por podermos voltar a uma ontologia metafísica, que nos diz que Platão tinha razão, e não Rorty ou Foucault ou Derrida. Nada como voltar ao bom mundo duplo, onde há o escondido e há o que eu devo ficar sabendo pela imprensa e pela filosofia. Ou melhor, o que, sabido pela imprensa, me dá gás filosófico.

Bendito o escândalo nosso de cada dia, que nos escandaliza enquanto nos tranquiliza.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 14/02/2017

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6 Responses “Marcela Temer precisa nos dar um escândalo”

  1. Nélson
    17/02/2017 at 13:06

    Sérgio, a minha esposa pensa o mesmo que você, com relação à primeira-dama da Pátria: “um tesão! Aliás, ela eu achamos!

  2. Sergio
    16/02/2017 at 16:49

    O texto do professor Paulo simplesmente embaralha novamente as cartas da filosofia. Repõe no jogo os velhos metafísicos, as aparências e as essências, talvez até com uma certa risada irônica de superioridade em relação aos refinados pós-modernos. Já eu busquei sim pela linda bunda de Marcela Temer e até fiquei com inveja em saber que o velho é “dono” de tudo aquilo, Marcela é um tesão!!!

  3. Orivaldo
    16/02/2017 at 13:52

    Devo confessar que lendo os textos do Paulo eu também dou umas viajadas e saio, por descuido, do rumo que o texto propõe. Porém depois de sacolejado pelo filósofo acordo saio do meu texto e volto ao texto dele. Agora o Gustavo não viajou. Ele atolou-se em alguma coisa estranha que o faz praticar não uma viagem, mas sim uma antiviagem que não o leva a lugar algum.

  4. 15/02/2017 at 15:54

    É isso mesmo que o professordisse, Gustavo. Leia, releia, faça um esforço de compreensão, tente assimilar o texto, e só depois volte aqui para fazer o seu comentário.

  5. Gustavo
    15/02/2017 at 14:43

    Lula, Lula, Lula, Lula, Lula… PT, PT, PT, PT… Que vida triste a sua. Os gângsteres do PMDB e PSDB estão tramando contra a Lava Jato faz tempo. Jucá e Renan queriam transformar Moraes em Ministro já hoje. As ratazanas nem disfarçam. Por acaso tu vive numa bolha Ghiraldelli?

    • 15/02/2017 at 14:44

      Gustavo você não conseguiu entender uma linha do meu texto. Meu texto não fala do PT, PMDB, Renan nada disso.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo