Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/10/2019

Manda nudes!


Passou rápido, mas passou. No começo da internet e das redes sociais, fui molestado pelos meus colegas filósofos e acadêmicos em geral. É que eu frequentava a internet, tinha um “site”, etc. Alguns mandavam bilhetinhos com esse conteúdo para a minha casa: “se quer aplauso, entre em um tal de Orkut, onde você reúne um grupo de amigos que ficam puxando seu saco”.

A regra da humildade ou, melhor dizendo, da falsa humildade, ainda valia! Logo depois, quando vieram os blogs e os vídeos, e eu continuei na Internet fazendo filosofia, então voltaram à carga. Reclamaram de mim: “não preserva a própria privacidade!” É o que diziam. Logo depois, até mesmo o governo ordenou que os programas de pós-graduação tivessem “sites” e, em seguida, tudo passou a ser feito online. Finalmente meus pares se calaram. Até hoje fingem que não fizeram o que fizeram.

Hoje em dia o assunto da falta de privacidade na Internet não é mais motivo para meus pares virem me molestar, mas virou até tema de estudo para eles. Todavia, nem sempre esses estudos dão algum bom fruto. Não raro, produzem narrativas chorosas quanto aos “bons tempos da privacidade”! Não conseguem fornecer pistas heurísticas para entendermos do que se trata o “fenômeno da exposição”.

A exposição de si chegou para ficar. Há dois anos, garotas cometeram suicídio porque suas fotos nuas ou fazendo sexo “caíram na internet”. Hoje, 24 meses depois, qualquer garota menor de idade atende sem pestanejar o pedido do garoto que ela acabou de conhecer em uma baladinha ou na escola. Qual pedido? “Manda nudes”. Ela tira a fotos dos seios que nem acabaram de crescer, e manda mesmo. Os meninos retribuem com fotos de seus pipizões de quase 13 centímetros, durinhos! Teremos logo toda uma geração com histórico de exibição nua na Internet. Essas fotos são apagadas, em geral, mas a cada dia, em volume maior, serão exibidas também publicamente para grupos maiores. Aliás, já há garotas que fazem isso, por pura brincadeira, em blogs pessoais ou grupos em redes sociais. A ideia de privacidade não irá acabar, mas se deslocará do mesmo modo que a ideia de virgindade se deslocou. Ninguém cobra hoje em dia virgindade de uma garota, mas é claro que muitas meninas continuam dizendo que só fizeram sexo com dois namorados. O cabaço se deslocou. Viveremos num planeta em que todo mundo já terá visto o corpo nu do outro, inclusive com detalhes alvissareiros, ou depressivos!

Alguns acadêmicos podem concordar comigo a respeito dessa minha previsão, mas tentam se mostrar horrorizados. Sempre há o professor, aos 50 anos, que descobre que mulheres podem gostar de se mostrar nuas e continuarem sendo executivas, enfermeiras, cientistas, escriturárias, professoras etc. Durante bom tempo existirão, ainda, deslumbrados adolescentes de 50 anos que falam de “literatura picante” ou “realista” por conta de conhecerem alguns livros do Nelson Rodrigues. Esse pessoal se esquece de que a não-privacidade sempre foi a regra, e que a exceção histórica é a privacidade. Foi com a ascensão da burguesia que a vida privada se impôs.

O mundo antigo clássico, greco-romano, nunca cultivou a privacidade. Nem da casa e nemkati3kat de corpo. O mundo medieval menos ainda. O mundo do antigo regime fez questão de abolir qualquer sentido de privacidade que pudesse estar em germe. Não raro, os reis se vestiam em público, como em um espetáculo, e muitos deles faziam sexo na “primeira noite” com a corte assistindo. Valia o mundo do reconhecimento, que Hegel imortalizou na sua ideia de uma história que caminhando pela “luta por reconhecimento”. Trata-se do império do aparecer. Só com a burguesia como classe hegemônica é que o ter superou o aparecer e tornou-se elemento de identidade. Só então Marx conseguiu de luta de classes, a luta entre detentores de meios de produção e os que nada possuem a não ser a sua força de trabalho. Só no contexto em que a casa passou a ser local secreto e privado, tendo à sua frente a loja de negócios, é que apareceu a ideia de que a identidade deve ser dada pelo abstrato, por aquele que tem dinheiro e pelo que não tem. A arquitetura burguesa se impôs: a casa separada da loja, a casa separada da fábrica, e finalmente o bangalô distante do próprio burgo. Os burgueses criaram a ideia da vida privada e então isso se encaixou bem com era vitoriana, a era de uma moral rígida diante do aparecer. O aparecer virou coisa do nobre decadente, enquanto que o ter passou a dar o tom para a sociedade e para a política. Chegamos no fim dessa época somente agora. Finalmente estamos, por uma astúcia da tecnologia, reentrando num mundo em que o “mande nudes” será símbolo de uma noção de privacidade completamente mudada.

Em termos do filósofo alemão Peter Sloterdijk, estaremos vivendo o mundo da economia e psicologia timóticas, deixando de lado o mundo da economia e psicologia eróticas. O thymos é o órgão do orgulho pelo comportamento e pelo mostrar-se. Eros é o deus do desejo, do que se satisfaz por meio da posse. Eros domado, domesticado, se tornou o amor burguês, da posse, da inveja, do ciúme exagerado e da prisão da mulher. Não estamos reerotizando o mundo, mas, olhando pela ótica timótica, talvez possamos ver que parte desse mundo erotizado, ou melhor, domesticadamente erotizado, está chegando ao fim.

“Mande nudes”. E eis que todos nós mandaremos. É questão de dias. Portanto, enfeitem suas vulvas, ânus e apetrechos de sexo dito masculino também. Ninguém escapará. Mas não haverá nenhum escândalo. Sim, se entristeçam, pois tudo isso será muito monótono.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Tags: , , , , ,

One Response “Manda nudes!”

  1. 02/10/2015 at 17:21

    interessante, professor. como eu sou um garoto da década de 70, criado nesses ideais da Contracultura e da Revolução Sexual, eu vejo que a internet e as redes sociais fizeram aquilo que ninguém conseguiu até hoje: uma efetiva Revolução Sexual. como produtos e linguagens que se autoalimentam, a internet e as redes sociais desconstruiram o limite entre publico e privado. eu tenho visto um crescente aumento na desconstrução do gênero binomial e talvez vejamos algo que o senhor havia preconizado: a revolução sexual vindo pelas crianças/adolescentes, mostrando que os conceitos de faixa etária são arbitrários.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *