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25/05/2019

Mais uma pérola: a Universidade do Trabalhador


Pessoas da direita política nem sempre têm do que falar. O comunismo está morto. A socialKarl-Marx-T-shirt democracia se descaracterizou e incorporou inúmeros elementos ultraliberais em sua agenda. Sobra, então, ser contra os “direitos de minorias”, mas isso os jornalistas e intelectuais mais conservadores logo percebem que não é uma boa coisa, pois podem ficar com a pecha de racistas, homofóbicos etc. Além disso, nos Estados Unidos, por exemplo, o Partido Republicano também possui alas que defendem políticas de “ação afirmativa”. Assim, o espaço de manobra das letras por parte da direita política, tirando o ataque relativamente correto, mas meio histriônico contra o “politicamente correto”, não é ampliável. E aí, escrever sobre o quê?

Como que um intelectual de direita, hoje no Brasil, pode sobreviver se não tem assunto? Vai ficar falando mal do Snowden, lá do outro lado do mundo? Não dá “ibope”. Bem, só há uma fórmula: ou se inventa mentira contra a esquerda ou então deixa a esquerda produzir algo estapafúrdio para poder “meter o pau”.

A direita no Brasil tem gente para fazer o serviço sujo tanto quanto a esquerda. Mas a direita leva vantagem uma vez que não precisa fazer o serviço sujo. A esquerda dá munição. Vejam só o presente de Natal que a esquerda oferece agora para a direita: a criação da “universidade do trabalhador” por parte do Ministério do Trabalho, que, entre outras coisas, terá curso de “marxismo, socialismo e capitalismo”, a fim de “politizar os trabalhadores”. Isso porque segundo o ministro do Trabalho há uma “despolitização dos trabalhadores” brasileiros. (Notícia do Estadão, 21/12/2013)

Não sou contra que o aparato de estado ensine Marx para quem quer que seja. Marx é um clássico da filosofia e das ciências sociais e deve mesmo ser ensinado. Seu lugar é nas aulas de filosofia, sociologia e história do ensino médio e nos cursos correlatos na universidade, ao lado dos outros assuntos e autores igualmente relevantes. Agora, a “politização do trabalhador” se dá no sindicalismo livre e só nele, se é que “politização” deva ser isso aí, o aprendizado de “marxismo, socialismo e capitalismo”, o que eu acho de uma pobreza incrível. “Politização” por conta do estado? Nem pensar!

Quando falamos em “universidade do trabalhador” e, por alguma via séria, já lemos Marx, sabemos que tudo que se deve ensinar em uma universidade voltada para o mundo do trabalho está sempre bem longe do ensino do próprio marxismo. Marx foi um dos primeiros a perceber que a proposta dos trabalhadores de seu tempo, uma vez focadas no exercício profissional e no domínio doutrinário, era um erro. Ele denunciou isso. Foi contra ambas! Marx foi um dos primeiros a notar que o trabalho iria se tornar proporcionalmente mais simples, e que os trabalhadores deveriam sempre ter mais fundamentos e conhecimentos gerais e menos regras profissionais ou doutrinárias.

Hoje não precisamos mais de Marx para nos dizer isso. Qualquer um sabe que é melhor ter conhecimentos gerais para se tornar um bom trabalhador. Hoje, ser trabalhador, é ter como estudo a matemática e a filosofia, a história e a química, a geografia e a física etc. Todo nosso currículo humanístico se transformou em currículo profissional, voltado para o trabalhador. O chamado “ensino técnico”, bem direcionado para o trabalho específico, este é feito já na linha de produção ou em cursos rápidos dentro da empresa. Fora dela, por meio de incentivo governamental, por razões técnica e de inteligência, a pior coisa que se pode fazer é fornecer ensino técnico restrito ou então saberes ainda mais restritos a respeito de sociologia e política.

Minha crítica não é ideológica. Minha crítica é técnica. Uma pessoa de esquerda, hoje, que leu Marx, jamais proporia o que o ministro do Trabalho está propondo. É um erro crasso. A não ser que o ministro esteja querendo, pelos motivos que invoquei acima, dar elementos para a direita ter o que conversar nesse final de ano. E aí, vamos suportar a ladainha anticomunista novamente. E uma ladainha anticomunista vinda dos mesmos de sempre. Aí aparecerão os malucos de cérebro defasado, que falarão que há uma “revolução comunista bolivariana” em curso por debaixo de tudo isso. Sim, sim, imaginação louca não falta para a direita. Ela vive disso já faz bom tempo, antes mesmo do fim da Guerra Fria – com o macarthismo à frente! Essa caduquice da direita é proporcional à estupidez da esquerda.

Tudo isso é muito chato, mas está dominando nossa imprensa assustadoramente.

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo.

PS: para que a piada tivesse alguma graça, o bom seria colocar o Haddad de reitor dessa “Universidade do Trabalhador”.

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8 Responses “Mais uma pérola: a Universidade do Trabalhador”

  1. vanderson
    29/12/2013 at 10:34

    Para mim é uma aberração. Atrasado..sem nexo…que deixa uma grande margem até para os “delírios da direita” como você diz..E por que a falta de politização do trabalhador se “resolveria” com doutrina de esquerda?rsrs

  2. Carlos Henrique de Oliveira
    24/12/2013 at 00:36

    Para mim isso está me soando muito estranho… Não sei… Tenho medo quando o Estado quer “politizar” as massas. Receio uma lavagem cerebral ou um “cabresto” no povo.

  3. Augusto Pais
    21/12/2013 at 21:33

    Já ouvi certa vez que “o Estado deve fazer pelo povo o que o povo não pode fazer por si mesmo”.
    Bem, o povo não pode dar um choque de gestão na política pública de educação por toda a nação, mas (tecnicamente) nada o impede de se politizar por conta própria.

    Se o povo não é politizado, é porque, em primeiro lugar, ele não vê necessidade nisso. Não aprendeu as relações mais básicas de causa e efeito em política, sociedade e mercado. Todo o seu conhecimento é empírico, e usando os seus como espelho, para quem a discussão não é útil, a política é tão somente o exercício do voto obrigatório de quatro em quatro anos. O resto é besteira ou um monte de matérias esparsas no ‘Jornal Nacional’ para comentar no dia seguinte.

    A proposta do ministro Manoel Dias é utilizar o aparato estatal para engendrar uma rede de ensino à distância aonde se ensinará aos trabalhadores seu papel na sociedade, as teorias sobre o mercado e suas implicações políticas. Ora, achar que a “politização” do trabalhador, por si só, melhora de algum modo sua condição é, no mínimo, ingenuidade.

    Sejamos francos, isso será só um curso técnico pra se inserir no curriculum vitae; portanto, será somente um item a mais para diferenciar um trabalhador de outro – ou, na pior das hipóteses, para a formação de uma militância de esquerda, como a direita tanto teme.

    Não é muito difícil de compreender que a melhora sistemática e contínua na educação básica é a saída para o aprendizado sobre a importância da consciência crítica para a política e tudo o mais. Não adianta melhorar somente a parte de cima da pirâmide, nem alargar o bico do funil.

    Guardadas as proporções, é a mesma crítica que faço ao “Mais Médicos”: “soluções” imediatistas para um problema que seria resolvido somente a longo prazo com correções no sistema de gestão dos setores básicos envolvidos no processo.

    Isso faz com que a boa prática política seja exceção, e não regra; faz com que o povo se acostume a ver os paliativos como soluções definitivas.

    • 22/12/2013 at 02:14

      “a distância”, sem crase, Augusto. Bem, quanto ao assunto, é difícil aproximar isso do “Mais Médico”. “Politização” via estado me parece uma coisa anacrônica, para dizer o mínimo.

  4. Julio Castanheira
    21/12/2013 at 20:10

    Paulo, tem um aspecto ai que nao se pode relegar: no dia em que o trabalhador questionar radicalmente o mundo do trabalho, ele estara questinando o proprio estado. E todos sabemos que este nivel de politizacao o estado jamais permitiria. Marxistas, pero no mucho.

    • 21/12/2013 at 20:25

      Júlio, meu tema não é esse e, cá entre nós, nunca fui daqueles que achou que há “trabalhadores” como classe revolucionária etc etc etc.

  5. Ensaiador
    21/12/2013 at 16:31

    Você ficou sabendo? Chamaram o Pondé pra dar aula lá. kkk brincadeirinha. Imagina a cena…

    • MARCELO CIOTI
      23/12/2013 at 14:30

      Ensaiador,melhor ser um conservador honesto do
      que um esquerdista maconheiro,né?Agora,virou
      modinha chamar quem é de direita de “reacionário”.
      Mesmo a Angela Merkel dando uma surra de votos
      na Alemanha neste 2013 que está acabando.

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