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01/05/2017

Machado de Assis lido por Agamben


Machado de Assis está sempre pondo e repondo o tema da modernidade. A modernidade de Agamben, a da entrada da biopolítica, reaparece em um de seus mais terríveis contos. 

Há ética onde em geral não podemos optar. Quando há escolha, é sinal que enfrentamos antes a moral que a ética. Ética vem de ethos, tem a ver com o costume e hábitos de um povo. Moral vem de mores, tem a ver com costumes e hábitos que, apesar de sociais, claro, são da ordem do indivíduo. Por isso mesmo, contra a ética a insurgência nos tira fora da condição humana, que é sempre a condição de pertencermos a algum um grupo social. Mas, contra a moral sempre podemos tomar decisões opostas ao que nos pedem, uma vez que nos mantemos ainda, seja qual for a decisão, dentro do terreno dos humanos.

O trança-pés que Machado de Assis nos dá em “Pai contra mãe” é que ele põe o ethos fundido com lei e ambos aparentemente como não deixando nenhum espaço para a moral. Claro, contra a moral, se ela pode ainda ser o lugar da opção, sai Deus e entra algo pior e mais poderoso, o dinheiro. Falta dinheiro para o filho e então o pai desesperado volta ao que sabe fazer: recuperar escravo fujão. No caso, escrava. E grávida. Por conta disso o fim é desastroso. A escrava apanha e aborta o filho ali na frente mesmo do seu perseguidor.

Machado transforma o drama em um embate de titãs: quem deve nascer? O filho do pobre branco ou o filho da escrava negra? Quem tem o direito à vida? A pergunta mostra bem a armadilha armada para nós por Machado, o mestre de tornar o leitor sua vítima.

O conto abre com uma amostra de alguns instrumentos da escravidão. Faz um pequeno relato, com a sempre marcada ironia machadiana, em que a instituição da escravidão causa a degradação de negros e brancos, e se põe como uma força odiosa. Feito isso, entramos para a história do pai que, não sabendo outra profissão além da de caçado de escravos, para alimentar o filho e não colocá-lo na roda dos enjeitados, acaba por perseguir sem piedade uma escrava ladina. Aliás, uma das últimas presas possíveis, já numa época de fim do tráfico. Quando a joga aos pés do seu senhor e a vê espernear sob o açoite, o que provoca um aborto, esse homem de nome Cândido Neves, a candura das neves, sai em disparada com um só pensamento: levar o dinheiro para o sustento do filho. Machado quer que fiquemos atônitos com o que ele próprio é: um mulato, uma figura aparentemente “do meio termo”. O leitor é posto para ser o juiz: que viva o branco pobre ou que viva o negro escravo? Negros e brancos. Cândido não poderia ter segurado a mão do senhor? Se segurasse, perderia o dinheiro já pago? Provavelmente! Mas Cândido já não pensava nisso. Só o leitor assim pensa. Todavia, num primeiro momento, tudo corre a favor do leitor, que faz a escravidão a responsável. Afinal, sempre dá para dizer: a escravidão é a culpada, ela é odiosa, ela jogou todos naquilo: uns caçados e outros caçadores. Ah! Se não fosse a escravidão, então …

Machado deixa o polo “mundo social” e o polo “dinheiro” abrirem a picada para a fuga do leitor. Mas é uma fuga como a própria escapadela da escrava. Lá no interior das ruas do Rio há um perseguidor para pegar a ladina, ou o leitor. Esse perseguidor se chama consciência moral moderna. Afinal, lá diante, após correr muito, o leitor pode pensar: Cândido poderia sim ter segurado a mão do homem. Aliás, mais que isso, poderia não se meter mais nesse serviço odioso, por mais pobre que fosse. Havia opções para Cândido, não havia nenhuma opção para a escrava.

O conto não se chama “a escravidão” ou “a escrava fujona” ou “o capitão do mato urbano”. Chama-se “Pai contra mãe”. No limite há uma luta moral moderna, doméstica, entre aquele que quer que seu filho vingue e aquela que vê que seu filho não vai vingar. Reduzidos assim, ao que é denominado a partir do que sai do útero – o filho – os personagens perdem suas condições sócio-políticas e são então algo mais próximo do que Agamben lembra que é a zoé, não a bios. Trata-se da “vida nua”, a vida que tem útero e que solta de dentro de tais bolsas os pequenos humanos, o que vão levar adiante a vida. Nessa hora, está visível a vida biológica. A questão é nascer ou morrer. A modernidade traz então a biopolítica. O valor jogado na mesa não é o valor da vida como bios, ou seja, a vida social e política, mas o valor último em tempos modernos, o valor da vida. A vida biológica, nua, a vida zoé. Trata-se da vida do homo sacer, aquele não pode ser punível, pois está fora da lei, mas que ainda assim pode ser morto, justamente por estar fora da lei. O filho da escrava é isso. O filho de Cândido é isso. Como vidas biológicas, e não como filho do branco pobre e da escrava negra, são eles que surgem como o valor último de nosso tempo. Por isso mesmo o impacto final sobre o leitor. São disputas, para o leitor, que é moderno, entre vida e vida, sem hierarquias. Eles são o que entendemos modernamente como vida, a vida biológica, a vida nua. Não são a vida do filho do habitante do Rio de Janeiro que caça a vida da habitante da senzala, são apenas e tão somente vidas. Quando o leitor se dá conta disso, percebe então que caiu na armadilha de Machado. O grande valor da modernidade, a vida, sendo um valor último de nossos tempos, é justamente o que não faz ficar no impasse. Parece que a atitude moral só é possível se salvarmos as duas vidas. Pensamos assim como modernos, como leitores.

Caso Machado fizesse valer a luta entre a vida de um escravo e a vida de um homem livre, ele estaria tratando com bios e, portanto, não com o mundo moderno. Mas, no mundo moderno, na conta de Agamben, o valor último é a vida. A vida nua. Vidas nuas ali só a do bebê e a do bebê que vira aborto. Nisso Machado retrata autenticamente o moderno. Exatamente nisso, Machado nos coloca em um beco sem saída.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Link para o conto “Pai contra mãe”, de Machado de Assis.

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7 Responses “Machado de Assis lido por Agamben”

  1. José Henrique Iletrado Neves
    04/01/2016 at 17:36

    Poxa vida! Não sei pra quê escrever de forma tão tumultuada.
    Eu ñ entendo por que vocês filósofos querem complicar e desinformar tanto os leitores. Estão ficando morfados, precisam se reformar. Quem é vc pra aparecer assim?!

    • 04/01/2016 at 17:50

      José Henrique Iletrado, além de gostar de se nome “Iletrado Neves”, adorei essa palavra: morfados. Vou usar.

  2. Alceu Junior Maciel (Filósofo)
    28/12/2015 at 12:29

    Prezado Filósofo Ghiraldelli
    Satisfação em observar suas análises, principalmente relacionando um autor que venho estudando já alguns anos com a literatura brasileira.
    Com relação a sua percepção de biopolítica, convém observar que Agamben retoma esta temática já trabalhada por Foucault, salvo algumas divergências teóricas e conceituais. Relacionando a vida na modernidade, se percebe que a vida qualificada (bios) é neutralizada e se sobressai a vida desqualificada ou a vida do mundo das necessidades ou ainda para os gregos a zoé, pois esta foi “tomada” pela economia (pertencente ao reino das necessidades). Isto também neutraliza a política dito que esta pertence ao mundo da vida qualificada – bios. Hannah Arendt faz uma análise das significações de vida no mundo grego em “A Condição Humana”. Diante disto, todas as vidas que se prendem ao mundo da economia pertence ao reino das necessidades, sendo assim, zoé, vida nua. Neste sentido, todos os personagens de Machado de Assis podem ser analisados nesta óptica.
    Apenas esta analise gostaria de acrescentar. Gostaria de ler mais analises suas com relação à literatura brasileira e filosofia. A partir do teu texto pensei num projeto, que se estiver disposto poderíamos desenvolver. Grato.

    • 28/12/2015 at 16:02

      Alceu eu não gosto muito dessa ideia “todos os personagens de Machado podem ser analisados sob essa ótica”. Eu sempre escrevo de modo mais particularizado e menos sociológico, digamos. Obrigado por ler minhas coisas.

  3. Alexandre
    28/12/2015 at 11:52

    Capazes das coisas mais repulsivas e das mais dignas. Isso é nosso, somos assim, sempre lançados em cisões. Hegel sempre no pedaço.

    Ao acabar de ler o conto do Machado e o seu texto, restaram-me uma grande amargura e uma grande tristeza. Belos textos e dizimadores.

    Não conhecia esse conto espetacular do Machado, uma narrativa isenta, como alguém vendo um acontecimento de fora, na pura objetividade do fato, mas “de repente, não mais que de repente” tomado pelo avassalador sentimento da situação, pela repulsa da naturalidade do cruel. E Machado, com sua fina e cruel ironia, passa a bola para nós: regra do jogo; e agora meu querido leitor?

    Não conhecia também este seu texto tão bem costurado, mais uma vez lendo as coisas do mundo com as acertadas lunetas filosóficas. Acredito que aí reside o mal estar que fiquei após as duas leituras. O pensar ao modo filosófico, é um ato de “violência”. Somente pensamos quando não mais podemos deixar de pensar.

    Um grande abraço,

    Alex,

    Filô das Onze.

  4. Incrível, como você escreve lindamente. Bom dia Filósofo Paulo!!!

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