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19/08/2017

O macaco, minha esposa e eu


“O que é o macaco para o homem? Uma coisa ridícula ou vergonhosa”. Nietzsche confeccionou essa frase para lembrar que assim seria também quando o Übermensch viesse a se por diante do homem. Este, então, seria o ridículo e o vergonhoso.

Diante do cachorro, portamo-nos como pais. Mais recentemente descobriu-se que os cães provocam em nós, pelo olhar, uma ampliação da nossa ocitocina, hormônio ligado aos dotes de maternidade, inclusive a produção de leite. Da minha parte, sempre acreditei que cães e homens conviveram nas cavernas antes de serem propriamente cães e homens. O cão não conheceu o homem e vice-versa pela domesticação. Isso foi mais um reconhecimento que um primeiro encontro.

Mas, com o macaco é diferente. Ele não é nosso filho. Nem pai. Ele não é nada nosso a não ser o que Darwin disse: um primo. Você traria um primo para morar na sua casa, entre você e sua esposa? É como trazer um cunhado. Ele se torna “o outro”. Ele é a caricatura, aquele que deveria ter se aprumado na vida e, se está na sua casa, é claro que não fez isso e não vai fazer. Caso faça, será com a sua ajuda, e então você será eleito como o seu inimigo para sempre. Ninguém tem macaco em casa. Todos nós sabemos bem que não dá certo.

O cão é filho. É ingênuo como a criança e precisa de cuidados. Você se dedica a ele. O macaco não, ele abre a geladeira, bebe refrigerantes, quebra coisas, toma sua cerveja. Você ensina um cão, mas não um macaco. O macaco você adestra. Mas, se você sai, ele apronta de um modo incontrolável. Só há um modo de você conviver com o macaco: humilhando-o, manipulando-o. Não serve. Isso não serve para você. Só pessoas que já se tornaram nada boas gostam de conviver com quem forçosamente precisam mandar de a quase humilhar ou ao menos “colocar no cabresto”. O macaco imita? Sim, mas só o que há de pior em nós. A própria cara do macaco é a nossa cara, quando caímos nas mãos de um desenhista sarcástico. O macaco é um animal adorável, mas ele lá e nós aqui. Em casa, como um terceiro, não!

 O Presente (The gift, Joel Edgerton, USA, 2015), está nas telas, e é uma história de macaco.

À primeira vista de The gift parece ser uma história simples de um casal, Simon e Robyn, que encontra com um terceiro (Gordo), um amigo de infância de Simon, e que passa a importuná-los. A trama assim se desenvolve. Mas, logo se vê que o terceiro, a partir de um momento, inicia uma recaída no ódio que prometeu abandonar. Seu ódio está calçado e um dado: ele sofreu bullying quando criança, na escola, exatamente pelo marido do casal importunado, Simon. Mas não qualquer bullying. Algo que realmente destruiu sua vida. Uma mentira, um trabalho de envenenamento de opiniões. Ele já era o esquisito da escola, algo que lembra o macaco, o ridículo diante do homem, e assim foi tratado. A película dá a dica: Simon tem pavor de macaco. Macacos são os que pedem para serem manipulados e, não raro, humilhados, e Simon é especialista em, na pele boa pessoa, agir assim com os que parecem propícios a serem já macaquitos. É como se Simon não gostasse de macacos porque eles o chamam para o seu pior – e ele cede. Sempre cedeu. Simon não é o Übermensch olhando para o homem e achando que este é como o macaco quando o homem olha para o animal. Simon é exatamente o homem com medo de só saber tratar todos como macacos, se eles dão a mínima chance para tal. Simon tem o dom de poder tratar o homem que é macaco como macaco. Por isso não gosta de macaco. Quem gostaria de ter o fantástico dom de só se dar bem no momento em que exerce o seu pior ?

Muitas pessoas vencem prejudicando outros. Mas elas olham no espelho e encontram outros dons em si mesmas, ou ao menos conseguem mentir para si mesmas ao falarem de dotes próprios, dotes não existentes. Até podem encontrar o dom de enganar, de saber roubar, de mentir. Mas o dom de saber tratar o macaco como macaco não pode ser exibido nem mesmo entre bandidos. Ninguém se aproxima de gente assim, que viesse a exibir essa prática não como ocasional, mas como seu melhor dom.

The gift é um bom filme porque revela nossa terrível mania de odiar escutarmos por aí “macaco!” ou “macaquito!” ou “macaquinhos”. Revela algo em nós que pode ser o fato de sabermos da existência de Simon em algum lugar não muito longe.

Paulo Ghiraldelli 58, filósofo.

PS: não conto o fim do filme não! Vá ver. E cuidado com macacos.

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