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23/11/2017

2016: o ano que lutaremos por mais desigualdades


A tarefa dos filósofos em 2016 é a continuação da luta sintetizada por Rorty na expressão “podemos ser versões melhores de nós mesmos”. Seremos nós mesmos, mas quem vier pintar nossos quadros de rosto, deverá usar vários pinceis. Talvez só um químico poderá ajudar o pintor. Pois serão necessárias novas cores. 

Mas é só produzir-se diferente e seremos melhores? Não podemos ser diferentes e profundamente piores? Não muito! Basta sermos diferentes e nossas chances de sermos melhores sempre crescerá. A maldade é limitada, só a bondade é infinita.

A impressão inicial diz o contrário. Mas, é só pensarmos um pouco, e logo vemos que as maldades primam pela repetição, pelo lugar comum e pela capacidade incrível de serem predizíveis. “Faça-me um mal” – pode-se pedir isso ao demônio. Ele logo fará algo que já fez. “Faça-me um bem” – pode-se pedir isso a um anjo. Ele terá de investigar o que pode ser um bem para você, e entrará no reino infinito da imaginação. O mal atrai o cliché. Os escritores ruins são os do cliché. E o Castelo de Sade tinha um número bem determinado de sessões e máquinas. Os homens possuem uma capacidade finita para o mal. O mal aumenta de intensidade, mas funciona como o motociclista no Globo da Morte, com muita velocidade mas no mesmo espaço. O “melhor”, “o bem”, é impensável como algo do mesmo espaço.

Platão foi o primeiro filósofo, e talvez o primeiro escritor, a entender a infinitude do bem. Quando pensou a existência ontológica do mundo das formas perfeitas, não conseguiu fazer um lugar para o bem, tornou-o então o esteio, o ether de todos as formas. Todas as formas são excelentes. O que possuem de comum? A excelência, o perfeito, a característica de serem boas. Elas são o que são por serem do bem, ora, então o bem é justamente “a forma das formas”, e desse modo é infinito. Dentro de uma filosofia considerada altamente monolítica e não favorável à pluralidade sempre esteve guardado um segredo de Polichinelo: o bem é o plural. Ele é o terreno da imensidão do não mensurável. Cada forma na sua excelência, faz o bem ficar um pouco maior, e assim infinitamente.

O bem se aproxima da verdade, de algo cognitivo como a sabedoria para a verdade. Por isso a piada do tempo da ditadura militar: “a inteligência calcula-se, a burrice Médici”. Foram os anos de governo do General Garrastazu. O que nos faz plurais é nossa vocação para criar, e só podemos criar o bem, o mal é apenas recolhido de um catálogo. O mal está no armário, não é verdade?

A sabedoria das religiões não desafia essa nossa percepção. Os pecados são sempre numeráveis, catalogáveis. Existe “os sete pecados capitais”, não existem as bondades máximas numeradas. Tanto é que para falar de um reino de bondade, Jesus nunca se dirigiu a um lugar finito, mas sempre em relação à metáfora do Céu, o infinito.

Aliás, Marx nos ensinou exatamente isso: se há algo que nos faz cair sob o infortúnio é a nossa aparente salvação: o mercado. É nele que desaparece todo valor de uso e tudo é reduzido a valor de troca. Daí para diante, somos sempre os que têm que suportar o igual. A diversidade das mercadorias é do âmbito da aparência, mas logo que elas se colocam na exposição, elas já se mostram equivalentes, nelas há embutido a força de trabalho humano abstrato, e por isso elas se equivalem através do que é o equivalente universal, o dinheiro. Nesse sentido, numa sociedade de mercado nos tornamos os que não primam pela utilidade, mas os que se transformam em espectadores do que não tem utilidade. Daí a expressão “sociedade do espetáculo” para o capitalismo avançado. Se vivemos num mundo que traz junto da abundância, o desconforto, este reside na igualdade. Marx nunca deixou de ser um hegeliano, um adorador da liberdade, do diferente, do fazer diferente.

É bem interessante que os escritores modernos se enganem quanto a isso. Quando descrevem suas tramas, acham que os personagens maus é que funcionam como pivôs da história. Sem eles, uma história moderna não existiria. Induzem os atores de teatro a pegarem o papel dos vilões, pois parecem mais interessantes. Ledo engano. Os escritores assim fazem por que a bondade é infinita e, sendo infinita, é tema da filosofia, não do romance. O romance é um caso terreno. Portanto, nele, é necessário dar os dados para a imaginação. O bem é infinito e, por isso mesmo, fora do alcance do escritor, pois o bem não tem uma história, tem infinitas, não fornece dados para a imaginação mas, ao contrário, a faz produtiva, a faz trabalhar mais. O escritor do bem ficaria perdido, sempre começando um novo capítulo dois, nunca o três. Mudaria de curso a todo momento. Não conseguiria o fio da meada. Talvez por isso mesmo o escritor do Pequeno Príncipe tenha desaparecido voando, como aviador que era. Só assim poderia sua história ser uma história como ele a desejou: sem fim, dado ser uma história do bem.

A diferença tem chance de trazer o bem. A igualdade tem menos chance. Por isso mesmo as utopias igualitaristas sempre nos trouxeram algum incômodo para além do que inicialmente nós pensávamos que era o seu objetivo fustigador. Os seus criadores procuraram fazê-las em detalhes, exatamente para mostrar o caráter indescritível do bem. Antes do predomínio do pensamento histórico, as utopias sempre foram detalhistas, como se quisessem dizer exatamente isso: uma sociedade do bem não é algo que não exista ou não possa existir, é algo não possível de ser descrita. Ela é inumerável em suas características. Isso foi percebido pelas utopias que se casaram com o pensamento histórico e quiseram se realizar. Ao se fazerem igualitaristas, seus projetores logo apelaram, em um segundo momento, para a liberdade. Tentaram deixar claro que se iriam falar em igualdade era para que se pudesse comemorar a liberdade que viria junto.

Há algo em nós que sabe de tudo isso, às vezes intuitivamente, de que o plural tem mais parentesco que o igual e repetitivo com o bem.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo, 01/01/2016

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10 Responses “2016: o ano que lutaremos por mais desigualdades”

  1. Jozias M.
    04/01/2016 at 00:49

    O mal não é limitado. Assim como o bem, é ilimitado e indescritível, seja por questão filosófica ou por questão de lógica (linguagem). A diferença é que quando falamos sobre bem, procuramos descrever o bem extremo, sem nenhum pingo de mal. Porém, quando falamos sobre o mal, não fazemos isso. Basta ser algo tão simples como uma doença que “nossa, é a pior coisa que poderia acontecer”. Se tentarmos imaginar o mal extremo, teremos a mesma dificuldade em limitar ou descrever.

    • 04/01/2016 at 00:55

      Nao Jozias, não é o caso. Leia de novo.

    • Jozias M.
      04/01/2016 at 12:45

      Não é o caso, mas você usou tais comparações em todo o artigo como apoio para o que é o caso.

    • 04/01/2016 at 00:56

      Nao Jozias, não é o caso. Leia de novo. Não nos quadros do texto

  2. Dennis
    03/01/2016 at 20:45

    O Homem sem Qualidades não tem fim, portanto, é uma estória boa?
    Estou lendo este livro e, de vez em quando, certas coisas que eu já li aqui, com relação a sociedade do espetáculo é de certa formá bem congruente.

  3. José Silva
    01/01/2016 at 22:37

    Feliz Ano Novo pra você e toda sua família professor Paulo.

    Gostaria de saber se você já ouviu falar desse negócio de “Inteligência emocional”, começou a surgir umas coisas desse tipo na minha Linha do tempo, no Face. E rapaz, o bicho é feio, pensei que não havia nada pior que Olavo de Carvalho.

  4. anderson
    01/01/2016 at 19:44

    Começou 2016 inspirado.

  5. Matheus V.
    01/01/2016 at 14:29

    Ola professor, você pode fazer a indicação de algum comentarista sobre a tematica do bem em Platao, ou da questao das utopias? Obrigado.

    • 01/01/2016 at 15:15

      Não é necessário, é só ler Platão. A República. Se tiver dificuldade, pegue A aventura da filosofia (Manole), dois volumes. Quando já tiver lido Platão, então tente os comentários sobre a República feitos pela Julia Annas. Já disse, o CEFA tem grupos de leitura. Aproxime-se.

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