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29/05/2017

Menos luta de classes e sexo


Talvez estejamos chegando na época de sabermos olhar o mundo também sem luta de classes e sem sexo. Não! Não estou dizendo que vivemos em um mundo sem conflitos classistas e, pior ainda, em um mundo em que o sexo não tem importância. Não estou falando das banalidades que sabemos. Estou falando da nossa prisão de olhar por uma só janela. Estamos há muito só vendo as coisas pelo freudomarxismo, algo meio que disseminado em bares dos anos sessenta, onde ainda a nossa juventude escolarizada em HUmanidades come pizza.

Penso sobre se podemos ter narrativas capazes de olhar o mundo antes pela luta por reconhecimento, de Hegel, que pela luta de classes no formato clássico, de Marx. Creio que podemos ver o desenvolvimento da civilização não só pela sublimação, de Freud, mas também pela economia do gasto, de Bataille. Em outras palavras: talvez estejamos prestes a poder ler Peter Sloterdijk.

Marx considerou a luta de classes importante porque o modelo de transformação que conhecia era o das revoluções burguesas. Nesse modelo, o embate classista parecia ser o centro do conflito político e o creme das complicações econômicas postas no bolo da sobremesa cotidiana. Mesmo que deixemos Marx de lado, ainda hoje nos é impossível falar das Revoluções Inglesa, Francesa e Americana com outro vocabulário que o classista. Todavia, ao olharmos o panorama das reivindicações sociais atuais, parece mais fácil ver grupos e pessoas pedindo reconhecimento, buscando antes dignidade que qualquer outra coisa. Justiça social hoje não é de modo algum só reconhecer que o trabalhador deve ganhar melhor do que ganha, como faria qualquer social-democrata marxista, mas também encontrar o respeito às identidades de grupos étnicos, de gênero, de gostos sexuais, de configurações anatômicas e outras.

Freud considerou que existiam dois impulsos, o de morte e o do prazer. Viu que para existir a civilização esses instintos deveriam ser antes sublimados que teimosamente reprimidos. Sendo herdeira da psicologia moderna que colocou o homem sob a rubrica “razão versus paixão”, também a psicanálise freudiana, como visão médica, nunca conseguiu sair da dicotomia sadio-patológico. Desse modo, não passar pela sublimação e poder então endossar a vida produtiva, o trabalho e, enfim, a construção da cultura e da civilização, só poderia gerar o caso doentio. No entanto, hoje, é difícil não ver que não cabe mais pensar em quem é mau somente como doente. Nem podemos ver quem gasta sem pedir nada em troca como não sendo um caso de prazer de esbanjar, de gastar, de se exceder – isso que pode fazer alguém com propensão para a filantropia. Esse caso não tem que ser patológico! A moral do fazer sem visar algo em troca, um comportamento quase que kantiano, é possível de ver existindo se aproveitamos Nietzsche do modo que Bataille fez, para lembrar o quanto somos propensos antes para o gasto que para a produção. Nas crises atuais, muito do patrimônio cultural é cuidado não pelo estados e pelos impostos, mas pela iniciativa de milionários, curadores, amantes da arte e indivíduos. Nessa crise da imigração, provocada pela guerra Síria e outros problemas, um milionário doou uma ilha para os refugiados. O Brasil, que pouco tem a ver com o caso, tem aceito imigrantes do oriente médio e do mundo árabe de braços abertos. Mais um caso a ser notado: um grande arqueólogo (Khaled al-Assadse) recusou a dar ao ISIS a localização de relíquias históricas, pagando com a vida tal negativa.

Caso pudermos olhar o mundo por um ótica de Sloterdijk, talvez tenhamos uma compreensão melhor desses elementos todos, uma nova psicologia política que se apresenta no horizonte. Estaremos de olhos mais abertos quando formos capazes de ir para outro paradigma. Certamente seremos mais inteligentes fazendo isso. Portanto, estaremos bem longe do militante de direita e de esquerda que encontramos nos jornais atuais, em colunas em que sempre se diz a mesma coisa.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Foto: imigrantes fugidos da Guerra sendo recebidos na Alemanha.

Aviso: o texto acima é jornalístico, o artigo que lhe dá base está aqui: Sloterdijk: subjetividade timótica (ambos estão no app Filosofia Gratuita também)

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One Response “Menos luta de classes e sexo”

  1. roberto quintas
    09/09/2015 at 12:26

    excelente texto, professor. quem sabe nos tornemos efetivamente humanos quando resolvermos esses conflitos.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo