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24/09/2017

O que é a linguagem, afinal?


SE VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA nos Estados Unidos então você está pregnant. Se é uma brasileira nos Estados Unidos, grávida, pode entender “pregnant” muito bem, pois tem em sua língua o termo “impregnado”. Algo cheio está impregnado. Importa aí a quantidade.

Mas se você está grávida na Espanha ou na Argentina e lugares do castelhano, você está embarazada. No português temos, para entender a cosia, então, aquela “moça embaraçada”, ou seja, metida em confusão, em problemas. Importa aí as relações humanas, se olhamos a partir do português para o castelhano.

No português, uma moça grávida está sujeita à gravidez, está sob a gravidade, ou seja, está com peso. Que a lei de Newton adentre o português que, nessa hora, parece mais preocupada com o fenômeno natural que faz a Terra atrair matéria e se atraída pela matéria, afinal, F = g. Mm/dd.

Quando olhamos para essas reflexões linguísticas e as pensamos a partir da filosofia, podemos notar que a simbolização nossa – a capacidade humana de simbologia e, portanto, de linguagem – não vai para uma estratosfera distante. Nossa linguagem pode ter lances metafísicos, como dizia Nietzsche, mas ela tem lances ontológicos fortes, ou seja, descreve antes de tudo um ambiente, nasce da ambientação, e nesse sentido temos mais é que concordar com Donald Davidson. Ele é quem nos lembra que nossa linguagem é sempre um componente da ambientação e, por isso, temos muito mais verdades que mentiras no nosso modo de falar. Nossa simbologia parece sofisticada, e de fato é, mas é também simples, apenas uma forma de espelhar o mundo segundo um espelho esquisito.

Dessa noção de Davidson podemo saltar, então, para a frase de Peter Sloterdijk, mais ou menos assim, na minha tradução livre: “se não se quiser falar em pedras, que não se fale do homem”. O homem é homem ao ser do mundo terreno, do mundo que vai da água para o chão duro, para a pedra, inclusive para a pedra lançada, que é o protótipo ancestral da frase lançada. Uma proposição lançada ganha falso ou verdadeiro. Uma pedra lançada ganha certo ou errado, se atinge ou não o alvo. Em outras palavras, é no seu ambiente que um determinado animal meio humanóide resolver trocar seu contato direto com o mundo fazendo certa exclusão corporal, ou seja, pondo a pedra entre seu corpo e o resto do ambiente. Ao fazer isso, iniciou a simbologia, e passou a contar aquilo que faz com a pedra para criar a linguagem como espelho especial de suas atividades.

Escrevi livro sobre Davidson e sobre Sloterdijk. E o fio condutor dessas pesquisas implicam um pouco nisso, nessa investigação sobre nossa atividade simbólica. Alguns curiosos como eu, com algum pendor filosófico, podem gostar desses livros, desse assunto. É coisa para poucos, eu sei. Mas que formamos um time, formamos.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 21/07/2017

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3 Responses “O que é a linguagem, afinal?”

  1. Hilquias Honório
    22/07/2017 at 16:05

    Exatamente, eu li no Blog antigo várias vezes. Um barato!

  2. Hilquias Honório
    22/07/2017 at 00:57

    Caramba! Devo confessar que por esses dias, tentei fugir dos seus textos e da filosofia. Mas, quanto mais passa o tempo, mais percebo que não adianta, sem isso não consigo mais ser feliz. É um alento pro espírito. Percebi lendo Nietzche e Tomás de Aquino essa semana. Esse mundo é muito fascinante. Quero mergulhar de cabeça.

    • 22/07/2017 at 08:28

      Já leu o meu “o menino que fugia da filosofia”? É autobiográfico.

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