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24/04/2017

Há ética ou limites na Internet? Uma questão a partir de Agamben.


A Internet é o lugar da impunidade. Na Internet, as pessoas sacam suas armas e atiram. Por qualquer coisa. Criar mentira na Internet é uma prática da qual ninguém escapa. Acusar sem razão ou prova, então, nem se fale! A impunidade, essa é a razão pela qual se faz isso assim tão fácil? Os conservadores de todo tipo, à direita e à esquerda, pensam que sim. Querem encontrar mecanismos de controlar a Internet. É possível?

Possível ou não, o que não se está compreendendo bem quando se faz essa proposta, não diz respeito ao não entendimento do mecanismo técnico da Internet e das comunicações atuais. O que está ficando de lado é a compreensão da modernidade ou pós-modernidade em que vivemos. Há outra subjetividade funcionando em nossos tempos. Agamben atinou para parte do problema ao falar na “identidade sem pessoa”.[1]  Esse problema encontrou na Internet um lugar para se mostrar de modo mais claro.

Podemos começar por um personagem conhecido nosso e, então, explicar o caso. Trata-se do alferes do conto “O espelho”, de Machado de Assis. O pobre diabo estava perdendo a razão por ficar sozinho num sítio, e só conseguiu se reestabelecer quando colocou seu uniforme militar novamente diante do espelho.  Ora, é fácil ver, como já escrevi outras vezes, que o alferes descobriu na prática aquilo que Pascal e Hume apontaram em filosofia: o eu não possui nenhuma substância, e se há algo que possa ser configurado como tal advém das qualidades e atributos. Todavia, é preciso dizer mais. Pois se adiantamos o tempo e chegamos mais perto da nossa modernidade, então encontramos Schopenhauer e Nietzsche falando do eu como corpo, como instância de conhecimento (especial) e como identidade em forma de “Grande Razão”. Mas, quando chegamos nessa situação, e mantemos como exemplo o alferes de Machado, ainda não compreendemos de todo nossos tempos.

O alferes tem sua identidade no corpo, mas é o corpo vestido, social, ainda político. Nossa época é a época que Sloterdijk chama de sociedade da abundância e desonerada e, nela, precisamos notar que, como Agamben disse, o que entra na jogada é a vida nua, ou seja, a vida puramente biológica, abstrata tanto quanto a abstração da mercadoria. O corpo que ocupa o lugar do eu não é o corpo da vida como bios, a vida social e política, mas o corpo como efetivamente corpóreo, simples, ligado à vida como zoé. Trata-se do corpo do homo sacer de Agamben. É este corpo que abraça a identidade do homem moderno e que aparece despido, nu, sem qualquer traço da máscara que forma a persona, a pessoa. É o corpo na sociedade pós-histórica e pós-ética. É o corpo encontrado no campo de concentração, aquele do prisioneiro que não vê qualquer mais diferença entre sofrer com o frio e sofrer com a humilhação da SS. Reduzido ao som da respiração, como abstração que se segura no comum dos homens vivos, ou seja, o estar vivo, esse corpo é como o corpo que entra na Internet. Trata-se do eu que vai para a Internet e que é uma identidade desonerada da pessoa.

Como é ser moderno então? Todo homem quer ser reconhecido para, então, ser uma pessoa, dizia Hegel. Mas, ser moderno no sentido de nossos tempos modernos ou pós-modernos, é ser reconhecido por ninguém, ou seja, por máquina. “Faça o seu login”, isto é, coloque seu “Id” e seu “password” em retângulos e seja então reconhecido. Você é uma “identidade sem pessoa”. Tanto é verdade que a máquina, não raro, quer saber se você não é como ela, não é máquina: dá-lhe tarefas para tal. Então, você adentra o mundo de forma menos onerada que a de consumidor (cidadão, nem pensar!), uma vez que você vai para a rede social que lhe avisa: “é gratuita e sempre será”. Você é um “usuário”.

Mas, é o Facebook  ou Internet os verdadeiros usuários, você é apenas o que pensa criar mentiras e que repassa mentiras, na maior parte, imagens. Aliás, você nem sabe entender outra coisa que não sejam imagens. Há tempos você é um homem da sociedade do espetáculo. É o homem que, na sociedade em que a mercadoria (com seu valor de troca e não mais valor de uso) impera e só tem a utilidade de mostrar-se, entende somente a linguagem do ver, a linguagem das imagens. Assim, nesse ambiente,  em que você é um eu que, por não ser nada, por adquirir papeis dados por dezenas de avatares, não há razão nenhuma para qualquer ética. A ética ficou com o “Eu penso” (Kant) ou com “a Grande Razão” (Zarathustra) ou com o alferes e seu casaco militar (Machado). Esses pensantes ou corpos ainda eram pessoas. Como usuário você está como todos nós, os corpos numerados do campo de concentração. Você é um número, pois é reconhecido pela digital e, agora, pelo DNA. Em inúmeras catracas do mundo o sensor de máquina o reconhece assim e só assim você é alguém. Ou seja, um Ulisses, aquele que falou ao Gigante que era Ninguém.  Gigantes do mundo identificam você. Desse modo, com seu corpo nu enquanto um eu, é com o corpo nu que você se relaciona com tudo o mais. Não à toa você manda “nudes” sem qualquer problema ou pudor. Todos nós fazemos isso. Não é uma prática de “jovens”. Aliás, nesse mundo, todos são da mesma idade, pois vale só o experimento, não a experiência ou o saber livresco que demanda letra e oneração. Vê-se bem isso em postos de gasolina nas férias: nunca sabemos na algazarra quem são os pais das crianças, ou seja, quem são os adultos e quem são as crianças. Vestem-se iguais. Tão iguais que às vezes achamos que vão mandar “nudes” ali mesmo!

Assim, o mundo virtual não cria a impunidade ou a sensação de impunidade. Ele potencializa uma situação na qual a subjetividade sofreu uma mutação. O sujeito é o que se desinibe com uma narrativa interior para sair da teoria e ir para a prática, diz Sloterdijk. Mas se é vazio e não tem narrativa, o que encontra em si ou foi dado por um consultor ou foi dado pelo eu que não é pessoa, o corpo abstrato ou “corpo nu”. O “nudes” aí pode ser visto como o corpo nu no sentido da “vida nua” de Agamben, lida assim, de modo literal.

Corpos nus simples, biológicos, não são imputáveis. O máximo que se pode fazer com o corpo nu que espelha a vida nua é também o mínimo: mata-lo. Pois como corpo assim, descorporificado socialmente, sem persona, sem pessoa, o frio e a SS soam iguais. Entrar na Internet é entrar num mundo de fofoca, mas que é um campo de concentração. É entra na democracia liberal ou no Welfare State, sim, mas e também entrar no campo de concentração se o reconhecimento é o contemporâneo, do reino da biopolítica. Ao mesmo tempo, um lugar que parece alegre, pois desonerado, livre, irresponsável.

Se os conservadores pudessem entender isso… Não, não podem. Eles acreditam ainda, como fazem os filósofos pudicos (existe essa raça no anti-feminismo), que podem atingir alguém com artiguinhos normativos, morais. São babacas.

Paulo Ghiraldelli 58, filósofo.

[1] Agamben, G. Nudez. Lisboa: Relógio D’Agua, 2010, 61-70.

Breanna tirou um selfie em Auschwitz, no estilo energúmeno. Caso fosse uma brasileira, seria um tipo Danilo Gentile.

Breanna tirou um selfie em Auschwitz, no estilo energúmeno. Caso fosse uma brasileira, seria um tipo Danilo Gentile.

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6 Responses “Há ética ou limites na Internet? Uma questão a partir de Agamben.”

  1. Maximiliano Paim
    22/02/2016 at 09:36

    A zoé dentro da biopolítica me faz lembrar, ainda que em época anterior, do rei de Nápoles (no seriado dos Bórgia) e seus cadáveres que encenavam um jantar depois de serem ressuscitados inúmeras vezes para manterem a naturalidade. Ou seja, aqui, uma modernidade que reduz o indivíduo apenas ao estar vivo para que apareça.

  2. LMC
    06/01/2016 at 16:52

    Felizmente,o Karnal e o PG-
    admiro os dois-não foram
    no programa do Gentilli,que,
    aliás o patrão dele é judeu.
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    • 06/01/2016 at 16:57

      Pelo amor de Deus, não me bote no meio do bolo do Karnal, NÃO tenho nada a ver com ele, nadinha.

  3. Maximiliano Paim
    06/01/2016 at 15:44

    E o que Descartes faria com a sua existência a partir do pensamento?

    • 06/01/2016 at 15:48

      Essa pergunta não tem sentido. Talvez ela possa ter sentido assim: qual a ética do Descartes? (acho que é isso que você deve estar pensando). A ética de Descartes é chamada de “ética provisória”.

    • Maximiliano Paim
      06/01/2016 at 16:49

      Isso. Lembrei nele quando da vida nua do indivíduo que existe pelo reconhecimento da biopolítica – e de Foucault também. E me ocorre também que a punição é chamada no direito ainda de pena restritiva de direitos.

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Filósofo