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25/07/2017

A liberdade contemporânea do designer de sovacos


A liberdade dos antigos tinha uma característica especial, que só encontramos hoje em dia nos Estados Unidos, ainda que somente em slogan. Os antigos falavam em liberdade da polis, da cidade, do local. A liberdade era uma liberdade ético-geográfica. O que um grego queria como livre era o poder de viver segundo seu ethos, ou seja, o exercer de seus costumes. Os romanos aprenderam também isso. Ser livre era regozijar-se à condenação da liberdade dos costumes da cidade. Ficar privado de poder viver segundo seu ethos era realmente a pior falta de liberdade. Não à toa o desterro e o exílio eram penas tão cruéis quanto a morte.

O modernos mudaram isso radicalmente. Primeiro, deram um passo para fora da polis por meio do cristianismo. Ser livre tornou-se algo do ethos ageográfico. Ser livre era poder ser cristão, ou seja, pertencer a uma religião de caráter subjetivo. Cada poder delegado pelo Pai a um filho, poderia ser abocanhado por este ao sujeitar-se, ao servir, e então se tornar livre e poderoso na comunidade futura, fora da comunidade de César. Os burgueses aprenderam isso. Laicizaram tal prática. Sujeitaram-se ao burgo como uma filial do novo Deus, o mercado, e então ganharam poder na terra, a autodeterminação de agirem como funcionários do mercado. Passaram a agir como seres que contraem dívidas para transformá-las em investimento, projetos de riscos, empresas marítimas e, enfim, riqueza e mais poder. Ser livre se transformou em um conceito moral, não mais ético e nem mais geográfico. Ser livre moralmente, ou seja, capaz de exercer o mores, não o ethos, deixou a geografia para abraçar a história. Os costumes são mutáveis – assim anunciou a todos a antropologia do século XX. Ser livre passou a ser o poder ter seus costumes particulares, individuais, completamente exercidos. Nasceram então os “direitos do homem”, “direitos civis”, “direitos individuais” como a “liberdade de expressão” e a “liberdade de culto” e a “liberdade de ir e vir”, de casamento etc.

Deus libertou o homem da cidade e então o dinheiro, o novo Deus, libertou o homem de Deus, da terra, deu-lhe até o direito de voa de balão de se dizer livre da gravidade. Quando os americanos dizem hoje “este é um país livre” eles estão quase falando (como em Atenas antiga) que querem ter o direito de viver como americanos. Mas, mais que isso, querem viver como americanos que imaginam que ser livre é ter “direitos individuais”. Do uso da própria escova de dentes à capacidade de vender a sua força de trabalho até poder escolher parceiros sexuais e ser respeitado na sua livre expressão – eis a liberdade moderna.

Essa liberdade foi parodiada pela mídia contemporânea: o homem é prisioneiro da imagem da liberdade. Cada homem tem que pensar que é um pequeno Sartre falando que ser livre é assumir projetos, é se projetar no mundo.

Projetar-se no mundo – eis algo que deixou Sartre para trás para se fixar na prática do designer. Autoprojete-se!

Nos anos setenta a liberdade reivindicada pelos Sixties se transformou em apetrechos. A liberdade dos Sixties era ainda ético-moral, mas, uma vez estancada pelos que traíram Maio de 68, veio a liberdade do uso de objetos. Assim, a propaganda dos anos setenta anunciava nas TVs, em forma de jingle: “liberdade é usar uma calça jeans, velha e desbotada”. Era um ícone popular dos Sixties, “os jeans”, mas aqui no Brasil e outros lugares,  um artigo de luxo. No Leste Europeu, um artigo do mercado negro, e que não podia ser usado em público. Só as mulheres dos membros do partido comunista a tinham, para situações de convívio social intramuros, em grupos especiais, ou no exterior. Quase igual no Brasil. Com essa reificação geral, também o corpo virou objeto, e agora o principal. E eis que a liberdade do uso de objetos, que se transformou em liberdade tout court, passou a ser a liberdade do corpo. Mas em um sentido oposto à liberdade do corpo dita por Reich ou Marcuse. Vivemos hoje na situação especial: não se trata de tornar o corpo livre por libertar o indivíduo de amarras mentais, mas sim tornar o corpo possível de seu autodesign, e só assim se pode falar em liberdade em nosso mundo atual. Ser livre hoje, anuncia o site Catraca Livre (20/12/206), é poder não se depilar. Algo que vai além da liberdade conseguida pela uniformização de todos pelas tatuagens. Nenhuma liberdade ético-geográfica, nenhuma liberdade de direitos individuais de expressão de ideias, apenas a liberdade de dizer que a verdadeira liberdade é a de poder deixar in natura todos os sovacos femininos do mundo.

A liberdade é hoje a prática do design – como Boris Groys tem ensinado e como Peter Sloterdijk tem, a seu gosto, reeditado. O imperativo atual: seja designer e, então, seja alguém que pode dizer que é livre. Reconstrua a casa mas, antes de tudo, more num apê single com todos os eletrodomésticos possíveis, com a Internet grudada no seu cérebro e olhos. Mantenha-se como ponto de Wi Fi permanente e, então, mostre seu corpo sob os auspícios de si mesmo como designer. Si mesmo? Quase! De fato, apenas um aparato de captação de consultorias – do personal real aos Youtubers  e Facebookers da vida, conselheiros virtuais – que podem dizer: seu designer de livre é este: homens com calcinhas e mulheres com pelos nos sovacos, mas só neste verão. Na metade deste mesmo verão lhe daremos outro padrão original para trabalhos de designer. Aguarde. It is fun!

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 20/12/2016

Foto: A fotógrafa Nikki Silver, em parceria com a educadora sexual Tina Horn, decidiu fazer um livro de fotografias, intitulado “Unshaven

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3 Responses “A liberdade contemporânea do designer de sovacos”

  1. Ackyllis
    20/12/2016 at 23:36

    A liberdade estética sobre os corpos só é superficial ou menos importante aos olhos de quem é ignorante ou sínico.

  2. Leonardo
    20/12/2016 at 17:53

    Tem algum texto seu falando de propriedade privada?

    • 20/12/2016 at 20:32

      Leo! Com esse título não, mas com o assunto sim. Veja os textos sobre liberalismo, socialismo etc.

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