Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/11/2017

Leviatã, o filme russo de Deus


Você quer entrar leve no cinema e sair com toneladas nas costas? Não? Então não vá ver O Leviatã (Andrey Zvyagintsev, Rússia, 2014). Mas se você é corajoso o suficiente para saber quem é Deus, então se prepare para duas horas e vinte e um minutos de encontro direto com Ele.

A história básica é a de um proprietário de uma casa numa vila russa, ao lado de um lago, e que está na mira de uma autoridade corrupta do local. A autoridade quer construir ali um resort, unindo iniciativa privada e pública e, é claro, conseguindo com isso todo o dinheiro que esse tipo de obra proporciona sob um estado russo mais corrupto ainda que aquele do tempo da URSS. Kolia é o proprietário. Sua família morou ali desde 1929, quando o lugar era um porto próspero, e não um conjunto de ruínas como no caso presente. Ele é viúvo e vive com uma segunda mulher, a jovem Kylia, e com o filho Roma, fruto do primeiro casamento. Para enfrentar as autoridades locais e não entregar a casa por uma ninharia oferecida pelo estado, Kolia chama um amigo de juventude, agora advogado em Moscou.

Começa então o drama do enfrentamento e as peripécias internas da família e amigos, contando agora com a presença do advogado “bonitão” da cidade grande que, é claro, acaba por se envolver com Kylia.

filmes_9691_leviata7O advogado é um rapaz que imagina que com algumas gravuras comprometedoras e uns blefes pode intimidar uma autoridade do interior, o político chefe do local. Imagina que com isso conseguirá um bom dinheiro pela casa de Kolia, por meio de uma chantagem ao político local. As coisas parecem ir bem para ele, até que o político local resolve entrevistar-se com outro membro do poder local, um bispo da Igreja Russa, a Igreja Ortodoxa. O conselho do Bispo faz então todas as coisas caminharem no sentido da movimentação do Leviatã, o monstro marinho bíblico, que no filme é simbolizado pelas baleias do local (a aldeia Teriberka, na costa do Mar de Barents), vivas ou em esqueletos, e também pela presença de um estado burocrático, ineficiente, autoritário e corrupto que esmaga a todos pelo seu simples bafo.

O conselho do Bispo é fatal, segue mais ou menos esse raciocínio: “onde há poder há força, no meu domínio eu mantenho o meu poder, então a força se manifesta, faça o mesmo no seu domínio: mostre que detém o poder, e então a força, só assim poderá deixar seus inimigos sabendo de fato quem é que manda nos domínios que, afinal, ainda são seus”. Nessa hora, o chefe local, o político corrupto, recupera sua moral e põe em andamento a contra ofensiva na direção de Kolia e seu advogado. Nem é preciso muito, as coisas então começam a correr a favor do Leviatã, que aparece no livro de Jó bíblico. O esmagamento de Jó é o esmagamento dos personagens do filme que não pertencem ao poder, que no fundo não tem força. O verso bíblico pode se por então:

“Você consegue pescar com anzol
o Leviatã
ou prender sua língua com uma corda?

2 Consegue fazer passar um cordão
pelo seu nariz
ou atravessar seu queixo
com um gancho?

3 Você imagina que ele vai
implorar misericórdia
e dizer palavras amáveis?

4 Acha que ele vai fazer
acordo com você,
para que o tenha como escravo
pelo resto da vida? (…)

Não se pesca uma grande baleia e muito menos se faz acordo com ela. Ela se impõe comoleviata-filme-004 destino. Ela serve para fazer filmes que não são nem americanos nem europeus, só russos (!). Filmes de um realismo que nem mesmo a época de Napoleão ousou levar adiante nos quadros ou a época de Stalin ousou desenvolver nas artes em geral. O realismo do enredo de O Leviatã é até mais drástico que aquele pelo qual passou Jó. Deus não trabalha com merecimento. Deus trabalha com a aceitação. É isso que ensina o Bispo para todos, é isso que o filme mostra sobre Deus. Ninguém pode escapar do esmagamento se acordamos o Leviatã com alguma agulhada.

Em determinado momento do filme, quando Kolia está na pior e vai preso, minha mentalidade viciada em filmes americanos (ou até de Almodóvar) imagina uma sofisticação do enredo, de modo a ter alguma ficção,  então penso que o advogado que veio para defende-lo, e que teve de fugir, voltará para ajuda-lo. Mas não. Não volta ninguém e não ocorre nada que não seja “a vida real”. Na vida real, como a de Jó, não se faz acordo com o Leviatã.

Preste atenção nas cenas do início do filme e nas do final, que se aproximam, mudando apenas a estação, o tempo.

O Jesus da Igreja Ortodoxa é o Jesus da Iconografia, ou seja, o do desenho austero que não visa exibir arte, mas, não tendo expressão e teatralismos, visa fazer o fiel concentrar na oração, e não se deleitar em passagens da Via da Paixão, como o caso da vida imagética da Igreja do Ocidente. Nessa austeridade está um Jesus muito próximo do Deus do Velho Testamento. Nesse caso podemos dizer “tal pai tal filho”. Nessa igreja e nessa Rússia temos a experiência do Leviatã e só então conhecemos como Deus é, e não como Deus deveria ser.

 * * *

Note que essa minha leitura do filme, mais filosófica que política, é possível para alguém “de fora” e, é claro, para um filósofo. O senso comum vai pelo drama político, que efetivamente NÃO é o drama que faz do filme um filme diferente – e chega a se esquecer do destino de Kylia.

O eixo político é apenas um modo do enredo vir à tona.  No contexto russo, é claro, prevalece o senso comum, como aliás na nossa imprensa. O que ocorre então é que a população identifica o mal político, vê o filme sem cortes por versão pirata a NET, e tem de aguentar as autoridades, tanto do governo quanto do partido comunista, vociferando contra o diretor, ambos dizendo que ele, falando o que falou das autoridades, não poderia ser financiado (em 30%) pelo “dinheiro do contribuinte”. Veja aqui uma reportagem sobre o assunto: O GLOBO.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

Tags: , , , , ,

3 Responses “Leviatã, o filme russo de Deus”

  1. 30/01/2015 at 23:24

    Paulo, no início do filme e do final mostra as cenas bastante aproximadas. Seria a possibilidade de estarmos diante da indiferença e imprevisibilidade que nos cerca? Independente do que façamos ou traçamos como objetivos?

    Passei por algumas circunstâncias que devido a algumas “coincidências” demonstraram que pratiquei algo, mas não necessariamente foi como ocorreu, mas para os outros sim.

    Vi que Kolia negou no primeiro momento o homicídio da mulher, mas logo não contestou tanto ou nada depois do julgamento. Parece que ele simplesmente aceitou a consumação, pois seria impossível ir contra a força do leviatã.

    • 31/01/2015 at 00:50

      Enoque quando ele viu que o Leviatã havia se levantado, ele entendeu que Deus não faz as coisas por merecimento, que a vida é a vida, como Jó teve de entender isso.

  2. Thiago Leite
    30/01/2015 at 00:04

    Tu tens um bom scholar sobre rene descartes?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *