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24/04/2018

A leitura do corpo do outro no novo contrato sexual


[Artigo indicado para o público em geral]

Nossos filhos podem participar do novo contrato sexual? E nós?

A psicanalista Vera Iaconelli chama a atenção nossa, na Folha (23/01/2018) (em artigo emparelhado com os de Mariliz Pereira Jorge e Sabine Righetti sobre o mesmo assunto, o assédio sexual), para as possibilidades da educação sexual hoje. De fato, do modo que a leio, me veio à mente a pergunta se ainda educamos nossos filhos com expectativas dos anos cinquenta.

O novo contrato sexual (veja meu artigo na Folha, 16/01/2018), cuja minuta está na mesa, e que parece que vai ser assinado por todos, mas sem que – pela primeira vez – os homens possam dizer algo, exige nova “educação sexual”. Mas há uma nova educação sexual se fazendo?

Até os anos setenta e beirando os oitenta, a virgindade da mulher era algo de valor no mercado de trocas casamenteiras. Isso caiu. Caiu mesmo? Ou apenas a barreira foi transferida? Não são poucas as jovens que mentem, dizendo para o namorado “mais sério”, que tiveram apenas duas estadias horizontais antes dele. Realidade ou ficção, pouco importa. O que importa é que no âmbito da conversação, uma moça de 18 anos com mais de dois namorados no meio de suas pernas, antes do garanhão fatal, não é “boa coisa”, é “rodada demais”. E acreditem, não estou falando de habitantes de Palmas (da novela) não!

O que saiu de cena foi o hímen intacto, não a “virgindade”! E o tempo ganhou do espaço. Mas o tempo é implacável. Pouco tempo  preenchido por muitos parceiros ainda é um quesito que cai na cabeça do mulher como martelo moral.

A mulher precisa ainda colocar parâmetros de falsa pudica, na fala e propaganda. Por outro lado, o homem vive a situação, que já escrevi em outro lugar (Folha 16/01), de desconforto com um mundo que tende a criar simplesmente relações entre pessoas, e não mais entre “homem” e “mulher”. Num mundo assim, a ideia da existência de uma “psicologia da mulher” e uma “psicologia do homem”, da “fêmea” e do “macho”, perdem horizontes e parâmetros. Todos estão se adaptando ao turbilhão posto, de um lado, pela propaganda da Skol, que é de uma total falta de bom senso (uma caricatura do que deveria ser o politicamente correto) (1), e de outro pela incerteza sobre se até Dustin Hoffman é ou não é mais um gentleman. Estamos quase como no tempo da chamada “nobreza togada”, a época de burgueses tornado nobres por compra de título, e não mais por “sangue” e, por isso mesmo, completos fracassos ambulantes nos bailes da Corte.

Em uma época assim, tudo deve voltar aos moldes primitivos. É necessário repor as releituras corporais em dia. É como meu filho, de 24 anos e estudante de mestrado em filosofia na PUC-SP, tem me dito: “o desaprendizado de hoje é referente à má leitura do gesto, dos sinais corporais”. Mas eu complemento a tese dele, complexificando-a. O problema é também da escrita corporal. Sabe a mulher, ou seja lá quem faça o papel agora de “seduzido”, produzir corretamente sua linguagem corporal? Temo que a resposta seja negativa. Lemos mal o corpo do outro, atualmente, mas quem emite mensagens corporais também não sabe mais que gesto deve por em evidência.

O Ocidente desencantou o corpo com Descartes abrindo-o para dissecação e estudo anatômico, e de lá para cá temos peças corporais soltas, com diferentes usos. O Oriente manteve o corpo coberto, sagrado, e os olhos ainda mantem a preponderância como aparatos próprios de mobilização para recados sexuais e amorosos. Não estamos, de fato, no Oriente. E são eles, lá, que vão nos seguir mais cedo ou mais tarde. Sabemos disso. Eles também.

Ora, no nosso mundo contemporâneo ocidental, o desencantamento do corpo foi de tal tamanho que nem mesmo a dança, que é um aparato adrede preparado e, portanto, capaz de, na sua modificação individual, dizer ao parceiro para “ir adiante” ou “parar”, perdeu essa sua capacidade de ser a chave de aberturas de portas de relacionamento. Numa balada podemos encontrar jovens dançando de modo sensual, e tentar uma abordagem na direção de quem está dizendo “sim” com o corpo, e então recebermos um “não” – mesmo não tendo bafo, baixa escolaridade ou chatice inata. O problema é que o emissor dos sinais dançava de modo sensual sem se dar conta que poderia ser lido com “dançando de modo sensual”. Afinal, o que é o corpo “de modo sensual” se os movimentos todos perderam seus locais, seus espaços, suas possibilidades de dizer alguma coisa de modo especial?

Estamos escrevendo mal com o corpo, e lendo pior ainda. Há uma “analfabetismo funcional” corporal, fruto do fato de que está na mesa apenas a minuta do novo contrato sexual, não o contrato assinado.

Vivemos uma transição. Quanto tempo isso vai durar, não sabemos. E basta vermos como a tatuagem virou moda, e como que ela não tem significado algum nos corpos, nem mesmo um significado do tipo “eu gostei”. O corpo tatuado, hoje, não é o corpo tatuado do marinheiro. Ele espelha o indeterminado tanto quanto o gesto corporal. Ora, como ler frases sem significado?

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

(1) Ridículo da Skol: já imaginou você, para ser correto, no embolamento do Carnaval, ficar pedindo telefone?

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One Response “A leitura do corpo do outro no novo contrato sexual”

  1. Guilherme Picolo
    26/01/2018 at 09:51

    Numa distopia burocrática, a la Monty Python, imagina-se: as intenções sexuais devem ser comunicadas ao Ministério da Fornicação, em até 24 horas, mediante protocolo em 3 vias, azul, amarela e verde, esta última fica com o proponente.

    O sistema fornece um número e pode-se acompanhar online.

    A pessoa alvo recebe a proposta (tudo devidamente carimbado por um funcionário público com matrícula ativa), com as características físicas, sociais e foto do proponente e responde, também em três vias.

    Os papéis são enviados para o Ministério Público para que se manifeste sobre a conveniência e legalidade do ato.

    Próximo passo é a remessa da resposta ao proponente, que poderá ser objeto, caso negativa, de pedido de reconsideração em cinco dias, que será aferido pela pessoa alvo, o Ministério Público e dois membros de uma Comissão de Assuntos Sexuais previstos em lei nova (sendo uma delas mulher e outra psicólogo(a) credenciado).

    No caso de homologado o procedimento, a segunda etapa prevê a lista dos atos que o proponente tem intenção de fazer e novamente os papeis vão para o Ministério Público, para a pessoa alvo e para a Comissão Especial de Assuntos Sexuais.

    Caberá recurso, no caso de negativa, ao Superior Comitê da Fornicação, em caso de irresignação de ambas as partes.

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