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23/04/2017

Lacan básico


O que disse Jacques Lacan (1901-1981) para a filosofia? Aparentemente, só disse alguma coisa para a psicanálise. Aparentemente. Não apenas nas entrelinhas como nas linhas, disse muito para filosofia. Exatamente à medida que releu Freud de um modo a privilegiar uma noção especial da linguagem, com instrumentos do estruturalismo de Ferdinand Saussure.

Freud enfatizou que a psicanálise era uma espécie de cura pela linguagem. Ele viu em Schopenhauer e Nietzsche e também no movimento psicanalítico anterior a ele que teria de considerar algo como o inconsciente, e que poderia delineá-lo. Como? Postulando-o a partir de fenômenos como os “atos falhos”, “análise de sonhos” e observações de alguém solicitado, no divã, à livre-associação de palavras. Por sua vez, Lacan ousou dizer que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”. A partir disso, sentiu-se impelido então a aplicar alguns elementos de linguística ao estudo dos fenômenos mentais.

Lacan tomou como importante a distinção entre a situação em que estamos de posse da linguagem e a condição prelinguística. Considerou como importantes as chamadas “experiências pré-linguísticas”. Seria difícil observar crianças e não lhes dar a capacidade de ter experiências, ou seja, um determinado “acesso ao real”, por conta de suas relações vividas como dor ou prazer, em situações pré-linguísticas. Justamente tais experiências, segundo Lacan, seriam postas de lado quando da aquisição da linguagem. De modo que, nessa interpretação lacaniana, ao adquirir a linguagem a criança se aliena do real, ou seja, do real de suas primeiras experiências. Assim, uma necessidade orgânica passa a se manifestar para a criança como falta, carência, o que Freud havia chamado de “instinto” (Trieb). Nada seria senão uma falta primitiva. Essa necessidade orgânica é vivida como uma carência ou falta primitiva. Ao se manifestar transmutado em linguagem, esse impulso se mostra como “desejo”, e a experiência de carência ou falta é empurrada para o inconsciente. Nós humanos somos, então, motivados desesperadamente por um insaciável desejo subjacente, uma “carência ou falta de ser”. Todavia, exatamente por ser já desejo e, nisso, algo atado à linguagem, esse impulso não se mostra de maneira direta.

Lacan começa a utilizar insights vindos da linguística exatamente para falar do desejo. O que ele diz é que o desejo toma uma via “metonímica”. Do que se trata? A metonímia como figura de linguagem é bem conhecida de nós: trocamos o indivíduo pela espécie em “o homem foi à Lua” (alguns astronautas foram à Lua); colocamos o singular no lugar do plural em “a mulher conquistou o direito de voto” (as mulheres conquistaram o direito de voto); adotamos o continente no lugar do conteúdo em “bebemos todas as garrafas [de cerveja]” (bebemos toda a cerveja) etc. Por aí vai: cambiamos a causa pelo efeito, o produto pelo local, a marca pelo produto etc. Nos termos que Lacan apreende Saussure, elabora uma ampliação o que chama de metonímia. Trata-se do deslocamento do significado (ideia ou conceito) de um significante (som ou imagem) a outro significante, que é adjacente ao primeiro, ou em termos de ideia ou som. Por exemplo, alguém está triste pelo falecimento de seu gato, sente saudades, tem o desejo de revê-lo, e então quer dizer abertamente “Eu quero meu gato”, mas no âmbito do pensamento o que faz é, sem perceber porque inconscientemente, troca gato por mato, mato por tato, tato por tatu (tattoo) e então termina por dizer “eu quero uma tatuagem”. Vai-se de um sinal para o sinal adjacente (no caso, muda-se o som, o significante) sem que com isso se revele a falta encoberta, no caso, a falta do gato. É nesse sentido que Lacan diz que “o desejo é uma metonímia”.

No limite, em termos gerais e filosóficos, o desejo apresenta-se como uma demanda, mas a demanda não é por um específico e particular objeto, uma vez que nenhum objeto tem a propriedade de preencher o que foi um objeto perdido para todo o sempre. Perdemos o que nos deu a falta original e, então, geramos nosso desejar contínuo. A fantástica observação de Lacan, sobre isso, é que se traçamos o caminho da metonímia, na busca tateante pelo que seria o verdadeiro desejo solto na rede de deslizes dos significantes, acabamos por ver que o desejo não tem outro objeto senão ele mesmo. O desejo deseja o desejo. “O desejo é o desejo do outro”, disse Lacan. Quando se deseja o que se deseja é ser desejado pelo outro. Em última instância, a nossa demanda, toda ela, é uma demanda por amor.

Lacan se mantém na ideia da existência da repressão. Ela, a repressão, empurra elementos para o inconsciente, como é básico para Freud, mas Lacan não enfatiza que essa repressão seja sobre instintos biológicos uma vez que estes, nessa altura do processo, estão já traduzidos em palavras. Essas palavras estão na forma de significantes, e estes é que são lançados no inconsciente. De modo que o próprio inconsciente nada é senão uma cadeia de significantes. No plano do pensamento e da linguagem objetivas sobressai o significado, claro, e no plano do inconsciente, nublado por essa objetividade, está a criatividade do significante. Nossa ênfase na objetividade do significado é de tal ordem, diz Lacan, que não percebemos que o deslizamento de significante em significante. O pensamento e a linguagem inconsciente sabem desse deslizamento, mas isso é algo ignorado pelo pensamento e pela linguagem objetivas. Pois a linguagem consciente, é claro, utiliza de suas convenções, ou seja, seus sinais convencionais que se associam com significados fixos. Ora, o inconsciente não tem de prestar contas a qualquer interlocução pública e, livre dessas amarras, brinca com os significantes sem qualquer relação com o que seriam seus significados reais, formando signos, ou seja, uma linguagem, toda particular, muito própria. O inconsciente produz algo semelhante a significados, seus próprios. A poesia representa uma ponte entre consciente e inconsciente. Ela põe como que um meio entre o discurso consciente e o inconsciente. O poeta sobrevoa uma região celeste entre o público e o profundamente privado.

Lacan denota assim a loucura como poesia, algo já notado por outros pensadores, especialmente por Sócrates. A diferença entre o poeta e o psicótico, para Lacan, é que o primeiro joga com os elos entre significantes, criando uma linguagem própria, particular, enquanto que o segundo vive em um mundo poético puramente privado. Nesse segundo caso, assim está por conta de uma experiência por qual passou, por algo que sofreu, uma vivência que pode mostrar pistas se seguimos o caminho no inconsciente ao seguir a rede de significantes na qual sua vida mental está imersa.

Crianças e psicóticos, na conta de Lacan, vivem em um mundo imaginário. O sujeito vagueia em sua própria fantasia. Essa fantasia toda são representações das vivências anteriores à aquisição da linguagem. Esta, por sua vez, ao ficar na posse do indivíduo que em determinada idade a aprende, retira esse indivíduo do contato com o que era o seu real. Entrar na linguagem é se deixar levar por um alçapão que prende e joga cada um de nós para uma gaiola que nos tira do campo infantil ou louco da imaginação, da fantasia. Esse campo é campo simbólico. Ele põe a mente sob um caminho fixo, retirando-a do fluxo perdido da imaginação. O simbólico faz a mediação entre o eu e o eu, e entre o eu e as coisas. Sem o plano simbólico nossa vida humana não seria o que se chama vida humana. Caso não houvesse nossa entrada nesse plano, que é propriamente o plano da linguagem, não seria possível a “individualidade”, uma vez que ela tem necessidade de diferenciação, o que é feito simbolicamente.

O problema então, nas conclusões filosóficas de Lacan, é sobre sua avaliação, quanto ao tema do sujeito e, enfim, da alienação. Estar no plano simbólico e da linguagem é necessário para que nossa vida seja uma vida animal diferente da dos outros animais. O próprio sujeito é possível por isso. Mas, quando o sujeito ganha acesso ao simbólico e, então, entra para a linguagem como um sistema preestabelecido e estruturado com regras próprias, o eu passa, assim visto, a ser um efeito e nunca a causa. A estrutura da linguagem modela o sujeito. Dito de modo radical, o que ocorre é que a lógica das interações entre signos substitui a experiência vivida que, de certo modo, é a experiência real, na terminologia de Lacan. De modo que a vida individual ou o próprio indivíduo se torna um viajante com passagem comprada para determinados lugares, mas uma passagem que não foi ele quem comprou ou escolheu. A linguagem fala pelo sujeito.

Essa conclusão de que a linguagem fala pelo sujeito não é uma prerrogativa das conclusões filosóficas que se tira exclusivamente de Lacan. Outros filósofos, por vias diferentes, disseram algo parecido. Heidegger foi um deles. Talvez bem antes dele Heráclito tenha dito algo semelhante ao contar que ouvia a voz do Logos e que ele próprio, como homem, nada era senão aquele utilizado para que o logos pudesse dizer o que tinha de dizer. Mas, nesses termos, Heráclito não queria dizer que é a linguagem que fala, e não nós sujeitos, mas que ele e somente ele, como filósofo, era a boca pela qual racionalidade do mundo se expressava. Em Lacan há uma democratização desse filósofo heraclitiano: todos nós falamos e expressamos racionalidades uma vez que a linguagem institucionalizada, que contem sempre uma versão temporal da racionalidade de um povo e uma época, se faz presente na estrutura linguística no qual somos pegos, e na qual somos então moldados.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

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7 Responses “Lacan básico”

  1. Micaías de Souza
    13/03/2015 at 20:15

    Putz……muito bom este texto. Pois respondeu uma questão minha sobre a poesia. E também não esqueço o dia que o senhor disse que ouviu de Rorty: ” devia ter lido mais poesia”.
    Gostaria muito de ler um livro seu sobre psicanálise e subjetividade.
    OBRIGADO pelo texto.

  2. Robson de Moura
    06/03/2015 at 17:29

    Paulo, a frase “o desejo é o desejo do outro” me lembrou um verso de música “quando eu te vejo eu desejo o teu desejo”. Li não lembro onde que o compositor (Caetano) fazia uma citação a Hegel, sobre “desejar o desejo”. Existe isso, Paulo? Ou minha memória me traiu?

    • 06/03/2015 at 18:05

      É que, no caso aí, não é desejar o desejo, é desejar o desejo do outro – o Outro é a linguagem. Agora, sobre Hegel, não lembro.

  3. João Pedro
    03/03/2015 at 11:56

    Ótimo texto professor! Já tinha lido sobre Lacan na revista Cult e outras porém sem o didatismo e clareza do texto do senhor. Aliás, você indicaria qual revista para quem quer se aventurar nos problemas da filosofia?

    • 03/03/2015 at 15:09

      João Pedro, indico sempre os meus livros, pois só indico aquilo pelo qual me responsabilizo. Inicie-se na filosofia pelos dois volumes de A aventura da filosofia (Manole)

  4. 02/03/2015 at 16:15

    Se pode afirmar, ligando com a teoria lacaniana, então que, se para Sartre em O Ser e o Nada, sendo o sujeito o nada, o sujeito passa a existir com a linguagem se e somente nela? No limite e em metáfora, podemos ver o sujeito de Sartre como um homem invisível sobre o qual cai o lençol da linguagem e o revela? Ou são pontos distintos esses?

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