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15/08/2018

La Casa de Papel – por que o sucesso?


[Artigo para o público em geral]

A tomada de consciência da individualidade é o verdadeiro individualismo” – Peter Sloterdijk

Cruzei o parque Villa Lobos, aqui em São Paulo, escutando “Bela Ciao”. Era um grupo de jovens, todos negros, cantando. Sinal dos tempos. Época do êxito da série La Casa de Papel , onde a canção da Resistência tem espaçoPor que um tal sucesso? A própria canção diz tudo. Mas temos que entende-la no novo contexto, onde símbolos de rebeldia e afirmação individual estão na oscilação entre a nostalgia da política ideológica e a ausência de qualquer política, somente as políticas de consumo. Somente a narrativa do quero poder mais e sentir mais!

Estamos em uma fase de neoindividualismo, e o que resta de tarefa coletiva é um tipo de resposta de “resistência anárquica”. Mas não como política, e sim como algo da essência do anarquismo, esse primo rebelde do liberalismo, que é afirmação do indivíduo. Uma atuação do indivíduo num mundo que ultrapassa a ideia de que o “individualismo” é algo nocivo.

Esse tipo de individualismo, que se quer hoje e se apresenta no horizonte como nossa última utopia não-utópica, está estampado em La Casa de Papel. Há um plano de grupo para o assalto à Casa da Moeda da Espanha, mas tudo se faz somente a partir de indivíduos que afirmam características bem pessoais, segundo uma materialidade corporal específica e individual, quase que amostragem de uma singularidade. Decisões que implicam na resposta de cada um, individualmente, é o mote de cada capítulo da série.

O roubo coloca os ladrões dentro da Casa da Moeda durante vários dias. Eles vão roubar o dinheiro de Ninguém. Vão fabricar o dinheiro. Uma vez lá dentro, junto de reféns e tentando ganhar tempo para confeccionar o dinheiro, o grupo de ladrões consegue viver segundo o espírito do neoindividualismo: cada um aqui poderá, mesmo sob um plano rígido a ser executado, ser o mais idiossincrático possível, e por alguns momentos ao menos ser o centro de atenções não para outros, mas para si mesmo. Cada um irá experimentar ser cada um, inclusive corporalmente, enquanto que o mundo lá fora seguirá tentando fazer isso, isso que só esses ladrões estão fazendo. Nenhum do grupo de ladrões sai frustrado, ou se frusta dentro da Casa da Moeda. Todos se realizam em determinados momentos vivendo ao máximo o que se dispuseram ser e viver. É o reino de um hedonismo esquisito, mas que se faz real. Esse é o paraíso do neoindividualismo atual realizado.

Por que chegamos nisso que, enfim, se realiza ao menos no interior da Casa da Moeda espanhola, durante o assalto, no interior da série La Casa del Papel? A resposta implica em entender a nossa modernidade, ou seja, o contemporâneo. Um dos entendimentos de nossa vida contemporânea está no estudo do consumo, o outro, pelo estudo da experimentação e intensificação de si. Lipovetsky e Sloterdijk nos dão instrumentos intelectuais para compreendermos isso.

Lipovetsky insiste em dizer que não estamos mais na fase do consumo de massa ou do consumo em favor de status. Essas duas eras da “sociedade de consumo” já se foram, ao menos em termos de hegemonia. Estamos na era do consumo altamente individualizado, que é o consumo das experiências sensoriais básicas e do desejo de ter controle sobre si mesmo e sobre tudo o resta, ainda que seja por minutos – os minutos em que se usufrui de determinado produto, ou melhor, de determinada marca que diz que o produto irá proporcionar poder sensorial. Essa ‘vontade de poder’ efêmera, mas efetiva, é o que move o marketing de hoje, pois é o que move o consumo de hoje. Sai as diferenças classistas e de status, sai de cena a inveja social, entra em cena a “curtição de si” e o exercício do governo de si e das coisas. Essa mudança no consumo e nas características do individualismo são próprias de nossa época. Ou seja, entra a era do selfie. Coloco a foto para uma comunidade em rede social, mas são fotos minhas e do que faço, totalmente voltadas para que eu mesma veja, eu mesma curta. A comunidade sou eu. Há aí um hedonismo narcisista, na direção da leveza que se pode ter quando se está em poder de si mesmo.

O poder de si mesmo nada tem a ver com o autocontrole estoico que Sócrates quis ensinar a Alcibíades, no Alcibíades I, de Platão. O poder de si mesmo é, agora, o culto de quem consome determinados produtos cujas marcas dizem que esse desejo de ser feliz a quatro paredes, ou numa ilha ou casa de campo, vai se realizar. A vida single está na moda.

Ora, não é isso que vemos na Casa da Moeda, na série da Netflix? Cada um dos ladrões se veste com máscara de Salvador Dali e de confortável macacão vermelho, tendo nas mãos uma arma que pode submeter outros ou ao menos dar a sensação de deter um poder particular. Além disso, o celular de cada um, e que aciona o Professor (o chefe do bando) por meio de uma linha independente central, mostra a rede social ainda em funcionamento. O celular, que hoje é mercadoria-comunicação que mais ressalta a curtição individual de si mesmo, se potencializa como extensão de si mesmo e ampliação de poder. Leveza, experiência sensorial, afirmação de si perante si mesmo, empoderamento, idiossincrasia – tudo que o ideal de consumo da nossa era ensina, disponibiliza e diz que deve ser satisfeito. Tudo que as marcas atuais dizem que ganhamos se pegarmos alguns de seus produtos, ou, se pegarmos antes de tudo a própria marca. Esse tudo se faz presente no interior da Casa da Moeda na série La Casa del Papel. A luta então é ver quem são os elementos que estão fora do assalto ou fora da Casa da Moeda, quem são os que irão se integrar a esse mundo do hedonismo máximo e quais irão seguir as regras do “sistema” que não conhece ainda essa época.

A evolução da sociedade de consumo explica em grande parte o tipo de individualismo cultuado em La Casa de Papel, mas as coisas só entram no devido lugar se saltamos de Lipovetsky para Sloterdijk.

Byung Chul Han fala da nossa sociedade contemporânea como a de excesso do positivo, onde a exploração do empregado pelo patrão cede espaço para a exploração de si mesmo, no “neoliberalismo” atual em que o indivíduo se mede a cada segundo a sua própria performance anterior, em tudo que faz. Não é necessário descartar essa visão. Ela é parte do quadro da modernidade. Mas se deixamos Sloterdijk falar, aí sim percebemos como se dá o êxito de La Casa de Papel. Esse sucesso tem seu mote em três elementos centrais: nas máscaras dos ladrões, que são o rosto, em forma de estilização, de Salvador Dali; na necessidade de olhares no espelho dos vários participantes, que fazem disso uma boa parte do que se apresenta nos capítulos; e, por fim, na volta triunfal de assaltante Tóquio para o interior da Casa da Moeda.

Isso porque é Sloterdijk que diz que a individualidade moderna tem a ver com uma exacerbação da conservação de si, enquanto que a nossa modernidade, a contemporaneidade, implica na transformação disso, que é o surgimento do indivíduo que só se vê como indivíduo na sua condição de experimentador. O experimentador sensorial e sensitivo da propaganda da L’ Oreal, visto por Lipovetsky, se transforma no experimentador da própria condição de criação de si mesmo, na visão que Sloterdijk faz do homem contemporâneo. A alma que se analisa e se decompõe, se descobre um nada, e então se põe a ser um experimentador, alguém que para ter conteúdo é preciso ter forma. “Todo conteúdo é forma”. “Conservação de si mesmo mais experimentação sobre si é igual a intensificação de si mesmo” – essa é a equação que nos dá a individualidade atomizada atual, para Slotedijk. De modo que “quem se comportar sempre de maneira racional e autoprotetora priva-se-á de uma boa parte das coisas que há muito pertencem naturalmente aos nossos hábitos experimentais – esse culto da velocidade sem limites, essa tendência absoluta para a intensificação em todas as coisas”. E Sloterdijk nota que “o processo do mundo, no seu conjunto, tem muito mais pontos comuns com uma ‘party’ de suicidários de grande escala do que como uma co-organização de seres racionais que visem a autoconservação”. “O indivíduo típico das classes média é um experimentador”, diz ele.

Passamos, então, aos três elementos da individualidade e sua relação com a série.

Ursula Corberó, senhorita Tokio

Ursula Corberó, senhorita Tokio

O próprio Sloterdijk lembra que os primeiros experimentadores foram os surrealistas. Nessa hora, não podemos deixar de invocar Dali. Experimentador espanhol, expressionista por definição. Mas, sob a máscara de Dali, que faz todos iguais na Casa da Moeda, há o desmascarar contínuo, principalmente diante do espelho, num olhar que diz: que mais preciso experimentar para me afirmar vivo, para ser indivíduo e, portanto, o ser vivo atual? E por fim, o terceiro elemento: é quando Tóquio entra de volta na Casa da Moeda, de modo espetacular, e ainda por cima, por conta desse ato, proporciona a morte do único dos parceiros de assalto que lhe havia dito quem ele era: uma experimentadora, uma intensificadora inconsequente – o personagem Moscou diz isso. Nessa hora ela se sabe bem como indivíduo moderno. O público se reconhece nisso, como ideal de individualidade que quer para si, ou que tem para si nos nossos tempos. Rasgar o passado e ousar voltar para a cena do crime para continuar a experimentação e a intensificação. Indivíduo é, para Sloterdijk, no mundo atual, o “indivíduo-designer”. Todos os ladrões da série são indivíduos designers. Eles precisam configurar silhuetas de intensificação. Mesmo quando a série termina, os vemos ainda com roupas finais que não são roupas comuns, ainda continuam curtindo a experimentação e a intensificação, mesmo que agora, na rua, como comuns que não podem ser reconhecidos. Paradoxalmente: quanto mais incomuns, experimentais  e intensificados, mas indivíduos comuns somos.

La Casa de Papel expressa tão bem os tempos do individualismo que é o individualismo da intensidade e da experimentação, que cada um de nós se vê ali retratado. Seu êxito é nos dar em graus de narrativa de filme policial algo bem mais do que a simples violência de Pulp Fiction, este filme em que só a personagem de Uma Thurman preconizava a senhorita Tóquio.

Paulo Ghiraldelli Jr

Para aprofundar mais ver:

Lipovetsky, G. A felicidade paradoxal. São Paulo: Cia das Letras, 2006.

Ghiraldelli Jr., P. Dez lições sobre Sloterdijk. Petrópolis: Vozes, 2018.

Ghiraldelli Jr., P. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2017.

Sloterdijk, P. Ensaio sobre a intoxicação voluntária. Lisboa: Fenda, 1999.

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4 Responses “La Casa de Papel – por que o sucesso?”

  1. Eduardo Rocha
    20/06/2018 at 20:14

    “O indivíduo típico das classes médias ocidentais é um experimentador. Sente-se vazio e busca a experimentação contínua e a auto-intensificação, e o processo do mundo emerge de modo a ter mais partes em comuns com uma “party” de suicidários de grande escala do que com uma organização de seres racionais que visem a sua auto-conservação”.
    Não haveria uma relação entre o que você diz ou Sloterdijk com Assim Falou Zaratustra na qual Nietzsche fala do “último homem”? O desenvolvimento do mundo moderno enriqueceu o último homem no individualismo como um inventor da felicidade com seus desejos saciáveis ou insaciáveis. Mas mais que isso, o “último homem” é um homem sem retorno. É um homem que não passa por um processo de repetição do homem pelo homem. São indivíduos vivendo no individualismo onde o processo de geração deles são tão novos como últimos. Um não retorno (suicidas e descartáveis). O indivíduo individualizado até o limite quer uma vivência que se autorrecompensa. Ele leva a sua vida como consumidor final de si mesmo e suas chances. O princípio que se nota no último homem é aquele sem retorno como os produtos e mercadorias e matérias primas. Eles estão no fim, contemplando as últimas coisas e a si mesmos. Modelo do habitar contemporâneo no estilo single funciona como um meio para a representação e regeneração de identidade, assim como a moradia teve um papel fundamental nas cenas para as sensações. A habitação é um lugar do qual os indivíduos se autorrealizam e entregam-se a si mesmos para vocações pessoais. (Han com a visão de empresário e trabalhador de si mesmo – autoexploração). Autorrealização é uma expressão camuflada para autoconsumo.

  2. Maria J
    12/06/2018 at 02:59

    Saudades de seus posts no facebook!

  3. Tony Bocão
    11/06/2018 at 15:27

    Os nomes dos personagens já apontam uma individualidade. No ponto em que assumem serem tão diferentes quanto as características que marcam uma cidade, mas todos socialmente se completam como grupo onde podem ser sofisticados e exóticos como tóquio, jovem como Rio, subversiva e agressiva como Berlin, desapercebida como Denver, etc…

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