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20/01/2019

Karnal ensina errado o imperativo categórico


[Artigo para o público acadêmico]

Não sirvo para patrão. Nem para chefe. Por uma razão simples: não sei mandar e odeio corrigir. Dou o exemplo, ensino, mas mandar e ficar corrigindo não é meu forte. Quando estava na universidade, ensinava dez vezes o mesmo aluno. Mas quando tinha de corrigi-lo no sentido de dizer para ele que estava errado no que eu já havia ensinado dez vezes, eu me aborrecia. Não é difícil se aborrecer com o aluno burro que se pensa sabido – o sabichão da turma.

O que vou escrevo aqui e agora é uma tortura. Vou corrigir o Karnal, professor de história e palestrante de auto-ajuda. Afinal, auto-ajuda pode ser bobagem, mas não pode ser algo que ensine errado. Aí já é demais! Karnal não sabe o que é o imperativo categórico, mas quer falar sobre. Ele acha que pode falar de ética, de Kant, mas não pode. Ele não estudou, não tem formação para tal, embora se fosse um pouco inteligente perceberia que não sabe.

Ele disse que os animais se movem por imperativo categórico, por exemplo, a fome. Ele imagina que a palavra “categórico” seja algo de grande força. É de grande força, mas justamente por não se referir a nada empírico. Imperativo categórico é algo do âmbito da liberdade, exatamente o que o animal não tem. Vem como uma lei lógica pela qual os humanos, com consciência, podem optar. Optam sem qualquer motivo empírico para tal. Imperativo categórico: age segundo uma máxima que pode ser tomada como a máxima de todos (Kant). Por exemplo: não mentir. Se eu minto pelo bem de alguém, isso é algo que posso fazer, por motivos variados; mas não devo assim fazer para ser ético, e não por qualquer outra coisa senão pelo fato de que a máxima “mentir em favor da humanidade” não pode ser universalizada. Ela cria uma contradição; ela geraria a própria indistinção entre mentira e verdade e inviabilizaria a comunicação. Nenhum motivo empírico (fome, pena, dó, paixão, amizade, utilidade, esperteza, dinheiro) entra aí para me proibir de “mentir em favor da humanidade” (mentir para esconder meu amigo ladrão); o que entra para me proibir de “mentir em favor da humanidade” é simplesmente o fato de que não posso universalizar tal procedimento como uma máxima. Imperativo categórico, portanto, está fora do campo da sensibilidade, do empírico, do mundo causal, e se situa fora do “reino da necessidade” para hospedar-se no “reino da liberdade”.

Qualquer manual de filosofia do ensino médio ensina isso que Karnal não sabe. Ele não fez direito não só a faculdade, mas o ensino médio.

Por que Karnal erra? Por má formação mas, também, por se achar sabidão. Ele não leu Kant, não estudou. Qualquer garoto de colégio sabe o imperativo categórico. Mas Karnal se acha tão bom que ele leu a palavra “categórico” e imaginou que poderia falar dela. Não percebeu que filosofia é um assunto técnico. E eis que inventou que a fome no animal é um imperativo categórico. Ou seja, animais para ele não tem ética, ora, mas já que seguem um imperativo categórico, então, deveríamos alertá-lo, são os animais que têm ética! Acho que se eu disse isso a ele, nada adiantaria, não perceberia a ironia.

O mais triste disso tudo é saber que tipos como o Karnal, se lerem esse meu puxão de orelha, não vão parar de dar palestras e voltar a estudar. Não, vão continuar fazendo o serviço porco, pegando dinheiro de gente que não sabe que está aprendendo errado. É muito ruim que o Brasil esteja assim, muito mesmo. Antes, quem cometia esses erros eram os autodidatas, agora, é professor universitário! Putz! Como chegamos nisso?!

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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5 Responses “Karnal ensina errado o imperativo categórico”

  1. Jorge Eduardo de Souza
    27/12/2018 at 09:39

    Caro Professor,
    Muito bom o puxão de orelha, mas como disse é lamentável que além de “autoditadas” agora também “professores universitário” comentam esses erros. Continue nos alertando desses erros grotescos.
    Forte abraço…

  2. 18/11/2018 at 00:47

    Caro amigo Paulo, o seu esclarecimento está correctíssimo, independentemente da personagem que usa criticar com o devido direito. A indução ao erro, infelizmente entrou numa era em que o ensino “Universitário”, está a ser explorado inadvertidamente pelo consumo imagético mediático.

    Por outras palavras, todos querem ser figuras públicas nas plataformas (…), uma espécie de artigo contrafeito, imitação de marca registada, mesmo que para isso tenha-se que por em causa toda a literatura clássica, as bases que abriram o caminho da Universalidade virando mercadoria vulgarizada na Web a qualquer preço.

    Dessa forma o uso do termo (…), que é desconhecido para milhares, para quem não leu nem estudou Kant, é levado à letra pela ignorância, quando na realidade o seu criador procurou explorar o comportamento como uma fonte filosófica empírica (*).

    Segundo a explicação existente — Imperativo categórico — , como meio de amparo literário, e esclarecimento do termo simplificado, elucida-se (…), com bastante clareza acrescentando as três definições: Lei Universal, Fim em si mesmo e Legislador Universal.

    — “Imperativo categórico, no conceito universal retira da humanidade erros que afronta as linhas básicas evolutivas da natureza humana primária. Se tentar-mos encontrar atitudes dominadas pelo inconsciente abrangendo a irracionalidade, caimos na lógica gratuita da sobrevivência instintiva , sem avaliarmos o quanto os valores importam no jussivo pedido da educação.” — (…)

    —–//—–

    (*) – Empirismo na Ciência
    — Para a ciência, empírico é um tipo de evidência inicial para comprovar alguns métodos científicos, o primeiro passo é a observação, para então fazer uma pesquisa, que é o método científico. Nas ciências, muitas pesquisas são realizadas inicialmente através da observação e da experiência.

    (*) – Empirismo na Filosofia
    — Na filosofia, empirismo foi um tema muito debatido pelo filósofo inglês John Locke, no século XVII, onde ele diz que a mente humana é uma espécie de “quadro em branco”, onde gravamos diariamente o conhecimento, através das nossas sensações. Outros filósofos também estudaram o empirismo, como Aristóteles, Francis — Bacon, Thomas Hobbes, John Stuart Mill, e através desses estudos surgiram teorias como a teoria do conhecimento.

    (*) – Empírico Experimental
    — A Teoria Empírico-Experimental é também conhecida como a Teoria da Persuasão, e foi desenvolvida a partir dos anos 40 e causou o abandono da Teoria Hipodérmica. Essa teoria revê o processo de comunicação como uma forma mecânica e imediata entre o estímulo e a resposta. A teoria empírico-experimental varia entre a concepção que é possível conseguir efeitos importantes se a mensagem transmitida for devidamente estruturada e a noção clara de que muitas vezes não é possível alcançar os efeitos desejados. É possível persuadir os receptores da mensagem se esta se encaixar nos parâmetros utilizados por ele ao interpretar a mensagem.

    (*) – Empírico Indutivo
    — Francis Bacon, filósofo inglês do século 16 e 17, foi o fundador do método indutivo de investigação científica. De acordo com Bacon, o método empírico indutivo era o único que capacitaria o homem a subjugar a natureza. O método empírico indutivo concebe leis de acordo com a observação de fatos, segundo um determinado comportamento observado e a sua generalização. Segundo Francis Bacon, só a observação permite conhecer alguma coisa nova.

  3. Aristeu Chamberlain
    05/09/2018 at 13:26

    Meu comentário anterior ficou um tanto truncado, pois estava com pressa. Mas, pelo visto, a imbecilidade humana é algo atemporal, independentemente de quasquer outras avaliações.

  4. aristeu chamberlain
    04/09/2018 at 16:45

    Paulo, por acaso lá no distante século xixá havia, guardadas as óbvias circunstâncias de tempo e espaço, sujeitos como esse carnal, e também os inefáveis pondé e Olavo? isto, porque, no momento estou estutando, para uma tese de mestrado em história das ideias, todo o século 19, nos seus mais divesos aspectos, culturais, sociais, políticos,econômicos, etc e ainda não encontrei nada parecido, nem entre as classes menos priveligiadas, quanto mais entre a burguesia ou mesmo a aristocracia da época, notadamente na europa, eua e américa latina, incluindo o nosso brssil varonil. estaria certo Umberto eco segundo o qual a internet é verdadeiramente a “vila dos imbecis”?pois no século 19 não havia algo chamado internet, essa “caixa de pandora pós-moderna” e duas redes sociais e duas ambivalências, para o bem e para o mal.

    • 05/09/2018 at 08:22

      Tinha sim, como tinha. Os de agora ficamos sabendo, dado nosso grau de comunicabilidade.

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