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11/11/2019

Karl Marx


Diferente de outros filósofos, que serviram para alimentar escolas de pensamento, Karl Marx (1818-1883) extrapolou essa situação, tornando-se o nome por detrás da busca por um destino. Por isso, não é de se estranhar que o filósofo alemão contemporâneo Peter Sloterdijk coloque o comunismo marxista como um quarto tipo de monoteísmo, ao lado do cristianismo, do judaísmo e do islamismo, como o fez em A loucura de Deus.[1] Todavia, ao contrário dessas três grandes religiões, a religião sem Deus não funcionou e Marx, por sorte, após quase um século, voltou a ser apenas um espetacular filósofo.

Marx foi visto corretamente por Paul Ricouer (1913-2005) como um dos três “mestres da suspeita”, ao lado de Friedrich Nietzsche (1844-1990) e Sigmund Freud (1856-1939). Michael Foucault (1926-1984) trabalhou com essa noção de suspeita, falando dessas três iminentes figuras.[2] Todos eles teriam ensinado e praticado a técnica de suspeitar de linguagem e de ter posto assim essa tal suspeita como uma técnica nova de interpretação, a que implica em voltar a suspeita para si mesmo, gerando também a suspeita da suspeita. Ao voltar o espelho para si mesmo o homem culto contemporâneo mostra-se herdeiro do ensinamento desses filósofos que inauguraram um insuportável e angustiante jogo de espelhos – a vertigem de nosso narcisismo moderno.

Essa prática que Nietzsche explicitou em “não há texto, só interpretação”, foi usada por Freud e Marx. Neste último, tal prática se fez à medida que Marx não criou uma crítica da estrutura do capitalismo, mas uma crítica da economia política enquanto uma interpretação daqueles que haviam feito os textos básicos dessa ciência, falando do capitalismo. Ele denunciou a “robinsonada”, ou seja, a ideia dos filósofos-economistas de fugirem da história e da sociedade e descreverem os fenômenos econômicos como se fossem naturais. Assim fazendo, esses filósofos pareciam não perceber o quanto eles próprios, de certa forma, haviam criado o capitalismo por meio de uma descrição de um objeto aparentemente dado, com uma dinâmica regular que até poderia ser descrita como descrevemos a gravidade enquanto lei natural.

Ao colocar em O Capital o subtítulo de “crítica da economia política”, Marx havia adiantado, na prática, a regra de Nietzsche, não há texto só interpretação. Mas o tinha feito sob a inspiração iluminista, vinda de Immanuel Kant (revista por G. W. F. Hegel) na formulação das “Críticas”. Essas “Críticas” de Kant, o que eram? Isto: a discussão das condições e limites da razão, não a própria razão. Mutatis mutandis Marx fez exatamente isso: conversou sobre os limites da economia política e, portanto, teve de falar das condições pelas quais sob o capitalismo havia uma aparência de racionalidade, mas, efetivamente, uma situação de não razoabilidade, uma vez que sob tal organização do trabalho a riqueza aumentava demais para uns e diminuía demais para outros.

O segredo desvendado por Marx foi o de mostrar como que aparecia algo de mais valor no mundo econômico. Isto viria, segundo a sua interpretação, do fato dos trabalhadores produzirem um excedente de valor por conta de que o trabalho por si mesmo, quando no regime capitalista, gera a reposição da força de trabalho do trabalhador e ainda deixa de lado um valor que pode ser apropriado por quem emprega a força de trabalho. Max mostrou que o tal mais-valor não era o lucro do capitalista, mas algo que pertenceria legitimamente ao trabalhador, para lhe dar mais que o sustento, mas que lhe era retirado, deixando-o aproveitar apenas aquilo que o faria voltar vivo para a manhã seguinte do dia de trabalho.

Todavia, no meio dessa conclusão, ou melhor, para formular essa teoria, Marx precisou analisar novamente o que se chamava de mercadoria. Investigou não o produto, mas a mercadoria, ou seja, o produto no mercado. Viu que no mercado não se encontram vendedores e compradores enquanto pessoas, mas pessoas comandadas pelo que vendem e compram, as mercadorias. Estas então eram os verdadeiros sujeitos, deixando seus carregadores, os vendedores e compradores, como objetos. Por quê? Porque no mercado não entram produtos, somente mercadorias, ou seja, elementos que se igualam porque são objetos vistos pelo seu valor de troca, não pelo valor de uso.

A mercadoria tem valor que não mais diz do que ela é capaz quanto à sua utilidade de uso, mas diz de quanto ela vale no âmbito da troca. Ela vale um número X de dinheiro que é possível de ser trocado por um número X’ de dinheiro. Vacas e alfinetes são trocados não como vacas e alfinetes, mas por dinheiro de vaca e dinheiro de alfinete que, como dinheiro, não é nem de alfinete e nem de vaca. Essa equalização do mercado se transfere para tudo que é mercadorizável, e o mundo então se torna o reino do abstrato, o domínio do que não tem mais rosto particular, muito menos rosto humano. Por isso, Marx escreveu que no capitalismo vivemos em uma situação em que mesas podem dançar, ou seja, ter vida. Os objetos todo adquirem vida nessa situação. Mais tarde, Disney fez de Mickey o mago que colocaria todas essas forças em movimento ao tornar tudo que é morto criar vida. Ninguém como Mickey mostrou tão bem essa mágica, em Fantasy, que é quase que uma alegoria descarada de como que o capitalismo põe o mundo das coisas vivendo e fazendo o que seriam práticas de pessoas, e isso de um modo incontrolável por todos, inclusive por quem acha que domina o processo ao ter o capital, produzir e ir ao mercado.

Ao mostrar essa inversão entre o que é o morto e o que é vivo, entre o objeto e o sujeito, Marx deu mais um passo filosófico ao chamar a percepção disso tudo de ideologia. O modo de ver essa parafernália do capitalismo, para quem a toma segundo a visão dos filósofos-economistas que foram alvo da crítica de Marx, o que se passa é a percepção clara de que se está dominado pelas mercadorias, mas que isso é antes de tudo um estímulo para viver, e uma maneira emocionante de escapar da mesmidade da própria vida regrada pelo trabalho capitalista. Deixar-se comandar pela vontade da calça jeans que olha para você e não se deixa cortar, mas exige que você se corte para emagrecer e poder seguir seu desejo de vestir você, é saber-se dominado e, no entanto, acreditar que não há outro truque para escapar do tédio.

Quando lemos Marx hoje e a conversa dele nos leva para esse campo, então o marxismo dá sua contribuição mais autenticamente filosófica, num sentido mais tradicional do termo. No sentido da suspeita que se volta contra si mesma. Sei que estou sendo dominado, pois me olho no espelho fazendo vontades de um objeto morto, a calça. Voltei minha desconfiança para eu mesmo. Todavia, posso não saber o que fazer para mudar isso e, então, acreditar que ser crítico é perceber isso e ficar quieto. Marx não queria que se ficasse quieto. Só interpretar não basta, disse ele. No entanto, ao querer sair da interpretação e transformar isso, criou o quarto monoteísmo que só quando se perdeu de vez nos deu chances de retomar Marx.

[1] Sloterdijk, P. A loucura de Deus. Lisboa: Relógio D’Água, 2009.

[2] Foucault, M. Nietzsche, Freud & Marx. São Paulo: Princípio, 1987.

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12 Responses “Karl Marx”

  1. Aílton Nunes
    20/09/2014 at 12:39

    Viu a entrevista da Lucina Genro no Programa do D. Gentile? Rapaz… eu fico triste c/ esse mundo.

    • 20/09/2014 at 13:04

      Ué, esse mundo também tem Gentile… e Luciana! Talvez, em parte, eles se mereçam.

    • Aílton Nunes
      20/09/2014 at 13:22

      Mas o PSOL não é Stalinista, Castrista ou Maoísta. A nossa direita consegue ser mais burra e danosa. Efeito Olavão.

    • 20/09/2014 at 13:48

      Sim, mas o PSOL quando fala repete o pior da esquerda do passado. Quando atua no parlamento, aí não.

  2. 19/09/2014 at 00:06

    A filosofia de Marx comentada assim é mais séria do que falam alguns que se dizem marxistas, e Pondé ideologizado não vê ou finge que não vê.

    • 19/09/2014 at 11:20

      Pondé abriu mão se continuar se formando. Acha que ser jesuíta já é o bastante.

    • Juliano
      02/10/2014 at 21:22

      Boa, Paulo!

  3. Valmi Pessanha Pacheco
    18/09/2014 at 11:01

    Excelente Paulo
    Pena que alguns profetas desse “monoteísmo” tenham exagerado seu fundamentalismo e exterminado milhões que resistiram e não aceitaram o “centralismo democrático” e o “planejamento centralizado”.
    Atenciosamente
    Valmi.

    • 18/09/2014 at 11:48

      Águas passadas, Valmi. Isso não importa mais. Só político tonto ainda pensa nisso.

  4. Wagner
    16/09/2014 at 15:56

    É impressionante a má-fé de alguns críticos de Marx que temos que suportar por ai. Tenho a impressão de que a única coisa que querem é que as pessoas não entrem de forma alguma em contato com o instrumento crítico que tal filosofia proporciona.

  5. Ana Paula
    16/09/2014 at 15:36

    Paulo estava ansiosamente acompanhando as atualizações do seu blog e gostei muito do artigo, apesar de confessar a minha dificuldade de compreender certos pensamentos e citações, mas me permita uma pergunta, você acha que a Democracia e o Capitalismo pode conviver em harmonia?

    • 16/09/2014 at 22:17

      Ana Paula! Marx colocou os limites dessa convivência. Tocqueville também, por outro lado. Mas o que temos vista na América é uma convivência conflituosa, mas convivência.

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