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22/01/2019

KANT e a mudança


Descartes e Locke prepararam a noção de subjetividade moderna. Mas quem serviu o prato pronto foi Immanuel Kant (1724-1804). Ele criou a dualidade sujeito-objeto. Trouxe efetivamente a noção de indivíduo e pessoa, que ganhava contornos no âmbito da vida social e política já há quase dois séculos antes dele, para o campo propriamente filosófico, gerando o que conhecemos como “sujeito” ou “sujeito moderno”.

O sujeito moderno é visto como aquele que detém consciência reflexiva, consciência de identidade e forte disposição para a autonomia, podendo sempre tomar a iniciativa de ações práticas a partir de teorias.

Por isso Kant se transformou em um arauto filosófico do Iluminismo. Se o Romantismo veio para privilegiar a razão infinita, ou seja, a ordem que existiria para além do homem, o Iluminismo se fez enaltecendo a razão finita, ou seja, a ordem que vem de uma faculdade humana e que poderia controlar a desordem exterior. Nessa formulação a razão finita poderia ser aquele núcleo essencial à capacidade do homem de se por como sujeito.

Kant se colocou abertamente como porta voz do Iluminismo em um artigo de jornal, a respeito da discussão sobre a validade do casamento, se este seria legítimo se celebrado sem a Igreja, apenas nos cartórios. Na intervenção nesse debate, ele escreveu o célebre texto “Resposta à pergunta sobre ‘O que é o Iluminismo?’” (‘O que é o Esclarecimento?’).

Defendendo o poder da razão finita, para ele a única existente, Kant insistiu que os homensKant poderiam sair da “menoridade”, mas que o fariam se ousassem pensar “pela própria razão”. Não deveriam pensar pelas diretrizes de instituições (Igreja), tradições ou mesmo leis vigentes. Assim conseguiriam fazer se rompessem com a preguiça e a covardia. Desse modo, Kant pareceu ser um radical da Revolução Francesa, que ele acompanhou através de jornais. Aliás, diga-se de passagem, foi para comprar tais jornais que ele desviou-se do horário e do caminho de seu passeio matinal uma única vez em sua vida toda. Mas, mesmo campo argumentativo, Kant deixou claro que sua forma de compreensão do Iluminismo, e das aplicações deste à moderna doutrina do liberalismo, tinha o que eu posso chamar de mensuração alemã. Marx acertou muito ao dizer que os alemães haviam preferido fazer a revolução antes em pensamento que no âmbito político, diferentemente dos franceses.

A peça moderadora de Kant no seu artigo inicialmente revolucionário foi bem concatenada. Ele criou uma divisão no comportamento humano racional. O homem pode e deve usar de sua razão para criticar a vida e as instituições vigentes, mas faria isso diante de um público seleto, capaz de compreender a crítica sem ter de transformá-la em palavra de ordem para uma ação de destruição da vida e das instituições. Isso porque, no cotidiano, o homem também continua usando da sua razão para ver as necessidades do funcionamento das instituições, na quais ele está imerso necessariamente.

Kant não inaugurou a “hipocrisia burguesa”, como alguns quiseram fazer crer. Podemos dizer, um pouco além do que pensou (ou seja, além do despotismo iluminado no qual confiou e pelo qual se frustrou), que ele inaugurou a ação filosófica de mudança gradual de pensamento, talvez até de mentalidade. As alterações se fariam a partir de consensos cada vez mais amplos, que só são adquiridos à medida que certa literatura pode ir amadurecendo os que estão mais distantes do público seleto inicialmente escolhido para ouvir a crítica. Por isso mesmo, Kant veio a ser o iluminista preferido daqueles que sempre quiseram transformações por meio de educação. Muitos educadores profissionais, autenticamente liberais, puderam pedir ampliação de educação popular e pública usando de Kant, insistindo no caráter progressista do liberalismo vindo do pensador de Könisgberg.

Kant forneceu a chave para os liberais se manterem reformistas e não revolucionários. Os liberais conservadores nunca foram autenticamente kantianos. Aos poucos, os liberais conservadores foram deixando de lado qualquer apelo à educação pública geral de boa qualidade, procurando dividir e subdividir a educação em ramos profissionalizantes. Mantiveram a noção de sujeito, mas o apartaram da cidadania, vestindo-o de dupla maneira, uns puderam usar um terno estreito, outros passaram à moda do macacão fabril. A razão finita foi sendo desfiada em racionalidades burguesas atentas ao trabalho antes técnico que ao trabalho científico, e muito menos filosófico. Venceu no mundo moderno a caricatura de Kant, não sua filosofia.

 

7 Responses “KANT e a mudança”

  1. Israel Ozanam
    07/12/2014 at 20:55

    Professor,
    Desde que li esse seu texto pela primeira vez, as ideias contidas nele não me saíram mais da cabeça. Poderias sugerir-me alguma ou algumas leituras sobre a difusão da noção kantiana de sujeito e sobre essa posição de Kant acerca da “ação filosófica de mudança gradual de pensamento”?

    • 07/12/2014 at 21:13

      Israel quem trabalha com isso, que eu me lembre, é Hannah Arendt. Ela deu cursos de filosofia política baseados em Kant. Acho que a Relume Dumará traduziu no Brasil. Agora, o próprio texto citado de Kant é suficientemente claro.

  2. Ademar Braga
    02/09/2014 at 21:09

    Nesse mudo moderno somos fragmentados em relação a nossa identidade. como tomar a identidade como categoria de analises como objeto a uma análise?

    • 02/09/2014 at 23:25

      O fato de termos várias identidades é justamente o contrário de dizer que não temos nenhuma.

  3. Felipe Morais
    28/08/2014 at 11:46

    “Kant forneceu a chave para os liberais se manterem reformistas e não revolucionários.”

    Professor, gostei demais do texto. Uma dúvida: talvez, por influências e tendências, não consigo pensar ainda numa reforma sem ser revolucionária. Seria um exemplo disso a proposição de Kant em disseminar estes pensamentos para um grupo seleto?

    • 28/08/2014 at 18:31

      Felipe mas tudo que ocorre são reformas. As revoluções não acontecem todo dia e não são feitas sem reformas. Que tal pegar um bom manual de história e lê-lo com carinho?

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