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21/08/2017

Justino de Roma


No começo do cristianismo, alguns dos depois chamados “primeiros padres da Igreja” vieram para os Evangelhos após uma peregrinação por escolas filosóficas tipicamente helenistas. O trajeto de Justino de Roma, contado por ele mesmo, talvez seja um dos exemplos mais célebres e conhecidos a esse respeito. Não foi com pouco humor que ele nos legou essa história.

Justino viveu uns cento e cinquenta anos depois de Jesus. Em seu “Diálogo com Trifão” ele deixou registrado seu “caminho em busca de Deus”. Este caminho, para ele, era filosófico por sua própria natureza.

Falando de seu itinerário intelectual, ele deixou registrado que o iniciou tendo como mestre um filósofo estoico, e que passou um bom tempo com ele. Desistiu desses ensinamentos porque percebeu que este não o encaminharia para o conhecimento de Deus. Procurou então um peripatético, isto é, alguém da escola de Aristóteles. Então, permaneceu uns dias com esse novo mestre, mas logo notou que o homem queria dinheiro. Tomou-o então, por isso, como um não filósofo, e se afastou. Em seguida, buscou ingressar na escola de um pitagórico. Mas este cobrou dele um conjunto inaudito de pré-requisitos, como o estudo da música, da astronomia e da geometria. Ora, só depois de uma vida toda, como lhe foi dito, poderia começar a pensar sobre o belo e o bom em si mesmo. Tomando tal espera como ridícula, bandeou-se para o lado de um platônico. Este o ensinou a doutrina das ideias puras, e ele acreditou, ao menos por um tempo, estar no caminho correto. Mais cedo ou mais tarde, assim esperava, chegaria o momento que “contemplaria o próprio Deus”. Passado mais um tempo, avaliou que, enfim, só mesmo a sua “estupidez” poderia tê-lo feito acreditar nisso. Ao final, encontrou um homem solitário, e este sim, após submetê-lo a um exercício quase que socrático, de modo a leva-lo a perceber a sua ignorância, lhe indicou um “real novo caminho”. O homem disse para ele que o melhor seria “ouvir os profetas”.

Ora, “ouvir os profetas” poderia simplesmente não ser uma frase entendida por alguém exclusivamente educado na cultura clássica. Os gregos clássicos não tinham em sua cultura essa prática. Nunca os oráculos fizeram o papel de emissores de profecias, como de vez em quando lemos em textos didáticos que assim afirmam, mas que estão equivocados. Os oráculos propunham um enigma, algo que levava à reflexão. Os profetas, por sua vez, pertenciam a uma outra cultura, vinham do âmbito da vida judaico-cristã. O que anunciavam dizia respeito ao que os homens confiantes em suas palavras, os homens de fé, deveriam esperar. Os profetas falaram da vinda de Jesus. Este, então, cumpriu profecias e traçou o caminho para Deus, o caminho que era ele próprio.

Quando lemos o relato de Justino, não podemos deixar de notar algo estranho. Ouvir os profetas e, portanto, adentrar não somente em mais uma escola filosófica, mas enveredar por uma nova cultura ou, como é dito hoje em dia, começar a pensar por meio de um novo paradigma, não poderia ser algo completamente tranquilo para Justino. No entanto, o modo como ele expõe sua narrativa, nos faz ver a inexistência de qualquer estranheza. Justino sabia da diferença e da cisão, mas ele não exagerou ao pintar, no seu relato, o salto de um modo de pensar ao outro. De certo modo, ele quis deixar registrado uma prática que, após Diderot e a Enciclopédia, nunca mais se recuperou em autoridade. Nunca mais, após o século XVIII, conseguimos levar adiante o modo com o qual Justino viveu seu drama. O seu tempo parece ter permitido a alguém passar das filosofias reflexivas para uma doutrina de fé sem que isso significasse um trauma ou um entorpecimento. Justino mostrou que é exatamente isso que ele fez: uma passagem, não um salto alienante e alienado.

Ouvir os platônicos e aprender o procedimento da contemplação, Justino entendia bem, nada tinha com ouvir os profetas. No entanto, ouvir os profetas não era algo absurdo diante de ouvir os platônicos. Causava menos estranheza para ele a diferença entre aprender o que vinha do helenismo e aprender o que vinha do judaísmo cristão que essa mesma diferença nos causa hoje.

Tornamo-nos modernos, entre outras coisas, porque, diferentemente de Justino, pudemos descredenciar uma prática profética, sensível à fé, em função da adoção de uma prática reflexiva, montada na sela da razão. Mas, hoje, sendo inteligentes, deveríamos notar que a não hierarquização exagerada entre filosofia helenista e outras filosofias, como no trajeto quase linear de Justino, é um elemento central para desconfiarmos que fé e razão não só se opõem, mas também podem se complementar. Afinal, se tomamos o verbo crer em sua função comum, não exclusivamente religiosa, podemos muito bem notar que não refletimos sem acreditar e não acreditamos sem refletir.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

 

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5 Responses “Justino de Roma”

  1. Fábio Siqueira Lessa
    21/09/2014 at 09:51

    Grato pelo texto Paulo! Onde acho o relato de Justino a que você se refere?

    • 21/09/2014 at 10:13

      Fábio o Justino de Roma está publicado em português, pela Paulus ou coisa parecida.

  2. Valmi Pessanha Pacheco
    19/09/2014 at 10:23

    Brilhante PAULO
    “Razão e crença (a verdadeira), não se contrapõem, antes, complementam-se”.
    Parabéns.
    Valmi.

  3. Ana Paula
    17/09/2014 at 13:09

    Devo destacar: “não refletimos sem acreditar e não acreditamos sem refletir.”

    Parabéns pelo artigo!

  4. Luis Felipe Nunes Borduam
    17/09/2014 at 11:17

    Como é difícil nos dias atuais encontrar um filósofo que consiga perceber essa riqueza da filosofia judaico cristã e a relação da fé e razão. Parabéns!

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