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20/11/2017

Jumentos para China? Não mesmo!


Após as várias piadas na Internet sobre o quanto coxinhas, tucanetes, petistas, políticos em geral e outras pragas do tipo poderiam ter carne exportada para a China, no lugar dos jumentos, tenho de confessar que estou cada vez menos propenso a rir. Sinceramente, a tristeza da notícia me pegou.

A injustiça contra os mais fracos tende mesmo a nos pegar. Frutos de uma cultura liberal assentada numa religião do perdão, temos essa tendência de nos doer pelos mais fracos. Esse dado histórico não enfraquece nem um pouco minha convicção de que estamos corretos a pensarmos assim. Podemos até sermos injustos, muitas vezes, por conta de nossa imediata adesão às causas dos mais fracos. Mas, no geral, não perdemos se essa nossa postura vinga.

Dentre os mais fracos, claro que cães (*), gatos, jumentos, vacas, cabritos, galinhas, ou seja, os animais mais próximos do homem, são exatamente os que me causam mais comoção. São os animais mais expostos à traição do homem. São os animais que são atraídos pelo homem para o convívio, um suposto carinho e, depois, o abate. Não pedimos para os pernilongos virem. Não estamos próximos de ursos polares. Mas há os animais ditos “domesticados”, e são exatamente estes o que ganham a formação de cemitérios enormes de testemunhas de uma das características mais perversas da natureza: a que mostra que o homem é o único animal verdadeiramente traiçoeiro. Ele, o homem, conta com o desconhecimento dos outros animais sobre o quanto ele é perverso, e usa da ingenuidade animal para matá-los à traição, ou para abandoná-los e fazê-los sofrer.

Achar normal que possamos colocar na mesa, todos os dias, cadáveres de parceiros que contavam conosco à medida que os trouxemos para perto e demos esperanças de carinho, é talvez o que vejo de mais desprezível e pecaminoso no homem. Não há lugar no cosmos para o homem se esconder dessa vergonha que deveria sentir.

Não vou aqui levantar teorias. “Ah, a Bíblia já dizia …”. “Ah, o capitalismo!”. “Ah, a natureza humana!”. Não! Teorizar em cima do sangue às vezes não é uma boa. Nos deixa com ânsia de vômito no espelho. Quero apenas constatar, mais uma vez, que tenho orgulho de me indispor contra aqueles que fizeram de tudo para barrar a “Revolta do Beagles” – lembram? Um colunista da Folha de S. Paulo que usa o título de filósofo, um jornalista da Veja, os vários empresários do sofrimento que sempre falam que a ciência que faz o animal sofrer é nossa única saída de progresso – sim, contra esses é necessário lutar. Essa gente não vale nada. Pode ser piegas ter a consciência ecológica que hoje temos. Pode ser piegas ficar do lado dos mais fracos entre os mais fracos. Não tenho um pingo de vergonha disso, tenho orgulho.

Não consigo realmente não andar me arrastando diante dos olhos dos jumentos que devem ir para a China. Não dá para não chorar.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

* No caso dos cães há o componente quase que biológico de simbiose conosco. Eles nos fazem, pelo olhar, produzir hormônios ligados à maternidade, e são os únicos animais que tem esse poder.

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3 Responses “Jumentos para China? Não mesmo!”

  1. LENI SENA
    21/11/2015 at 22:09

    Sei que é difícil se indispor ao que tá pra lá de banalizado, mas só de lembrar que não faz muito tempo demos tratamento igual aos negros me faz ter esperança que as coisas mudem. É doloroso viver em meio a tanto sangue, ser minoria da minoria e até ser atacado por, simplesmente, pensar e agir diferente. É só o começo, temos que persistir!

  2. Maximiliano Paim
    21/11/2015 at 15:22

    Hoje conversei com uns conhecidos sobre o aborto e tive o desprazer de saber que um que é favor do aborto porque o indesejado não é considerado por ele uma vida. Também me deu ânsia neste momento. Triste. Quem tenta argumentar com a filosofia tem que habituar-se a estas situações.

    • Maximiliano Paim
      21/11/2015 at 15:23

      Mas não acomodar-se.

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