Go to ...

on YouTubeRSS Feed

21/06/2018

Joel Pinheiro e a saga dos meninos liberais


[Artigo indicado para o público em geral]

Há um problema com os liberais jovens brasileiros. Eles não entendem o conflito. Ou pior, eles não suportam viver em conflito. E mais ainda, eles se acham acima de ideologias, uma vez que o liberalismo, como doutrina e ideologia hegemônica no Ocidente, se passa como o pensamento de bom senso, o que todo mundo pensa espontaneamente, o mais razoável de se dizer. Para o liberal, ideologia é só o pensamento do outro, o dele é o pensamento racional, aquele pensamento que diz que o clímax de nossas vidas é passear no supermercado de sapatenis Lacoste.

Tudo isso é conhecido da sociologia e da filosofia social. Marx denunciou essas facetas do liberalismo. Durkheim e Weber complementaram a denúncia e nos ajudaram a vê-lo como a doutrina do bom menino. Lembrei-me dessas denúncias dos clássicos ao liberalismo lendo o artigo de Joel Pinheiro em blog Folha de São Paulo (A polarização é um subproduto de nosso instinto tribal, 17/04/2018). Trata-se de um artigo de um jovem e, no bom estilo do que restou dos Yuppies dos anos noventa, para ele tudo tem que ser feito com moderação.  Beba com moderação, conflitue com moderação. Está subentendido aí também: faça sexo com moderação, pois sexo é saudável? Talvez. O liberalismo encontrou nos Yuppies e sua herança tudo aquilo que é o anti-dionisíaco par excellence, tudo aquilo que é anti-Sixties por deliberação dos Céus. Conflitos até podem existir, diz Pinheiro, mas que seja em pequenas doses, bem controladas. A geração Yuppie sempre se encantou com o supositório homeopático.

Dentro desse quadro de horror ao que se excede, o liberal jovem do referido artigo lança mão de sua esquisita antropologia. Trata-se de um peça ideológica que lembra algo contado para ninar: somos “animais individualistas”, mas também – ele não pode negar  – somos gregários e, então, nessa hora, na política, surge “a polarização”, e esta nada mais e que “um subproduto de nosso instinto tribal”. O liberalismo adolescente é pobre em antropologia, mas, nesse caso aí, sua pobreza chega a beirar o infantil. Dessa tese fraca, Pinheiro tira outras ideias ainda mais fracas. A pior delas é achar que ficamos polarizados, cegos, e que isso é aproveitado maquiavelicamente por líderes para chegar ao poder. Meu Deus, como somos bobinhos! Ele conclui, claro, que nossa sociedade está polarizada, e que vai mal por conta disso. Fico imaginando, então, que o liberalismo de Pinheiro é antes o de Putim na Rússia que o dos americanos. Os Estados Unidos são uma grande democracia exatamente pela polarização. Vieram da Guerra Civil para desembocar numa sociedade dividida entre Obama e Trump, e continuam um lugar para onde todos no mundo querem migrar. O mundo vai para um lugar com conflito. Pinheiro vai no sentido contrário; vai para a paz do paraíso do liberalismo russo, onde Putim todo ano é eleito sem polarização. Recomendo para ele o filme O Leviatã, que deixou Putim muito puto, com o perdão do trocadilho.

A ideia de que nossos conflitos e posições arraigadas são um malefício não é compartilhada por nenhuma doutrina filosófica séria. Nem mesmo pelo liberalismo em seus primórdios. Foi invocando o direito natural contra o direito divino que os liberais se fizeram radicais, pessoas a favor do conflito, em todas as chamadas revoluções burguesas: Revolução Gloriosa, Revolução Francesa e Independência Americana. Acreditar que homens em conflito, com ideias em oposição e até em guerra é alguma coisa que faz as pessoas menos inteligentes têm suas bases na doutrina da paz dos cemitérios. Ali, nos cemitérios, ninguém é burro, nem inteligente.

Os Yuppies são voltados para sucesso em carreiras de sociedades de paz de cemitério. Eles são meninos de negócios. Por isso mesmo, não suportam nenhuma sociedade em que a competição liberal vingue de fato. No fundo, o liberalismo, que prega a competição, a organização de partidos a partir de posições econômicas e que, portanto, admite e até desenvolve o conflito nada gentil, não é suportado pelos jovens liberais, especialmente no Brasil. Há aí uma postura do que nós, dos anos 50 e 60, chamávamos de “jeito de mariquinha”. A sociedade brasileira está povoada de maricas que passam o dia arrepiados com o “ódio disseminado na Internet”!

Longe de mim dizer que Pinheiro é maricas. O que afirmo é que o resto de yuppismo que ronda nossas reclamações atuais são sobras de gente que não vê que nossos conflitos, nossos duelos, nossas radicalizações e cegueiras são de fato o que nos impulsiona para posições de superação, para geração de coisas melhores. O que chamávamos de “maricas”, na minha infância, era o garoto que não queria competir. Era o menino não radical. Um certo dia ele apareceu falando pela boca do General Castelo Branco, que se dizia liberal: devem existir só dois partidos, e o de oposição deve fazer oposição em favor do regime, e não contestação. Criou-se a ARENA e o MDB. Jesus! Quanta paz! Quanto amor!

© 17/04/2018 Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Tags: , , ,

8 Responses “Joel Pinheiro e a saga dos meninos liberais”

  1. Luciano
    19/04/2018 at 09:49

    Não só os jovens, mas os liberais velhos também acham que são seres mais inteligentes, por “não fazerem parte da polarização”. Nunca me enganaram.

  2. Eduardo
    19/04/2018 at 01:00

    Paulo pq todos esses novos liberais estilo mamãe peidei possuem um jeito meio maricas de falar? Já reparou?

  3. Thiago
    18/04/2018 at 06:53

    Exatamente

  4. Thiago
    17/04/2018 at 22:28

    Não advogo pra ele, mas, devo dizer que ambos perderam a leitura. De longe não é o melhor texto dele, mas ele fala justa(posta)mente sobre uma pasmaceira de bondade ilusória que se achava viver pós-guerra Fria. Não o vi defendendo o Trump, nem Putin. Para fracos leitores, talvez, sim. A imprecisão é mais (re)corrente do que uma boa fundamentação sobre um determinado tema naquele espacito da Folha, assim como a opção de redação para o público. Deves bem saber sobre essa barreira, haja visto o volume de analfabetos funcionais que vem criticar teus textos, sem sequer compreendê-los.

    • 17/04/2018 at 23:50

      Thiago, o texto dele é exatamente de um cara que eu descrevi. Jovem, liberalzinho, mamãe-peidei.

  5. LMC
    17/04/2018 at 11:17

    E o Pondé,ontem,na Folha
    criticou Obama e elogiou
    Trump e Putin.Bzzzzzzzzz…..

    • 17/04/2018 at 11:18

      Faz parte do ideário dele. Felizmente, não leio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *