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17/12/2017

João Pereira Coutinho quer ser uma galinha. Por quê?


O articulista lusitano da Folha (23/05/2017) saiu de seu costumeiro conservadorismo para aderir ao tão criticado “construtivismo social”, visto pela direita de ser tipicamente “esquerdista”. O seu lema é: se alguém que não é negro por pigmentação da pele quer se negro, acha-se negro, tem identidade social de negro, temos de tolerá-lo como estamos fazendo com quem nasce com pênis e não quer considerá-lo positivamente como elemento da sua identidade, que o levaria a se colocar como “macho”. O argumento dele fica melhor ainda, ao menos para mim, quando ele alinha o especismo à intolerância que ele vê contra os transgêneros e, agora, transraciais.

Para ilustrar de modo jornalístico a sua posição, Coutinho lembra da piada de Woody Allen, que já tem quatro décadas. Um homem vai ao médico e diz que o irmão pensa que é uma galinha. O médico aconselha internamento para o irmão. O homem responde: “Eu até internava, doutor, mas preciso dos ovos.” Coutinho acha que já é findo o tempo de rir de uma tal piada. Galinhas que não biquem outras e outros, galináceos ou não, e que não usufruam de seu galo sexualmente em público, podem ser galinhas, mesmo que se pareçam humanos.

A posição é do jornalista, que diz se basear, ao menos em citações, em filosofia. Mas a filosofia, ela mesma, não deve ficar na palavra do jornalista. O filósofo faz mais, ele investiga as razões pelas quais, talvez sem o saber, Coutinho diz o que diz. A filosofia, sabemos, busca entender um autor melhor do que ele próprio se entende. Digamos então assim: por que Coutinho pode querer ser uma galinha? Ou então: por que Coutinho aderiu (tanto faz ser sinceramente ou não) às teses que parecem destoar do seu conservadorismo político, como por exemplo o construcionismo?

Creio que a divisão entre períodos morais, feitas pelo filósofo francês Gilles Lipovetsky (que vem ao Brasil este ano), ajuda a entender o mundo que tragou Coutinho. Resumindo ao máximo, a tese de Lipovetsky é a que diz que tivemos três grandes períodos morais. Um do dever, por ordem da religião, onde fomos servidores dos dizeres de Deus. Um segundo período, também do dever, onde fomos servidores de nossa consciência, o que é bem exemplificado pela moral de Kant. Um terceiro, bem diferente, onde não somos servidores, mas requisitadores. Este último período diz respeito ao tempo que estamos vivemos, baseado numa moral dos direitos, em especial uma moral emotivista e hiperindividualista. Atualmente, discussões ético-morais falam em tolerância para com desejos individuais, que eu diria que valem até, ou até mais, para idiossioncrasias. Ou seja, o processo de psicologização da moral, iniciado com o cristianismo e aperfeiçoado por Kant, entrou para uma radicalização, sendo que agora o que é moral é poder ser feliz a partir de “prazeres privados”. Nessa fase, a moral se sensualiza, sendo que o psíquico é, agora, o psicofísico. Tudo depende de satisfação dos cinco sentidos, meio que espiritualizados. Vale então ser magro ou malhado, vale curtir perfumes e cremes, vale ter um sofá novo, vale fazer sexo bem, vale então, inclusive, mudar de sexo e, agora, ser capaz também de trocar de corpo ou de nome para a condição do corpo. É possível então ser negro se negro não for cor e é possível ser galinha se galinha não for ter penas. Chegamos finalmente à definição do homem de Platão: “um bípede sem penas de unhas chatas” (as unhas chatas são para diferenciar das “verdadeiras” galinhas, para se safar da crítica de Diógenes). A desoneração da identidade ou eliminação da pessoalidade, como nos mostra o filósofo italiano Giorgio Agamben, que mostra a identidade indo para o corpo e deste para elementos meramente abstratos, como o número, ajuda uma tal possibilidade da época em que podemos optar por identidades. A um número, tanto faz estar associado a um humano galinha ou a uma galinha humana.

Coutinho não está se bandeando para a esquerda ou para o construcionismo, simplesmente. Está se mantendo liberal, e até com um tom não conservador. Mas não pelas razões que diz, e sim pelas que desconhece. Está sucumbindo à ideologia da tolerância, da diversidade, que não é uma doutrina filosófica somente, mas também e talvez principalmente um modo de pensar forjado pela mercadorização em sua época de fordismo, ou seja, do consumo de massa. É nessa nossa época que as mercadorias se diversificaram, de modo que todos podemos consumir, e chegaram inclusive a não ser produtos, mas apenas marcas, de modo que possamos consumir algo ainda mais abstrato, que é o símbolo. Respiramos isso e, então, louvamos o diversificado. Não louvamos o autêntico, mas o diverso, o diferente, que nem é necessário ser o “outro”, como diz o filósofo germano coreano Byung-Chul Han. O regime liberal ou neoliberal de nossa época nos torna amantes da tolerância ao diverso em termos de figura humana porque a figura humana é uma mercadoria entre as outras. Aprendemos a ser tolerantes não por valor do humanismo, mas pelo modo como o valor das mercadorias, agora, se valoriza ou se revaloriza: ele vai para o mercado e ganha valor de troca, mas também no mercado ganha valor subjetivo que é, pelo marketing, associado ao novo, ao sempre novo, e ao cultivo do prazer privado de si mesmo, o “curtir-se”. Direitos máximos e tolerância máxima, inclusive para o que até pouco tempo poderia ser idiossincrasia maluca (ser uma galinha), é que cada mercadoria diversa exige do consumidor, e então o mercado educa para sermos esses maravilhosos seres liberal-democratas do momento.

Se você é feliz sendo uma galinha, por que não devo aceitá-lo, se já aprendi a aceitar comprar uma bijouteria chique e não mais a peça em ouro? Há as próprias diferenciações de marcas e linhas de bijouteria. Podemos falar, então, até em “fake autêntico”. Ou seja, há algo como o status seletivo, o que implica no “fake autêntico”. Mas nem isso é a questão atual, quanto ao consumo. O que vale é o prazer individual, solitário, de gozo. Por exemplo, há a “Bolsa Réplica Louis Vuitton”. A marca agora não é Louis Vuitton, mas também a “Bolsa Réplica Louis Vuitton”, pois o consumo já nem é pelo status, ou o que levava alguém a produzir inveja ao outro, mas sim, pela satisfação hiperindividualizada de poder usar a bolsa, de olhar no espelho e se parecer com um modelo que se quer parecer. Cresce aí um certo narcisismo, um certo “curtir-se” que se encerra em si mesmo, sem alteridade, um certo consumo associado ao consumo de si mesmo. Há uma diversidade não pela presença do outro, mas por um cultivo de uma sociedade sem negativos, sem o verdadeiramente Outro.

Ora, se é assim, por que não aceitar um indivíduo como negro sem ser negro se aprendemos todos, pelo consumo, a aceitar que posso passar nas minhas pernas um creme da Natura, super chique, mas que é mais barato que outro creme da Natura, de outra “linha”. Os produtos, mantendo a marca, dividem-se em “linhas” ou “estações” ou, de modo mais corriqueiro, o que vale diante da expressão “a moda agora é X”. A faixa de utilidade é uma mentira, a verdade é a faixa de potencial de consumo que se diversificou dentro do fordismo e do consumo de massas, e isso tem a ver com o sistema hiperindividualizado, hedonístico, sensualístico, acoplado ao marketing de apologia ao “curtir-se”. O mais pobre deve poder comprar o seu produto, que será tão charmoso quanto aquele comprado da mesma marca, mas de “linha” diferente. E isso porque o charme atual não é algo de se exibir ao outro, que desaparece, mas a si mesmo, no espelho do Narciso. Esse foi o segredo do hiperconsumo, que se deu pela mudança da produção tradicional em produção fordista, associada ao fomento da demanda criada pela indústria do marketing nascida desse amor pelo diverso em função primeiro do status, e depois, mais atualmente, em função do bem estar individual, tomado agora, moralmente, como felicidade. Dentro desse último quadro forja-se uma época moral do direito de ter direitos.

Tudo isso pode desenhar essa sociedade pedida pelos professores que, agora, não falam mais em educar os alunos para a crítica, mas para a tolerância, para a diversidade. Ser tolerante é ser, fundamentalmente, ser a favor do capitalismo na sua versão do consumismo (que não se acople aqui nenhum juízo de valor a uma tal frase!). E que tenhamos claro: o comunismo não vai voltar, ele foi só uma fase do movimento mais amplo do consumismo, para falar junto com o filósofo alemão Peter Sloterdijk. Afinal, só agora percebemos que o capitalismo está dando seus passo iniciais, não os finais.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 23/05/2017

Post scriptum. Há quem possa dizer: pouco me importa razões filosóficas, o que vale é que quero viver numa sociedade democrática e liberal que cultive a diversidade e a tolerância. Para estes, eu respondo: sim, pode ser que a importância que dou para razões filosóficas seja algo de professor de filosofia, sem qualquer outra importância, e que o que valha na vida seja a política; mas pode ser, também, que nem sempre causas e efeitos não se contaminem umas pelas outras, então, saber se a tolerância atual vem antes do consumo que forja uma moral do que da simples adoção de uma moral universal válida por si mesma, talvez não seja uma tolice. Nós filósofos estamos, há mais de 2.500 anos, nessa história de buscar razões e de fornecer razões. Somos uns maníacos da busca de razões.

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14 Responses “João Pereira Coutinho quer ser uma galinha. Por quê?”

  1. Augusto P. Bandeira
    29/05/2017 at 20:32

    A pergunta que fica é: existe a Verdade?
    Ou ainda: existirá alguma verdade nesse admirável mundo novo?
    Algo cujo conceito se ligue realmente àquilo que está sendo definido? Porque parece inviável um panorama segundo o qual os conceitos são continuamente desconstruídos (para usar um termo da moda) em favor de suas exceções e em seguida não existirão sequer conceitos para guardar correspondência com aquilo que nos é perceptível.
    Não se pode ignorar também as consequências político-sociais que a dissolução completa da linguagem e da identidade trará e quais grupos se beneficiarão disso.
    A batalha pelo poder continuará a existir se houver dois ou mais seres humanos na Terra.
    A quem interessa a existência de uma legião de quimeras incapazes mesmo de se comunicar (já que findos os conceitos, acabou-se a linguagem)?
    Em suma: se um ser humano puder ser então o boneco Ken, uma sereia ou uma galinha o que então será um ser humano, um boneco Ken, uma sereia ou uma galinha?

  2. LMC
    25/05/2017 at 10:48

    Pior que o tonto do Coutinho,é o
    JN da Globo prestar solidariedade
    ao Reinaldinho Azevedo.É que
    tanto ele como a Globo são PSDB.
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  3. Orquidéia
    25/05/2017 at 08:38

    Por hoje,estou precisando replicar seus textos,para fixar o entendimento deles.

    Juntando o que eu lembro com sua crônica, o caminho foi esse:
    o dever de servir a Deus e depois a si mesmo levou ao desenvolvimento do humanismo.
    O humanismo facilitou o capitalismo e a sociedade de consumo.
    A sociedade consumista então continuou o aprofundamento da tolerância, isso em função da diversificação cada vez maior do próprio consumo.
    Aqui,o dinheiro fez o milagre de produzir uma sociedade que passa a integrar todas as diferenças.
    Tal contingência é bastante espiritual,mas tem sido feita à revelia.
    Não há mais santos indicando o futuro.
    [que engraçado…rsrs…]

    Astrologicamente,o “peixe oriental” [espírito) prepara-se para reencontrar o “peixe ocidental” [matéria ou materialismo],nesse longo éon que começa a findar.

  4. Gabi
    24/05/2017 at 05:59

    Se nós trans, somos doentes como muitos dizem, o que uma sociedade faz com seus doentes? Tenta os integrar ou os mantém marginalizados? Não basta patologizar, é preciso manter marginalizado. O sadismo é real, se somos doentes sofreremos não só pela nossa “patologia” de ousar frustrar expectativas sócias, sofreremos tb porque, somos doentes que não devem ser tratados, sim marginalizados e violentados ao gosto do sadismo cotidiano.

  5. Gabi
    24/05/2017 at 05:13

    Galinha não é identidade humana, cavalo, boi, peixe também não. Homem e mulher sim. É engraçado ver gente tentando desmerecer a causa trans com comparações que não são coerentes de modo biológico nem psicossocial, comparando humanos a animais. O debate que nós trans fazemos sobre gênero é cultural, não biológico. Ninguém troca de sexo, isso não existe. O que nós questionamos é a forma com que o sexo é interpretado de modo normativo. O que importa não é se Maria pode se transformar em João de modo biológico, feito mágica, o que importa é que Maria foi designada de modo a estar automaticamente comprometida com tudo que se espera socialmente de seu sexo, e que se frustradas tais expectativas, Maria é punida na forma da discriminação. Se existe uma produção ideológica normativa sobre como os sexos devem se comportar e os desviantes são punidos na forma da discriminação. Sim, existe gênero, e não, nem sempre ele esta de acordo com uma conjuntura genética específica. A não compreensão disso torna pessoa trans eternamente marginalizadas. Nós nunca afirmamos que sexo não existe, ou que é possível se transformar no sexo oposto simplesmente porque se “sente.” Homem e mulher são signos linguísticos que designam não apenas um sexo mas uma forma de existir no mundo que, se frustrada gera discriminação. Nós discutimos a cultura, o simbólico e a norma, não o sexo em si. Os ignorantes entendem que nós estamos afirmando que sexo não existe, ou que é possível se transformar feito mágica. Ideologia de gênero realmente existe, ela é judaico cristã e quando frustrada sabemos o que acontece.

    • 24/05/2017 at 12:31

      GAbi, infelizmente você não entendeu nada, nadinha mesmo. Os cachorros estão se integrando, estão se tornando nossos parentes. Isso aconteceu com mulheres, crianças, negros etc. Foram integrados ao “humano”. O Trans também irá virar humano. É uma questão ampliação do chamado “nós”. Consegue entender agora?

  6. Silvia
    23/05/2017 at 15:00

    Fugindo um pouco do tema, eu gostaria de saber a opinião do senhor sobre essa tese para mestrado em educação, que é a sua área, e se ela está correta:
    https://www.universoracionalista.org/o-desprestigio-da-academia-brasileira/

  7. josé fernando da silva
    23/05/2017 at 14:33

    Paulo, ao ler seu texto lembrei-me de O Banquete, de Mário Andrade, especificamente o capítulo em que os convidados, após comerem Vatapá (com seu cheiro e gosto de terra e raízes), são confrontados com uma salada deslumbrante que continha todos os matizes de verde possível, que cativava pela insólita combinação de cores, mas que não tinha nem cheiro nem sabor definíveis, mas que ninguém tinha coragem de denunciar o hiato que ela representava.
    A amplitude de nossa realidade enseja um progresso que é muito menos do que efetivamente aparenta.

  8. Luiz
    23/05/2017 at 12:33

    Se essa onde maldita de transgenia não for contida, amanhã teremos milhares de seres humanos querendo ser animais, aliás isso já está acontecendo, já vi alguns homens que querem ser cavalos e aceitam ser montados para participar de corridas.

    Além disso tem também um cara de mais de 40 que se sente uma garota de 6 anos e foi adotado por uma família que trata ele com uma garotinha.

    O próximo passo será uma criança que se sente como adulto e por isso um outro adulto terá permissão legal para fazer sexo com essa criança. e ninguém pode falar nada, com isso temos a legalização da pedofilia

    Isso tem que parar já!!!, parem de fazer apologia a transgenia , parem de fazer média com essa doença maldita !!!

    • 23/05/2017 at 13:07

      Luiz, você não vai precisar querer mudar sua natureza. Sua mãe percebeu que a gestação dela, esperando você, durou 11 meses. No seu caso, tá tudo feito já.

    • Gabi
      24/05/2017 at 06:00

      Se nós trans, somos doentes como muitos dizem, o que uma sociedade faz com seus doentes? Tenta os integrar ou os mantém marginalizados? Não basta patologizar, é preciso manter marginalizado. O sadismo é real, se somos doentes sofreremos não só pela nossa “patologia” de ousar frustrar expectativas sócias, sofreremos tb porque, somos doentes que não devem ser tratados, sim marginalizados e violentados ao gosto do sadismo cotidiano.

    • 24/05/2017 at 12:29

      Gabi o trans é o futuro. Todos nós seremos trans-para-algum-lugar. E esse lugar será nosso próprio corpo em mutação. Seremos ciborgs.

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