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20/09/2017

Jesus e o xingamento filosófico


Jesus não dizia “fucky you”. Também não dizia “filho da puta”. Esse tipo de xingamento, não sei se faria sentido em sua época. Meu amigo Deonísio da Silva, escritor, deve saber. O que sei é o que todo mundo sabe, que Jesus não se poupava de dizer “hipócritas”. Era sim uma acusação forte. Uma afronta.

Hipócrita vem do grego hypokrinein ou hypokrisía, que significava inicialmente “fazer uma separação” ou “representar um papel”. Em certo sentido: fingir. Atores tinham a ver com esse nome, o de exercer o fingimento próprio para a peça. O que o ator fazia no palco era uma hypokhrinesthai, ou seja, uma “hipocrisia”. Ora, não custou muito para que o fingimento social fosse chamado de hipocrisia, e para filósofos, sempre preocupados com a diferença entre o real e o aparente, então, isso foi um prato cheio. Não à toa Platão não deu aval para certos tipos de artistas na sua cidade justa. O medo de ter os copistas, os homens que podiam enganar, não lhe parecia algo virtuoso e afinado com a filosofia e própria para uma cidade. De certo modo, esse espírito filosófico esteve presente no ambiente de Jesus, pois também este, com seus discípulos, estavam no meio helênico, filosófico, onde escolas de pensamento e escolas religiosas diferenciavam-se quase nada. Jesus ajustou logo, ao seu vocabulário, a palavra “hipócrita” como algo negativo.

Hipócrita é aquele que fala de um modo e age de outro, mostra-se de uma maneira e tem a sua vida conduzida de outra maneira. Jesus considerava a oração pública, feita para se mostrar, como um ato sórdido, um tipo de condução teatral maligna, ou seja, uma hipocrisia. Por isso insistia na oração a quatro paredes, sem se deixar ver. Em vários momentos em que teve de conter ajuizamentos e condenações dos homens sobre outros homens, usou da palavra “hipócrita”. O “atire a primeira pedra” veio com esse sentido, o de denunciar a desautorização moral dos que tinham como hábito a hipocrisia.

A cultura de Jesus não era nada helênica. Mas a Bíblia grega nos trouxe “hipócrita”, algo já helenizado. E não creio que tenha distorcido Jesus em sua língua original, e isso sem levarmos em conta as questões sobre existência ou não do Jesus histórico (isso tanto faz). A questão que levanto é que o ambiente de construção no Novo Testamento é um ambiente helenizado, e muitos que aderiram ao cristianismo nesse tempo não estavam procurando uma escola religiosa, e sim filosófica. É conhecida a história de Justino de Roma, um dos autores do campo da Patrística, em seu diálogo com o judeu Trifão. Neste, Justino narra sua caminhada da filosofia à filosofia. Ou seja, fala de como passou por diversas escolas filosóficas até chegar ao porto seguro cristão. Foi dos estoicos aos peripatéticos, conversou com platônicos, foi discípulo de pitagóricos. Nenhuma dessas filosofias, ao menos em um sentido bem geral, ausentou-se da ideia da “aparência versus realidade”. Um clima assim, claro, não poderia deixar de contribuir para que a noção de hipocrisia viesse a se assentar como o que não se devia querer como regra para os homens.

Com o tempo, o problema da hipocrisia foi para um lado, e os filósofos para outro. Os filósofos vieram a falar da distinção entre prática (ação moral) e teoria (ação do conhecimento), algo já um pouco diferente da distinção entre aparência e real, propriamente uma questão só do conhecimento. Os cristãos, por sua vez, seguiram o rumo original, o de evitar o palco como regra, apontar a hipocrisia como um mal, um vício. Nestes, a divisão se fez sentir no âmbito da própria prática, ou seja, se a vida moral se fazia moral ou simplesmente uma destruição da moral.

Em termos filosóficos e sociológicos, hoje, chamar alguém de hipócrita não significa nada. A sociologia soube trazer a hipocrisia para o interior da própria constituição da sociedade. Viver segundo uma máscara social foi e é um problema filosófico, mas completamente secundário. Pois não se pode imaginar algo diferente disso na vida social, na vida em grupo. Nietzsche soube bem falar disso. Chegou até mesmo a considerar a verdade como a mentira consentida, de modo a fazer a vida comunitária algo possível. Mas, do lado cristão, a ideia de hipocrisia nunca foi absorvida.

Nunca se deixou de contar, nas missas e reuniões católicas, o quanto Jesus havia denunciado a desgraça de se viver de duplo modo. Às vezes essa questão volta à cena no campo não religioso, acima até do campo moral, e deságua no seu lugar apropriado: a política. Na política a hipocrisia se refestela e, se exercida por quem tem poder, ganha o nome de demagogia. Nisso, o século XX foi o mais anti-cristão da história. Nunca se viu tantos demagogos. Aliás, alguns historiadores resolveram chamar a primeira metade do século de “a época dos grandes demagogos”. Demorou para que o termo ganhasse mesmo um sentido negativo, como uma suprassumo da hipocrisia.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 08/11/2016

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2 Responses “Jesus e o xingamento filosófico”

  1. Thiago Carvalho
    08/11/2016 at 12:26

    Temos então Nietzsche contra Jesus? Pois me parece ser o termo “hipócrita” relativo a um modo de vida relativo a verdade. Mostrar, as claras, a verdade, em Jesus seria uma hipocrisia, mas em Nietzsche é dissociado a relação entre aparente e realidade, ou aparência e realidade; portanto, dissociado a questão da hipocrisia, pois até a verdade qualquer constituti-se em uma forma de máscara — mentira e irrealidade…

    • 08/11/2016 at 12:31

      Não Thiago, claro que não. Nietzsche não é para ser lido sem formação em filosofia. Mas no texto dá para entender o que ele diz.

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