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22/10/2017

Jesus e eu


Sobre a tese de doutorado de Hannah Arendt

“Com Jesus não se brinca”. Aprendi isso quando criança, da forma ingênua que todo menino de catecismo católico entende. Mais tarde, aprendi que com Jesus também se brinca, uma vez que ele pediu que deixassem as crianças virem até ele. Ora, conversa séria, de adulto, é algo que eu não acredito que ele tenha tentado com as crianças. Parece que Jesus tinha lá “jeito com criança”. Foi assim que Jesus entrou na minha vida, como uma pessoa mais ou menos parecida com os meus pais. Respeitava-os, mas sabia que tinham fair play. Tratei Jesus assim e parece que ele assim aceitou que fosse.

Uma boa parte da minha geração fez do mesmo modo que eu. O nosso catolicismo não era endurecido, ignorante quanto às mudanças do mundo, nem era uma religião da punição e do “tudo é pecado”. Vários de nós cresceram assim nos anos cinquenta e entramos nos anos sessenta ainda crianças, quase que sem entender a revolta da geração mais velha, os “jovens dos sixties”, pessoas que tinham ou de participar de grupos religiosos de esquerda ou então execrar a religião.

Claro que depois fiquei jovem e já no colégio comecei a ler Marx, Nietzsche e Freud – bem lidos. Pude ver o cristianismo, então, com outros olhos. Mas, a benevolência com que olhei Jesus foi muito maior do que outros com trajetos semelhantes. Por isso me entusiasmei com a tese de doutorado de Hannah Arendt, que é sobre o amor em Santo Agostinho. A filósofa judia faz uma homenagem a Agostinho. O cristianismo, para ela, é visto como uma forma de introduzir um mecanismo de reconstrução histórica, de esperança.

Por quê?

O cristianismo implica no perdão, coisa mais difícil para os heróis do Velho Testamento. Perdoar é poder quebrar com a continuidade das querelas de família e grupos de famílias. Ou seja, devemos perdoar nossos inimigos. Pronto! Só uma religião que exige isso dos fiéis conhece o que é a sociedade e a vida não nômade. Para sair do nomadismo e construir uma sociedade é necessário que possamos deixar o passado e estabelecer um não-vínculo com ele. Sem essa regra, ou seja, sem a regra do amor que fala para colocarmos uma pedra sobre divergências do passado, não há como criar o que conhecemos por sociedade.

Essa ideia de começar de novo, de ter esperanças, como o que é fruto do perdão, é uma utopia. Pois nenhum de nós é verdadeiramente cristão a ponto de perdoar o inimigo. Mas uma coisa é não conseguir por não ter isso no horizonte, outra coisa é não conseguir e, no entanto, ter sempre de tentar, já que o ideal não sai do horizonte.

A arte do cristão é ser inteligente. O cristão burro, sem fair play, sem capacidade de passar por cima de desavenças mínimas, o cristão rancoroso e, enfim, o cristão que adora julgar e não lembra do “não julgueis para não ser julgado”, não é de fato cristão. É uma pessoa de espírito manco. É aquele tipinho que usa de Jesus, ganha ibope e marketing com Jesus, mas não sabe de nada que possa ter a ver com Jesus. Disso, o mundo está cheio. Muitos desses não poderiam mesmo ser cristãos, pois desde crianças aprenderam com seus pais que Jesus era comprável, era uma propriedade deles, para o seu uso e abuso. Essa gente está por aí. Dia e noite eles rezam. E são capazes até de colocar a foto da mãe de Jesus em cartazes, para derrubar governos que queiram ajudar os pobres. Passam o ano vociferando preconceitos contra tudo e todos, e ao fim do ano, por volta do Natal e também no início do ano, invocam Jesus para, com isso, começar mais um tempo de hipocrisia extrema, sacanagem e carinha de santinho.

“Eu compro uma vaga no Céu, se existir o Céu”, pensam elas. Mas elas não acreditam em Céu nenhum, porque o Céu pode ser democrático, e isso as apavora. Não conseguirão conviver com putas, travestis, pobres, negros, índios, ciganos, macumbeiros, gays, defensores dos animais, idealistas, utopistas e … filósofos. Exigirão de Jesus que mande ao menos os filósofos embora, pois não suportarão pensar que alguém quererá conversar para aperfeiçoar as regras de convivência social impostas ali. Um filósofo como Agostinho, por exemplo, não apenas exigiriam o seu desterro e processariam Jesus caso este não fizesse nada contra o filho de Santa Mônica.

Paulo Ghiraldelli, filósofo.

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17 Responses “Jesus e eu”

  1. andré lisboa
    24/04/2014 at 13:17

    Uns anos atrás, eu lembro de ter sido xingado por você e por um grupo de seus amigos no facebook, porque havia respondido com uma questão teológica uma crítica social sua à Igreja. Uma bobagem. Acho que você me chamou de burro, falou da minha e outras palavras duras que acabaram por me deixar estupefato, sem saber se seu perfil havia sido invadido ou qualquer outra coisa houvesse acontecido ao dono de textos claros e inteligentes que lera nesse site. Guardava uma certa admiração pela clareza do pensamento em seus textos que lia por aqui quase sempre. Obviamente eu fiquei muito zangado com o que foi escrito, fiquei puto, mas tudo bem. Desfiz a amizade virtual e deixei quieto. Bem, esse texto que acabo de ler me deixou mais aliviado – porque eu acho que tenho vislumbrado o horizonte citado e tentado caminhar para ele, e apesar de inalcançável, deixo uma saudação, um alô. Falou.

    • 24/04/2014 at 15:53

      André, eu deveria economizar o adjetivo burro. Mas é força da idade, de época. Sou do tempo que a gente chamava o burro de burro e ninguém se achava não burro. Inclusive a gente falava, “putz, eu sou burro”, ou “como pude ser tão burro?”. Todo mundo sabia que podia ser burro. Mas, depois da minha geração, os brasileiros foram decretados gênios em todas as circunstâncias. Faz-se burrada, mas ninguém é burro. Todo mundo tem seu valor mesmo que faça uma burrada. Ou seja, burro foi proibido, pois foi tomado como uma naturalização da estupidez. Isso aconteceu com muita coisa, por conta da “suavização da linguagem”, obrigatoriamente imposta não pelo que chamam de politicamente correto, mas por algo anterior, que é realmente uma suavização que tem a ver com a expansão do mercado. Talvez eu lhe deva desculpas, mas acho mais correto dar uma explicação. Desculpas, hoje em dia, ninguém acha que são sinceras – aliás, mais uma mudança semântica, como essa do burro.

  2. Carla Fulchignoni
    17/01/2014 at 20:39

    A essência da religião cristã é o que considero fundamental e na maioria das vezes não é bem absorvido, incluindo (e muitas vezes) no caso dos ortodoxos – assim como em todas as outras religiões. E na verdade, para mim, esta essência cristã está em todas as religiões – aquela que prega a bondade, solidariedade, benevolência, o perdão, como muito bem escrito, etc.
    Não estudo, na área acadêmica, filosofia. Mas vários temas e filósofos me interessam muito. Explorando com maior atenção pensamentos e doutrinas filosóficas, e, consequentemente, expandindo meus horizontes de interpretação e entendimento, comecei a argumentar comigo mesma várias questões da vida cotidiana, inclusive a religião. Para que serve a religião, afinal? Quer dizer, se não podemos provar, porque ela é tão importante, porque tem um peso tão grande sobre todos, sobretudo sobre os mais fiéis? E por que são fiéis, o que preenche de tão necessário em suas vidas?
    Na maioria das vezes me deparo com um sentido final, como um significado maior, que é o que todos buscam. Quando se tem consciência que ele (deveria) existir. Mas que sentido é este?
    Acho que o ponto onde quero chegar é que os valores que a religião pode pregar podem justificar sua existência, ou mais além disso, ou não, hahaha, na verdade estou completamente perdida neste momento.
    Adorei o texto! E gosto muito do blog.

    Sdds,
    Carla

  3. 15/01/2014 at 11:45

    Pois é, Paulo, os “cristãos” precisam reencontrar Jesus de Nazaré, chamado de “Cristo” pela Igreja primitiva. Mas os “doutores da lei” andam longe do povo…Que “Santa Maria Madalena” (prostituta?) e “Santo bom ladrão” intercedam por nós!

  4. Mario Luis
    02/01/2014 at 15:05

    Em algumas traduções do Novo Testamento, do grego para o latim, encontramos termos os quais sofreram dis-torções ao longo dos séculos, assim como o termo “arrependimento”, citado dezenas de vezes naquele livro. O termo, que em grego é metanoia, não traduz seu significado em “culpa”, mas sim em conceber, de maneira distinta, uma nova visão do mundo e da existência.
    A metanoia também ocorre na Filosofia, e ela se dá quando, uma vez impulsionados pelo “thauma”, aperfeiçoamo-nos num gênero de conhecimento cujo escopo não é tornar-se sábio, pois quando se o afirma deixa-se de sê-lo, mas sim, amigo da sabedoria.

    • 02/01/2014 at 17:14

      Mário Luis, esse negócio de “distorção” ajuda hermeneutas, mas não deve ser levado a sério a ponto de pensarmos “qual a verdade escondida?” Não há nada senão um conto, o conto do povo judeu que, com Paulo, quis se universalizar como uma moral que seria possível para todos.

    • Flávio Santos
      03/01/2014 at 14:10

      Caro Mario Luis,

      compreendo a sua inconformidade com o sentido de “culpa” que o termo “arrependimento” implica. No Dicionário do Grego do Novo Testamento, de Carlo Rusconi, temos a significação seguinte para o termo metanóia:

      > mudança de pensamento, de mentalidade.
      a. conversão, penitência;
      b. penitência, arrependimento.

      Não é só para “metanóia” que o termo soa distorcido. A Bíblia se vale de alegoria/mito para transmitir a mensagem espiritual, e essa alegoria se vale de linguagem em cunho “negativo”:

      Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me. (Mateus 19:21)

      Existe uma vida anterior ao “thauma” e outra posterior. “Arrependimento” significaria, portanto, não mais trilhar a via da vida anterior ao “thauma”. É converter-se a uma nova vida, a uma nova existência, como você bem frisou.

      Reino de Deus é interior ao ser humano. Nesse sentido o seguinte versículo não deixa dúvida:

      21 Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós. (Lucas 17:21)

      O “dentro” é referido pelo grego “entós”. Como a maioria dos seres humanos não vivenciam o “thauma”, o reino de Deus implica um tempo, uma estação futura, ou uma promessa de existência para a posteridade, e não já uma nova existência de vida , uma iluminação mental.

      Abraços,
      Flávio

  5. Rafael Costa
    01/01/2014 at 20:25

    Se Jesus voltasse, ele seria o primeiro à ser atacado por “cristãos” burros. Quando ele falar em perdão e amor, vão dizer que ele está subvertendo as regras da bíblia e coisa e tal, que é um pecador, ímpio.
    Quando ele conviver omeçar a conviver de forma humana com os gays, negros, pobres,,,vão dizer que ele está desonrando Deus.
    O pessoal daquela direita cristã mais fervorosa, vão chama-lo de comunista por curar as pessoas de graça e questionar as autoridades vigentes.
    Seria uma cena cômica.

    • 01/01/2014 at 22:17

      Rafael, a direita fanática é burra, mas não ganha da esquerda fanática, empata.

    • Rafael Costa
      02/01/2014 at 17:48

      A direita e a esquerda fanática, parecem um casal com mais de 30 anos de casado, brigam, xingam-se, mas um não vive se o outro.
      As vezes nem sabem o porque de estarem brigando.
      Também não abrem mão de suas manias, mesmo elas não tendo nenhuma razão de existirem.

    • 03/01/2014 at 01:08

      Rafael, claro que existe direita e esquerda e são legítimas, as pessoas estão esquecendo a história do ensino médio. Agora, no meu caso, de filósofo, eu prefiro colocar a filosofia na frente da política. Mas isso é meu. Atitude minha. Não é uma atitude que se universalize e nem sei se é para se universalizar

  6. Fábio Siqueira Lessa
    01/01/2014 at 14:11

    Olá Professor
    Que texto!! Professor, conheço muitos evangélicos que costumam referir que no Novo Testamento há condenação da prática homossexual e que aí estaria a justificativa para repudiá-la. Como combinar o céu democrático com a assertiva homofóbica, ambas, ao que parece, contidas no Novo Testamento?

    • 01/01/2014 at 17:15

      Fábio, a Bíblia é um texto moral, não só histórico, e tem um moralidade datada. Desde quando o povo judeu iria incentivar uma prática homossexual? Combinaria a prática homossexual com a vida do povo judeu? Combinaria a prática do povo judeu de espancar meninas com violência a vida nossa atual ou mesmo com a vida de povos próximos na mesma época. A Bíblia não é um livro para burros.

  7. Diemerson
    01/01/2014 at 13:14

    Excelente texto

  8. Maria de Lourdes
    01/01/2014 at 07:47

    Comentário de Paulo Ghirardelli

  9. Alexandre
    31/12/2013 at 21:59

    Feliz 2014, Paulo.

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