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29/03/2017

“Janaína é sexy” ou Da criação da disciplina Psicologia Política


Para meus amigos pesquisadores do CEFA

Os homens conservadores logo arrepiaram com a perfomance da professora Dra. Janaína Paschoal, da USP, em comício de defesa do pedido de Impeachment da presidente Dilma. Janaína estava “possuída”, e homens, há muito tempo, aplicam esse termo para as mulheres que eles não podem controlar. Isso é notável. Mas há mais.

Do ponto de vista da filosofia, a professora Janaína é um bom exemplo do início de uma disciplina filosófica ainda pouco desenvolvida entre nós, a Psicologia Política. Do que trata? Trata das transformações subjetivas no contexto da mentalidades regidas por questões de poder. Dois dos melhores livros que conheço sobre o assunto: Ira e tempo, de Peter Sloterdijk, O fim da história e o último homem, de Francis Fukuyama.

Francis Fukuyama

Francis Fukuyama

Em ambos o ponto de partida é o desenho do homem segundo a transformação que ocorreu da passagem da psicologia antiga para a psicologia moderna. O homem antigo tinha uma alma – exemplarmente dada por Platão – apresentada em três partes: a razão, o thymos e o lugar dos apetites. A descrição do homem moderno fez desaparecer o thymos, restando então somente razão e paixão. Sendo assim, o homem moderno deixou de ter o lugar próprio da ira que motiva o orgulho, e que alimenta a identidade pela qual se defende alguma coisa com bravura. Sendo assim, todas as vezes que o homem moderno cria alguma disposição exacerbada, tipicamente timótica, esta é associada por nós, então, como algo do campo da paixão, que se opõe à razão. É uma forma de não entendermos a virtude da “ira de Aquiles” ou dos deuses, e condenarmos toda paixão como uma irracionalidade causadora de cegueira, violência sem razão etc. O homem moderno tem como objetivo a política da paz, para institucionalizar o mercado (Locke e sua Carta da Tolerância), e a visão objetiva, para dar continuidade ao projeto de “prever para prover” (Comte).

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Janaina Paschoal

Quando Janaína se exacerba em público e se mostra possuída, ela expõe não algo da paixão que a torna irracional, mas algo da sua identidade, seu orgulho de estar lutando pelo que luta, e que a torna quem ela é. “Torna-te o que tu és”, disse Nietzsche, e Janaína faz isso com a força que vem do thymos. Mas, como nós não temos mais o thymos na psicologia, e como Janaína é mulher, é fácil jogar a atitude dela para o mero destempero da paixão e, então, menos laicamente, dizer que ela está possuída.  Agrupando aí seus cabelos soltos e sua sensualidade (sensualidade não é sexualidade, é do âmbito do erotismo e, portanto, da imaginação), ela então é vista como possuída, uma vez que os que a criticam não puderam possuí-la. Não pode existe mulher não possuída. Se não somos nós que a cavalgamos, então é o demônio. Assim reagem os conservadores – da direita e da esquerda. Pois, diga-se de passagem, não pensem que a direita está contente com o protagonismo dela, professora da USP e inteligente.

Janaína é um bom chute inicial para fundarmos os estudos em Psicologia Política na investigação filosófica brasileira.

*   *   *

Espero que esse exemplo mostre um pouco dos caminhos ensinados em Sloterdijk e Fukuyama, e conquistem o leitor para essa nova disciplina filosófica, a Psicologia Política. É interessante aqui, evoluirmos para incorporar nessas análises Agamben, na sua distinções sobre o corpo nu e a identidade.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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22 Responses ““Janaína é sexy” ou Da criação da disciplina Psicologia Política”

  1. Pedro Possebon
    11/04/2016 at 16:59

    Bela lembrança, Paulo.
    A Janaína disse que no começo do mandato teve esperanças na presidente após ouvir numa entrevista para a Globo que a Dilma sonhava ser bailarina quando criança.
    A Janaína parece ser mais voltada para psicologias que posições ideológicas, não sei se isso é bom em política, mas é muito diferente do debate que nós estamos presenciando.

  2. Mário Carvalho
    11/04/2016 at 10:47

    Prof. Paulo, em que pese sua inteligência e erudição, acredito que o senhor não deve ter escutado muito bem a fala da Doutora Paschoal, ou não teria feito essa análise capenga, desprovida de sentido, em que o discurso fascista da doutora é interpretado como manifestação do thymos, e não resultado de uma irracionalidade com contornos religiosos típicos do discurso que Savonarola fazia na época do Papa Alexandre VI. O discurso dela é povoado de expressões usadas nos meios evangélicos mais obscurantistas, provindos de um Brasil profundo, carregado de superstições, e que nada tem a ver com política ou com democracia. Uma pessoa que fala em ” legiões celestiais ” que cortarão as ” asas da cobra “, estudantes tendo suas mentes possuídas por pelo comunismo petista ( meu deus, em que mundo essa doutora vive? ), não merece o mínimo de crédito e respeito por quem quer que seja. Não vejo diferença entre Janaína e um Bolsonaro ou Malafaia, talvez seja ela uma mistura desses dois patifes.

    • 12/04/2016 at 00:26

      Mário Carvalho, em que pese sua não inteligência e não erudição, sua capacidade de entender meu texto, que aliás é simples (veja que outros leitores entenderam facilmente), é a de quem não consegue ler, apenas reiterar outra coisa diante da novidade. Acorda cara. Leia mais duas vezes, atentamente, se não entender, se mate.

  3. Rodrigo Bonfim
    08/04/2016 at 21:13

    P. Ghiraldelli, se você tiver 15 min. pra ver este vídeo do youtube, ou melhor nem precisa se tiver apressado, basta ver os principais comentários nele. Eu gostaria na oportunidade de saber se você fez algum artigo mostrando o lado oposto ou que não é bem assim.

    Segue abaixo:

    https://www.youtube.com/watch?v=0VreNqqbVVI

    Até em que ponto isso é verdade?

    Obrigado.

    • Rodrigo Bonfim
      08/04/2016 at 21:34

      O dito cujo é filósofo.

    • 08/04/2016 at 23:17

      Bonfim, comecei a escutar, mas o sotaque reacionário (é gozado como o reacionário estraga o sotaque gaúcho) já me afastou, e logo na primeira frase veio a bobagem de quem não sabe o que é a universidade brasileira. Toma algum departamento de ciências sociais como Universidade brasileira. Bobagem, não perca tempo com esse tipo. Esse é o tipo do cara que não sabe que Heidegger, Platão e Nietzsche são autores lidos à exaustão na universidade brasileira em ciências humanas e filosofia, e ninguém diria que não foram conservadores.

    • Rodrigo Bonfim
      09/04/2016 at 03:11

      Não dá pra negar, essa nova onda conservadora está se alastrando( não sei até que ponto isso é ruim ou deva ser preocupação ) e o alvo próximo será os cursos de Ciências Sociais das Universidades Públicas e Privadas. Sem dúvida ela vai bater até nos seus pés.

    • 09/04/2016 at 07:17

      Rodrigo, você deve ter menos de 20 anos. Para falar algo assim. Ao chegar aos 25, vai ter de ter amadurecido já. Não dá para ficar assim. O mundo não é só grupelhos semi-politizados de Internet. Pela primeira vez um candidato mais à esquerda tem chances reais nos Estados Unidos. Pela primeira vez nossa falsa reforma agrária foi denunciada. Pela primeira vez o populismo de esquerda perdeu, no Brasil, seu prestígio perigoso. Sai do DCE ou da UNE. Saía do mundinho do Bolsonaro. Até a Veja já trocou de editor.

    • Rodrigo Bonfim
      09/04/2016 at 14:19

      Eu estou certo do que eu falei. Veja o próprio Bolsonaro que acabou de citar, ele vem cada vez sendo aclamado e o Congresso vem ficando cada vez mais conservador de direita e isso é fato visível. As pessoas com mais medo estão se voltando ao direitismo. Os EUA tem o Trump crescendo tbm. Mesmo assim, os EUA pode continuar a seguir a linha à esquerda, mas o Brasil, não.

    • 09/04/2016 at 14:24

      Rodrigo, ninguém vai mostrar o contrário para você, disso tenho certeza.

    • ana
      10/04/2016 at 12:00

      vejam o video da FILOSOFA marcia tiburi no Jornalistas Independentes sobre a Paschoal, que é, ao contrário do que diz esse senhor, advogada, sim. E que advogada! defende um homem que torturou e manteve a mulher em cárcere privado e apresentou a seguinte defesa: ququestão de fé. a religião do fulano defendia tal conduta e ele apenas tinha fé. viva o obscurantismo. que belo exemplo de feminismo esse da paschoal.

    • 10/04/2016 at 16:20

      Ana, um escritório de advocacia não pode escolher clientes, principalmente se a OAB recomenda. O fato de não saber isso e o fato de achar que o advogado pode condenar alguém, e não o juiz, a faz uma pessoa complicada. Mas lhe dou a chance de melhorar. Estude.

  4. Kaio
    07/04/2016 at 12:28

    Na sociedade brasileira, ainda com nichos importantes conservadores e reacionários, não liberais, uma pessoa que expresse de modo mais emocional é geralmente rechaçada, seja homem ou mulher, as vezes tratada como possuída, perigosa, etc. Não acho que o homem esteja imune de sofrer julgamentos do tipo que uma mulher possa sofrer.

    • 07/04/2016 at 13:24

      A direita e a esquerda agem assim, a questão é a descrição psicológica moderna, Kaio.

  5. André
    07/04/2016 at 11:54

    Ê Paulo! Só na punheta pra Janaína !!!?? ???

    • 07/04/2016 at 13:25

      André, sirva-se, não precisa me invejar. Você também pode. Ou não? Xiii! Não é?

  6. Afonso
    06/04/2016 at 23:04

    Prof essa psicologia política não está ligada às noções de cortesia e de civilidade na sociedade dos costumes chegando ao advento da política midiatizada do ‘fim da história “? “O governar-se, governar os outros ” até o gestual na retórica do corpo e da voz, no paroxismo da entonação que pode caracterizar (caracterizava) a fala fascista. Não esquecer a espetacularização da política na produção de candidatos, a exemplo do Lula paz e amor, mas essa é outra história. ..talvez mais ligadas ao campo de comunicação.

    • 06/04/2016 at 23:44

      Pode também, embora essa linha que pegou acabe se desviando da psicologia política.

    • Afonso
      07/04/2016 at 09:21

      Prof. (ocorreu-me agora) não haveria (também) a possibilidade de uma linha de estudo em relação ao “pathos” (inerente ao ser humano) – em sua origem (grega) relacionado ao domínio do espanto e da discursividade, passando por Kant (do sujeito assujeitado à paixão) ou na recuperação do termo original como disposição afetiva, em Heidegger, sem descartar o pathos cartesiano do homem moderno e sua ligação com o sentido de ‘patologia’?

    • 07/04/2016 at 09:40

      Aí voltamos ao mesmo problema: uma psicologia moderna: razão versus paixão. Este é o entrave que, claro, pode ser incorporado na disciplina, para discussão, como fiz no texto.

  7. 06/04/2016 at 21:06

    Excelente texto, Paulo! Já viu este vídeo da Janaína falando sobre a maioridade penal – https://www.youtube.com/watch?v=kGZnqb0V34M – ? O thymos da Janaína se manifesta numa questão ”de esquerda”.

    • marcelo
      07/04/2016 at 09:25

      Eu credito que este foi o melhor comentario sobre o famoso video da advogada Janaina. E quando vi o video, pensei na mesma frase que o senhor citou ““Torna-te o que tu és”.

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Filósofo