Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

28/06/2017

Isso é machismo! Isso é crueldade penal


ISSO É MACHISMO. 87% das prisioneiras no Brasil não cometeram nenhum delito a não ser tentar levar droga para dentro da prisão onde estão seus maridos, para que eles possam pagar dívidas internar ou simplesmente evitar serem molestados. Essas mulheres são pessoas que nunca lidaram com tráfico. Em geral, gastaram tudo que tinham com a droga, num ato de desespero. Não possuem antecedentes criminais. 

É um crime de amor. Talvez nem deva ser pensado como crime. A punição poderia ser simplesmente a determinação de não mais poder fazer a visita íntima ou coisa parecida. Já seria uma pena duríssima. Agora, tornar essas mulheres marginais, é apenas machismo. Não há nenhuma outra explicação para tal prisão.

Nesse caso, é visível, pune-se a mulher por ser mulher. As declarações do juízes deixam claro isso. Uns chegam a dizer, inclusive em gravações e até em textos assinados (!), que se fosse um homem levando droga no ânus, a pena não seria a mesma, não seria tão dura, mas como a mulher levou a droga na vagina, isso é “inconcebível”. Por que “inconcebível”?

Cada juiz se torna dono da mulher e a julga pelo ato de colocar a droga na vagina, e não levar a droga para dentro da prisão. Torna-se dono da mulher porque já se considera, em relação à mulher, mais que um juiz criminal, mas um corretor moral, quase um demiurgo que tem o direito de traçar o destino de todas as mulheres. Fala alto na sua orelha o diabinho que o instiga contra a mulher por ela ser mulher, ou seja, por ter uma vagina posta duplamente a serviço de um homem. Então, ela é puta. E o juiz a pune como quem está punindo o que ele mais odeia, a puta. Pois trata-se da puta que não o serviu, mas serviu de modo arriscado e amoroso outro homem. Puta não tem o direito de amar, principalmente outro homem que não ele, o juiz, é esse lema que comanda o seu julgamento.

Isso tudo precisa acabar. Não há sentido em prender mulheres por tal coisa. Chega! Essa forma de crueldade não pode continuar. 

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

PS: talvez as feministas pudessem distinguir melhor o que é machismo e o que não é, se vissem a cadeia causal e a cadeia de razões em cada situação. Muitas vezes o machismo, se existe, é secundário em uma cadeia de razões. E as feministas confundem o caso. Nesse caso, não há razão alguma que não a disposição contra mulher por ela ser mulher, e isso caracteriza muito bem o machismo.

Tags: , , , , ,

21 Responses “Isso é machismo! Isso é crueldade penal”

  1. Hugo Lopes
    19/12/2015 at 23:28

    No Rio há vagão de trem para mulher diferente dos homens. Em várias situações de nossa vida cotidiana tratamos a mulher de forma diferente da do homem. Agora, porque no presídio a mulher é tratada igual ao homem?

  2. Jose Ildon
    19/12/2015 at 08:23

    Paulo, as mulheres não são um risco para a sociedade. Os crimes femininos, normalmente estão ligados a uma busca de complementar a renda. As drogas são um complemento de renda para as mulheres chefes de famílias. Por isso, a guerra contra as drogas é uma guerra contra as mulheres.
    As mães não poderiam ser presas antes de seus filhos completarem 12 anos. A punição tem que ser diferente para elas. Tem que proibir a prisão de grávidas. Prisão não é lugar para mulheres.
    O cárcere é um espaço de tortura (psicológica, física) e de massacre da dignidade humana. Na prisão a mulher é tratada como se fosse homem, as singularidades femininas não são consideradas. Elas não perdem o direito civil. Elas perdem os direitos humanos. Se o Estado prende, ele precisa oferecer condições de direitos e na prisão não há possibilidade de direitos, somente de violação de direitos.
    Os crimes femininos estão relacionados à sobrevivência da prole.

    • 19/12/2015 at 08:58

      José Ildon sua análise complementa a minha. Obrigado!

    • Hugo Lopes
      19/12/2015 at 23:26

      Boa observação: as cadeias não fazem distinção entre homem e mulher!

  3. Rooster
    18/12/2015 at 19:31

    Caro professor,

    Cito como fonte o mais recente levantamento do Departamento Penitenciário Nacional (2014), que revela que 63% das mulheres cumprem pena por crimes relacionados ao tráfico, sendo 17% por associação ao tráfico ou tráfico internacional, sobrando portanto 46% por tráfico simples e flagrante. Quanto à militância, não coaduno com nenhum sexismo, apenas me propus a corrigir os dados distorcidos apresentados pelo senhor. Segue o relatório:

    http://www.justica.gov.br/noticias/mj-divulgara-novo-relatorio-do-infopen-nesta-terca-feira/relatorio-depen-versao-web.pdf

    • 18/12/2015 at 19:53

      Rooster o que você fala bateu exatamente com os meus dados.É só ver como ler isso, e a leitura que fiz, dos órgãos de Direitos Humanos, dá certinho com essa soma. Aliás, é maior o número de pessoas ditas ligadas ao tráfico. Claro! O tanto que levam não dá para incriminar no grau que são incriminadas. Mais ponto a meu favor, no que disse, há criminalização dupla exagerada.

  4. roberto quintas
    18/12/2015 at 18:49

    professor, qual é sua opinião sobre a “traição” de Fabíola e a estranha posição das esquerdas [sim, nós nos questionamos e criticamos] a “favor” da adúltera?

    • 18/12/2015 at 19:07

      Roberto, acho que já escrevi sobre isso. Agora, o cara não é adúltero, só a Fabíola? E que tem isso?

    • Jose Ildon
      19/12/2015 at 09:02

      Roberto, enquanto nós homens ficarmos presos a adúltero (feminino, claro!), não avançamos. Precisamos superar isso.

  5. Breno Botelho
    18/12/2015 at 12:28

    Ghiraldelli, você é no mínimo um retadado mental, vc esta caindo no conto das feministas em que todos os comportamentos que uma mulher praticam são pasionais e por isso apenas uma coitada, ou seja, a cultura da vítima, em seu pequeno textinho ficou claro a sua BURRICE galopante, faça um favor para humanidade, PARE DE ESCREVER!!!

    • 18/12/2015 at 14:33

      Breno Botelho vou deixar sua manifestação aqui para que as pessoas escolarizadas saibam da sua existência. Talvez você se repita em colunas policiais de jornais do interior.

    • Jose Ildon
      19/12/2015 at 08:26

      O que você acaba de escrever confirma a tese de que o homem para ser homem precisa ser violento.

  6. Rooster Gere
    17/12/2015 at 23:54

    Caro professor,

    Isso é achismo, não machismo. Esses 87% de mulheres presas por tráfico de drogas pertencem a um universo pesquisado de menos de 100 mulheres, cumprindo pena no Conjunto Penal Teixeira de Freitas, na Bahia. Essa estatística foi retirada do Trabalho de Conclusão de Curso da (hoje) socióloga Edinar Pereira Cerqueira Alves, apresentado na UNEB em julho de 2014, cujo teor não está disponível na Internet. Nele, a autora afirma que 98% das detentas – condenadas por delitos distintos – culpam seus companheiros homens por tê-las influenciado a aderirem à vida de crimes. Não há menção disponível sobre as circunstâncias do delito, e tampouco a estatística poderia ser extrapolada para todo o Brasil, tendo em vista a baixíssima amostra tomada pela autora (menos de 100 detentas, num universo estimado de mais de 36 mil em 2015).

    Abraço,

    Rooster

    • 18/12/2015 at 14:37

      Rooster eu confiro meus dados com fontes oficiais, além disso, conheço o sistema carcerário e tenho uma longa experiência com direitos humanos e mulheres na prisão. Há dados variáveis, há crimes duplos, há influência dita e não dita etc. Não faço militância feminista, todos sabem disso. E nem uso o termo machismo à toa. Mas, no seu caso, parece sim que o problema é militância. Não sei o que tem contra mulheres, mas talvez seja o que o juiz que citei tenha.

  7. Pedro
    17/12/2015 at 23:13

    Talvez a distorção já comece com a sobrerrepresentação do macho branco heterossexual cis na magistratura brasileira. Afinal, esse grupo representa talvez 20% da população, mas é hegemônico no poder judiciário, especialmente nas cortes superiores.

    • 18/12/2015 at 14:38

      Pedro, o problema da indisposição contra a mulher é algo de raízes universais e mais profundas. Talvez a única coisa realmente universal, dizia Rorty.

    • Pedro
      18/12/2015 at 19:02

      Professor, poderia por favor me passar essa referência? Esse tema me interessa muito e eu não sabia que o Rorty tinha escrito sobre ele. Obrigado.

    • 18/12/2015 at 19:07

      Rorty foi um interlocutor importante do feminismo.

    • Pedro
      18/12/2015 at 19:11

      Eu quero dizer, se o senhor quando tiver tempo puder me indicar os textos ou passagens onde Rorty trata do assunto.

    • 18/12/2015 at 19:53

      Pedro os Philosophical Papers. Dê uma olhada no meu Richard Rorty da Vozes.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *