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30/05/2017

A invenção reativa da subjetividade moderna


A invenção reativa de Kant ou Por uma nova origem da subjetividade moderna

O iluminismo é progressista e o romantismo, como uma reação que se seguiu, nasceu necessariamente conservador.  A historiografia que assim no ensina às vezes se esquece de que também o iluminismo foi uma reação. Afinal de contas, colocar nas costas do homem sua própria emancipação, por obra de sua razão, uma vez afastada a covardia, a preguiça e a maioria das atitudes do belo sexo, como recomendou Kant, nunca foi outra coisa senão uma formulação reativa. Kant foi um homem reativo.

Durante a Revolução Francesa, Kant produziu um estranhamento em sua cidade, Königsberg. Ele saiu de seu itinerário férreo, pelo qual os cidadãos acertavam seus relógios e até mesmo o da matriz, para visitar a banca de jornal. Queria notícias do que ocorria em Paris. Ele via tudo aquilo com um misto de entusiasmo e temor. As pessoas comuns – o homem – estavam tomando a história em suas mãos. No entanto, o que efetivamente fariam com isso? Será que a barbárie que já se podia vislumbrar, própria de toda mudança de poder pela violência, não seria exatamente um aviso de que o homem não estava em condições de tomar decisões pela sua própria razão, e nem mesmo seguindo qualquer outra razão?

A obra de Kant é reativa exatamente nesse sentido. Ele foi o homem certo na hora certa para a “filosofia do sujeito”. Olhando por essa perspectiva, é fácil vê-lo dizendo: Pascal e Hume bem que me avisaram que o “eu” nada contém e, portanto, não pode ser responsável por alguma razão. É necessário colocar um novo eu para o homem alcançar; criarei então um eu transcendental, ou seja, um sujeito – alguém que seja responsável pela atividade espontânea de ligar o eu ao predicado, de uma forma ideal. E continuando: este eu, o sujeito, será racional. Caso o homem se comporte como manda esse figurino, os ideais da Revolução Francesa nunca mais se apagarão, sem que esse clarão represente a violência e a destruição social.

Interpretando Kant dessa maneira pego a contramão da historiografia oficial, mesmo a da filosofia. Hegel nos habituou a ver a noção de sujeito moderno como produto da obra de Descartes. Todavia, sabemos bem, Descartes não empregou a palavra sujeito ou subjetividade em um sentido moderno. Ele falou em “eu” e “homem”. Ele não tinha “sujeito” em seu vocabulário segundo uma visão moderna. No seu vocabulário, sujeito ainda era o sujeito da escolástica e dos antigos, o subjectum, a base e a substância. Até podia ser a substância da alma, mas não era, em hipótese alguma, a instância subjetiva que conhecemos hoje, a que, na conta de Slorterdijk, consulta-se a si mesma para encontrar elementos racionais e desinibir-se no sentido de passar da teoria à prática, à ação. Quem criou isso foi Kant.  Só com ele ocorreu a fusão do eu com o sujeito e este, por sua vez, foi caracterizado pelas funções ativas com as quais nos acostumamos a compreende-lo hoje. Kant fez isso porque os novos tempos precisavam de um eu que fosse sujeito, pois, desde a época de Descartes, o eu vinha se mostrando pouco útil nesse empreendimento.

Como?

Sim, eu disse: Pascal e Kant já haviam criado problemas para o eu.  Na época de Descartes, Pascal declarou o eu algo completamente vazio, somente preenchido pelos seus predicados, suas qualidades. De modo corajoso e ao mesmo tempo simples, Pascal disse que o eu não era outra coisa que as qualidades que tomava de empréstimo. Hume, pouco tempo antes de Kant, foi mais além, disse que tudo que podíamos sentir eram impressões passageiras, e que toda vez que ele procurava em si mesmo o eu, nada encontrava senão impressões do exterior. Mesmo que tivesse impressões “internas”, elas nunca eram contínuas e, portanto, como se poderia falar em impressões internas do eu? Seria um eu intermitente? Uma bobagem pensar em um eu não durável. Como isso, Hume deu uma boa pancada em uma característica central do eu: a identidade.

Ora, como que em uma época de apogeu do liberalismo, pelo qual cada indivíduo deveria efetivamente ser senhor de si, agir conscientemente e ser responsável, poder-se ia conviver com o fracasso da filosofia em mostrar o eu como uma instância forte, efetivamente existente? Fazia-se necessário tirar da caixa da filosofia esse novo eu. Não existindo na natureza, que existisse no ideal da cultura, no campo transcendental. Foi exatamente isso que Kant criou. Ele criou o eu como sujeito nos termos do que pensamos a subjetividade hoje.

Nesse sentido, não penso aqui no sujeito moderno como exclusivamente produto culminante de um processo de abaulamento da alma e cultivo da interioridade, vinda do cristianismo e dos movimentos religiosos ocidentais. Penso na subjetividade moderna não só como “campo interior”, mas como campo no qual há a desinibição necessária para que o homem faça o que tem de fazer.  Foi assim que Kant, lá de longe de Paris, lutou pela Revolução Francesa. Lendo os jornais e criando filosofia.  Foi assim que nasceu a “filosofia do sujeito”, a filosofia que depois, nos programas escolares, se vulgarizou na diretriz de que o professor deve criar o jovem capaz de exercer o pensamento crítico e autônomo.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo, autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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13 Responses “A invenção reativa da subjetividade moderna”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    30/06/2014 at 11:29

    PAULO
    Penso que o grande projeto de Kant foi tentar salvar a Metafísica que ameaçava ser morta pelos embates entre o Racionalismo de Descartes e o Empirismo de Hume. E creio que o metódico e genial pensador de Königsberg venceu, ao estebelecer as bases de sua Filosofia Moral calcada no entendimento e na sensibilidade, no tempo e espaço e nos juizos sintéticos e analíticos do seu perene sujeto transcendental.
    Abraços.
    Valmi Pessanha.

    • 30/06/2014 at 11:58

      Valmi que você sabe o manual sem precisar ler Kant, eu já vi. Meu assunto é outro. Não consegue ler?

  2. ailton
    30/06/2014 at 09:13

    SE eu pensar que posso assumir várias qualidades ao longo de um mesmo dia a subjetividade moderna estará em jogo ou em queda melhor dizendo. Kant poderia ler seu jornal hoje de manhã e a noite poderá odiar sua atitude de procurar saber sobre os acontecimentos longevos. Ele estaria completamente em crise de identidade como entendemos atualmente. Talvez faria acupuntura pra resolver tamanha crise existencial. É por aí Paulo?

    • 30/06/2014 at 10:31

      Não. Claro que não.

    • Ailton
      30/06/2014 at 14:51

      Ok. Então seria o caso dos títulos e qualidades que vou adquirindo pela vida que constroem o eu?

    • 30/06/2014 at 14:54

      Aiton, sem ser chato, que tal pegar o fio da meada? Por exemplo: A aventura da filosofia, dois volumes. Talvez isso dê os instrumentos que você precisa para se familiarizar com o assunto.

  3. 30/06/2014 at 07:41

    Perfeita analise do “eu” em Kant, muito bom!

  4. Mario Luis
    30/06/2014 at 00:20

    Boa assertiva. Gostei. Concebo também, numa certa medida próxima, ser o sujeito um lime necessário, assim como em Wittgenstein, “assim como olho, vê tudo mas não vê a si mesmo, e portanto se resolve inteiramente nos objetos vistos”. Mas acredito no espírito. E também nessa medida concebo a fusão necessária entre o sujeito e objeto, ou melhor, numa profunda relação cuja função do sujeito se revela, a priori, como relação.

    • 30/06/2014 at 00:38

      Não falei absolutamente nada sobre “fusão de sujeito e objeto”. Nada.

    • Mario Luis
      30/06/2014 at 01:43

      Sim, é verdade. Eu mesmo é que direcionei o assunto, sobre a questão da existência ou não do sujeito.

    • 30/06/2014 at 10:32

      ?

    • Mario Luis
      30/06/2014 at 23:25

      Ora, para Kant o Eu é sujeito, de forma que se tornam unidos sujeito e predicado nos juízos, e assim, pleno de atividade cognoscitiva.
      Fico pensando, ás vezes, que a diferença em Spinosa é não ter concebido a Substância como sujeito.
      Mas, essa identidade entre o sujeito e o objeto na Autoconsciência Absoluta, como em Fichte, me assombra quando coloco em relação à subjetividade moderna.

    • 01/07/2014 at 09:29

      Mario Luis, essa é outra história. Se vamos colocar dialética ou não na relação sujeito e objeto, isso pouco importa. É mero artifício de segundo momento, de momento romântico. Inclusive, desnecessário. O sujeito finito já bastava para substituir o eu esvaziado, já cumpria as funções necessárias.

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Filósofo