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25/09/2018

Introdução às ciências das cigarras


[Artigo destinado ao público acadêmico]

As cigarras vieram de uma raça de homens que viveram antes do nascimento das Musas. Então, as Musas nasceram e a música foi criada. Alguns dos homens ficaram embevecidos com a música e se esqueceram de comer e beber. Morreram de inanição, sem perceber. Foi a partir destes que a raça das cigarras veio ao mundo e, por um dom das Musas, não necessitam nem comer e nem beber. Quando as cigarras morrem, elas voltam às Musas, e relatam os feitos dos homens, isto é, contam às Musas como cada um se dedicou, se à musa da Dança ou do Amor etc. Falam também para a Musa mais velha e a mais nova sobre os homens que se dedicaram a um especial tipo de música – a filosofia.

Essa passagem de texto é bem conhecida. Está no Fedro, de Platão. Esse mito é contado por Sócrates ao jovem Fedro, para incentivá-lo a ficar debaixo de uma árvore frondosa em dia de calor, não para dormir ou falar coisas vãs, mas para dialogar sobre filosofia. No caso, conversar sobre as relações entre a fala e a escrita. Não raro, o leitor comum, alheio à escolaridade filosófica, toma tal mito realmente como sendo apenas um incentivo de Sócrates a Fedro, um artifício didático. Mas não é nada disso. Ele tem um profundidade filosófica que nos chama.

O mito versa sobre voz e linguagem, sobre fala e escrita, que realmente é o tema a seguir no Fedro. Nesta parte, Sócrates irá preferir antes a fala que a escrita, pois só na fala há a verdadeira dialética viva, com surpresas e insigths. Mas o mito, por ele mesmo, sem que se precise ir adiante na leitura do livro, já revela algo que pertence ao centro do pensamento ocidental.

Antes de entrar no mito propriamente dito, Sócrates avisa que as cigarras ali estão como as sereias. Ou seja, compara a si e a Fedro a Ulisses e seus companheiros em perigo diante de potências míticas. Qual o perigo das cigarras? Ora, levar às Musas um recado distorcido deles, difamá-los como sendo apenas escravos que querem dormir ou de pessoas comuns que querem descansar ou falar de banalidades. Uma má fama assim os destruiria. Pois as Musas só ampliam virtudes de quem as praticam. Sócrates é sempre zeloso em relação a entidades demiúrgicas e à tradição, ao contrário da fama que ganhou pela sua condenação. Mas, como é esse zelo?

O zelo revela duas coisas bem interessantes, bem postas no mito. Primeiro, houve um tempo em que a música não existia, mas existiam homens. As Musas vieram depois dos homens. Então veio a música. Segundo, as cigarras, cantoras par excellence, não são mais homens, são animais. Adquiriram o canto por deixarem a condição humana e voltarem plenamente à natureza. As cigarras se tornaram, também, uma raça de fofoqueiras. Não morrem e sossegam. Nada disso, morrem e vão direto contar às Musas sobre nossas adorações. Falam sobre o que cantamos – se cantamos com a dança ou com o amor. Se cantamos com a filosofia, então cantamos bem. Ao contrário de nós, cristãos modernos, que temos em nossos deuses exemplos de bondade, os gregos tinham exemplos de virtude. As Musas nada mais são que inspiradoras de virtudes. Nós somos morais, os gregos eram éticos.

No caso, a virtude maior é a da música. Pois até a filosofia é música. Cantar, espraiar a musicalidade, é função da cigarra, mas ela nada é senão uma reprogramação do homem desaparecido como homem, algo que perdeu sua condição humana. Os tempos atuais, onde existem cigarras, são devedores de tempos primordiais, onde elas não existiam, e as recém chegadas Musas, então, deram aos homens o gosto pelo canto.

Agamben remete a esse mito para comentar:

“Há a música; o homem não se limita a falar, antes sente a necessidade de cantar porque a linguagem não é sua voz, e porque ele habita na linguagem sem ser capaz de torná-la em sua voz. Cantando, o homem celebra e comemora a voz que não mais tem, que, como ensinada pelo mito das cigarras do Fedro, ele poderia novamente obter somente se deixasse de ser humano e se tornasse animal”[1]

Repito: “cantando, o homem celebra e comemora a voz que não mas tem”. Cantar não é ter voz novamente, mas comemorar e celebrar o que se perdeu.

Para Giorgio Agamben, os homens realmente perderam a voz. Isso porque objetivaram a linguagem, a transformaram em algo gramaticizado, e então a reinseriram na voz que, enfim, é o que chamamos, com condescendência, de voz humana, mas que na verdade é apenas fala – fala da linguagem. A linguagem é, hoje, o que chamamos de voz humana e que precisa de transmissão conjunta endossomaticamente e exossomaticamente. Afinal, só uma criança fala a fala humana, a linguagem, mas uma criança só fala, só adquire a linguagem, se assim o faz antes dos doze anos.  O homem é essa encruzilhada entre natureza e cultura.

O homem quer cantar, justamente porque está na linguagem e, no entanto, sabe que ela não é sua voz. Ou seja, o homem se dessubjetivou para se subjetivar. Para ser um eu que emite discursos teve de abandonar sua vida de experiências próprias e passar a existir agarrado pelo anzol de uma instância cultural pronta, de certo modo impessoal, que é a linguagem. Está enredado nisso, esta é a sua condição humana.

A maneira como Agamben explica a subjetividade, como um processo de subjetivação por conta de dessubjetivação e vice-versa, deixa isso claro.

Para Agamben, seguindo Émile Benveniste, a linguagem contém shifters, ou seja, palavras como o “aqui”, o “agora”, o “eu”. São palavras que dizem respeito ao enunciador enquanto estância da própria linguagem. Não se referem propriamente ao ser psíquico que esteja falando (não são palavras como “casa” ou “cavalo”, com referencialidade que aponta para algo pressuposto como fora da linguagem, como casa e cavalo). “Eu vou ao mercado”. Quem vai ao mercado? O sujeito eu. Mas quem é o sujeito “eu”? Não é aquele (o “ele”) que vai ao mercado, mas é o “eu” que está na frase “eu vou ao mercado”. O shifter faz com que o “vou ao mercado” permita que alguém, em determinado momento, enuncie “eu vou ao mercado” e, então, passe a ser usuário da linguagem – alguém que enuncia algo e assim se comunica. O shifter “eu” é uma porta de entrada para que o usuário da linguagem se torne usuário da linguagem. Mas, ao mesmo tempo, que a linguagem seja uma instância que funcione por ter usuário.

Ao falar “eu”, o elemento deixa de lado o eu orgânico, o ser vivente, e assume a vida ética implicada na linguagem, e nas obrigações de quem assume o “eu” – o sujeito da linguagem que emite o discurso no momento. Toda vez que digo “eu”, então o sujeito do meu enunciado, e não um sujeito não-linguístico, está na jogada. Mas, é claro que o uso do “eu”, como partícula da linguagem, ajuda na aparição de um eu que se entende como psicológico, ou substancial – metafísico até (tanto no campo da filogênese quanto no da ontogênese). Mas isso é um resultado de apêndice, não é o básico. Pois sempre quando dizemos “eu”, isso é válido à medida que somos sujeitos de enunciação, ligados conjunturalmente a um pretenso sujeito psicológico apenas no momento da enunciação. Assim, a dessubjetivação ocorre onde nos livramos da experiência para adquirir somente experiências que são experiências da linguagem, e não experiências exclusivas e próprias, é o que é o processo de subjetivação.

Adquirir a voz enquanto fala é, na verdade, perder a voz. A voz humana, para Agamben, não existe. Ou, se existe, é a fala, e esta é nada mais nada menos que a linguagem. O tempo do canto humano é, então, o tempo de esforço do homem para comemorar a voz, aquela voz que vá além da voz que não é sua; essa sua voz que não é sua é a sua voz na linguagem.

A própria música atual é, nesse sentido, um canto que pode resvalar (ou necessariamente resvala) na má música a todo instante, pois pode já estar logicizado, pode já estar com a phoné tão comandada pelo lógos que nada lhe reste senão ser vista como falsa música. A música atual pode ser apenas uma testemunha de que cantamos – se é que de fato cantamos – porque não temos mais voz, temos apenas a fala. Falsa voz, má música.

A voz desaparecida pela entrada da linguagem no que se tornou voz humana ou fala, tem seu réquiem na música, no canto. Questionar isso é o papel da filosofia atual, diz Agambem. E por isso, também, ele diz que “a filosofia é hoje possível unicamente como uma reforma da música”.[2] Se a música é apenas fala, não é música, é repeteco de enunciados que mandam mensagens, linguagem, estâncias gramaticizadas e “prisioneiras da semântica” (Peter Sloterdijk), então é necessário reformar essa música. Se a filosofia é música, então a filosofia é hoje, se é alguma coisa, reforma da música. Como podemos cantar a filosofia de modo que as cigarras possam levar bons recados sobre nós às Musas?

Existe um outro mito, que vive sendo desmentido pelas ciências, de que a casca deixada pela cigarras é sinal de que elas morreram explodindo – explodem de tanto cantar.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.  28/02/2018, C. Jaguaré, São Paulo.

[1] Agamben, G. What is Philosophy? Stanford. Stanford University Press, 2018, p. 99.

[2] Idem, ibidem, p. 97.

Gravura: Escultura de Bertel Thorvaldsen – Apolo e a dança das Musas no Hélicon

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3 Responses “Introdução às ciências das cigarras”

  1. Eduardo Rocha
    01/03/2018 at 00:24

    A Gaia Ciência § 372.

  2. Eduardo Rocha
    28/02/2018 at 15:31

    Sloterdijk (2016, p. 449): “As vozes das sereias foram descritas pelos autores da Antiguidade como ao mesmo tempo melífluas e estridentes – o que talvez recorde que a música antiga não provoca seus bem atestados efeitos mágicos por meio daquilo que, desde o Romantismo, os ouvintes modernos percebem como melodiosos e harmoniosos, mas se impõe, antes por um time de inexorabilidade arrebatadora – magicamente sobrearticulada, pungente, prenhe e insistente até o esgotamento. O antigo canto falado impõe aos ouvidos das pessoas reunidas o estado de exceção de uma clareza que engrandece, excita e torna indefeso. A fala das musas inscreve-se no ouvido como que com maiúsculas; seus cantores avançam sobre os ouvintes como máquinas soporíferas de escrever versos; como tambores vivos, os rapsodos traçam seu círculo em torno da assembleia tomada pelo som. Sem tolerar qualquer discurso em contrário, a musa brada sua ruidosa e clara pretensão de conquistar, pretensão essa à qual o sujeito vulgar, que murmura em dialeto, nada tem a opor”.

  3. Matheus
    28/02/2018 at 13:04

    Não sei se cabe algum insight nisso Paulo, mas e o mito de Ekos?

    Sobre a reprodução da fala que sempre causa um desconforto/estranhamento…

    Quem sabe possa render alguma contribuição, abraço!

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