Go to ...

on YouTubeRSS Feed

18/11/2018

Introdução ao silêncio e à música


[Artigo indicado para o público acadêmico]

O cachorro late, o gato mia, a ariranha regouga e a cigarra fretene. Cada animal tem sua voz.

Dizem que o gato parou na porta da casa do rato e começou a latir. O rato saiu, achando-se seguro, e foi pego pelo gato que, enfim, havia percebido que no mundo de hoje leva mais vantagem quem fala ao menos duas línguas.

Estamos tão acostumados, erradamente, a pensar que nossa fala traz alguma indistinção entre voz e linguagem, que imputamos isso até aos animais. Ora, eles são justamente os que, se observados, deveriam nos dar a dica para desconfiarmos dessa nossa familiaridade excessiva com o homo sapiens loquendi.

O caso é que os animais possuem linguagem só em um sentido muito especial. Eles possuem voz. Há certa relação com a linguagem, pois, de fato, há um sinal nessa voz, um signo. Mas não há a divisão que ocorre na linguagem humana, aquela da qual surgem duas séries distintas, a dos nomes que significam uma coisa e a do discurso que se faz como um segundo modo de significar. A linguagem humana é dividida entre semiótica e semântica, entre um conjunto de nomes que referenciam coisas e um discurso que pressupõe tais nomes e coloca a linguagem (língua) em funcionamento, por cada um de nós, o que, quando ocorre, muda tudo e cria outro sistema de significação. Essa descoberta consagrada por Emílio Benveniste é reiterada nos textos de Agamben.

A ideia de Agamben sobre a origem dessa situação é a de que a linguagem humana, diferente do que é hoje, um dia, quando ainda éramos hominídeos, foi exteriorizada e transformada em objeto, então paulatinamente virou algo a ser incrementado, gramaticizado, e deixou de ser transmitida só endossomaticamente, mas passou a ser transmitida também exossomaticamente. Virou um saber passado de mãe para filho e se transformou em base de todos os outros saberes e a unidade de comunidades. De fato, sabemos bem, para o ser humano cumprir sua natureza ele precisa adquirir informação histórica. Ou aprende sua linguagem (ou língua) antes dos doze anos ou nunca falará mais nada que se pareça humano. Ou seja, não usará a linguagem com o seu poder de mensagem. Somos homens que se comunicam porque a linguagem é para nos comunicarmos, e somos homens porque possuímos linguagem – assim nos definimos. Estamos sempre no gap entre natureza e cultura.

Essa divisão entre semiótica e semântica, que está na nossa linguagem e a compõe, criou então uma outra dicotomia atinente: signos são da ordem do essencial e discurso da ordem do existencial. Agamben entende, então, que existência e essência derivam de discurso e nomes, semântica e semiótica. Categorias metafísicas emergiram, portanto, da própria formação dividida (e articulada) de nossa linguagem. E a tarefa toda da filosofia tem sido, por isso mesmo, sempre uma hermenêutica – assim foi selado o destino do pensamento ocidental. Temos sempre de interpretar o que fazemos com a existência, que está envolta com o discurso, uma vez tendo por base o pressuposto da essência, o que está no plano da língua, dos signos.[1] Não conhecemos a civilização ocidental senão com essa tarefa de se reinterpretar continuamente.

Todavia, se prestarmos bem atenção em tudo isso, veremos que nossa fala é, então, fala de linguagem, de algo que foi exteriorizado, gramaticizado e depois reinserido como fala, tornando-se o que chamamos de voz humana, diferente da voz animal. No limite, falamos por não termos mais voz. A linguagem nos é transmitida, ganhamos a nossa natureza pela história. Mas sabemos que, na linguagem que acionamos, estamos montados em uma plataforma que tem autonomia em relação ao que chamamos de voz humana. Nesse sentido, se nossa fala, o que chamamos de nossa voz, é a linguagem, então é ela que fala em nós. Nos mesmos, se falamos, perdemos a voz. (Heráclito se dizia a voz do Lógos, que este falava por ele, e Heidegger insistiu na ideia da linguagem como não sendo utilizada por nós, mas sendo algo do Ser que se serve de nós).

No limite, a tese de Agamben é a de que “a voz humana não existe”. “Não há uma voz nossa de que possamos seguir o rastro na linguagem, que possamos colher – a fim de recordá-la – no ponto que se dissipa nos nomes, em que se escreve nas letras. Nós falamos com a voz que não temos, que jamais foi escrita.”[2] Assim, diz Agambem, “se falamos, então a linguagem é a nossa voz”; e “como agora falas, isso é a ética”.[3]

Se temos linguagem como nossa voz, ou seja, se somos de fato um falante novo (o que fala por reinserção da linguagem na voz), estamos a falar, a discursar, a transmitir mensagens e, por isso mesmo, nossa filosofia é uma eterna hermenêutica – e talvez toda nossa atividade cultural (ou quase toda) não seja senão isso. E se falamos, então somos perfeitamente humanos, e fundamos o reino dos que cumprem um ethos. Somos os seres éticos. Os únicos éticos. Animais e deuses não estão nem aí para a ética.

Todavia, e se cantamos? E se poetamos? E se nos recusamos a transmitir mensagens como as mensagens que o lógos ordena que sejam todas as mensagens? Podemos fazer isso? Ou sempre que elogiarmos um cantor ou músico ou compositor como sendo “inteligente” o estaremos diminuindo – como nos alertou Cioran? Pois, afinal, não podemos mais retirar o lógos da phoné de tal maneira a nos recriarmos e tentarmos a voltar a ter voz. No limite,  todo músico é “inteligente”, ou seja, não houve as Musas e acaba é por passar uma mensagem. Pode o músico se livrar disso? Pode o poeta nos trazer para algo que não é a “prisão da semântica”?

Se a voz humana não existe, ou existe só como fábrica de mensagem – linguagem – e não como um simples viver, o destino do homem é aceitar o silêncio?

De certo modo, está em Homero lido por Kafka a ideia de que as Sereias não cantaram para Ulisses, e ele só ficou com a fama de tê-las derrotado porque manteve os olhos arregalados e, assim, convenceu os seus companheiros de que havia escutado algo e que teria sido, então, o único a vencer as potências míticas – confirmando sua fama de raposa matreira. A “sereia íntima”, anunciada por Agamben[4], ou a sereia interior, vislumbrada por Sloterdijk[5], são, respectivamente, a sereia do silêncio e a sereia do canto uterino (e esta última certamente está longe de ser o canto com linguagem, um simples proto-discurso). Nesses dois filósofos, cada um à sua maneira, a modernidade tem uma face caracterizada pelo advento do homem que está no silêncio.

Não existe voz humana, diz Agamben. Para Peter Sloterdijk, isso pode ser dito da seguinte maneira: existe um Descartes que afirmou tem pensado sem ter ouvido, ou seja, que teve a experiência do Cogito, e não a experiência do Cogito sonoro[6]. Mas isso é possível? Ora, só é possível pelo auto-engodo do homem moderno, que tornou comum a ideia de que a pensamos sem ouvir, que o pensamento é um esquema no qual a linguagem se mostra automaticamente ao cérebro, sem fala! Sócrates ainda ouvia seu daimon. Descartes, o moderno par excellence, não dá crédito de voz ou fala nem mesmo ao poderoso Gênio Maligno. De tanto acreditar que a voz contém a linguagem incrustada, e que isso nos é natural, nós modernos pudemos imaginar que basta a linguagem no silêncio, ou seja, o pensamento, para realmente estarmos diante de nós mesmos.

A tese de Sloterdijk: “a ‘invenção do indivíduo’ nas assim chamadas grandes culturas só foi possível pela introdução de práticas de sossego e silêncio. Para isso foram decisivos a escrita e o exercício subsequente de leitura sossegada”.[7] E mais: “Não existe o ser humano interior antes do produzido pelos livros, as celas dos conventos, os desertos e as solidões; só depois que o próprio ser humano se converteu em cela ou camera silens pode habitar nele a razão com sua voz suave”.[8]

A professora primária diz: coloquem os dois dentes da frente para fora, segurando os lábios, para treinarem a leitura em silêncio. É o passo para imaginarmos que a há uma voz que tem um núcleo que é a linguagem, que é o pensamento, e que o verdadeiro pensamento se faz sem precisar da voz. Talvez Descartes tenha sido treinado demais nesse tipo de exercício.

Essa entrada no silêncio, que nos faz camera silens, pode nos apresentar como seres que pensam sem voz, uma vez que o pensamento se torna nosssa verdade, ou seja, a própria voz silenciada (ou voz suave da razão). E isso nos coloca em um dilema quando, com a música e a poesia, queremos dar importância ao som. Sentimos quase que roçando a possibilidade de ficarmos com o som, com a voz, ou seja, ficar com a phoné sem ter de ceder ao lógos. Mas nós, humanos, temos essa possibilidade? Ou a música e o poema são, no fundo, mero charlatanismo? Ou a música tem a sua validade, o que não podemos conferir ao poema e ao canto que, afinal, queiram ou não, acabam por transmitirem mensagens? Será a música a nossa verdadeira saída do silêncio, a fuga da armadilha na qual nos metemos ao acreditar no Cogito como não sendo um “Cogito sonoro”?

A resposta de Agamben a essas perguntas é a de aposta na música reformada. Ou na própria filosofia como cumprindo o que seria a sua única tarefa atual, que a reforma da música. Ele acredita que se “há a música”, isso ocorre uma vez que “o homem não se limita a falar, e, ao contrário, sente a necessidade de cantar porque a linguagem não é sua voz, e porque ele habita a linguagem sem ser capaz de voltar a ter voz. Agamben relembra que “cantando o homem celebra e comemora a voz que não tem mais”.[9]

Mas cantar o que? Sloterdijk acha que a fama das sereias nos dão boa ideia: devemos cantar aquilo que foi, segundo Kafka, silêncio para Ulisses. Aquele som imaginado por Homero, que, afinal, traria todo e qualquer marinheiro para ouvir a si mesmo, sua memória do tempo em que, como disse Cioran, “não tinhamos nome a ouvimos tudo”.[10] O som angelical de boas vindas ao mundo que, enfim, toda mãe emite e sintoniza como sendo o daimon da criança.

Não à toa Cioran chegou a dizer que “só a música pode criar uma cumplicidade indestrutível entre dois seres”. Peter Sloterdijk observa esse fato no modo como os jovens se deixam entrelaçar pela música, se agrupando em situações de contato que lembram o massagear de placenta e feto no vibrar do líquido amniótico – o evento das Love Parade é invocado por ele para exemplificar essa busca de retorno a uma esfera inicial de grande imunidade. Lá no começo da unidade psíquica que funda a subjetividade humana como biounidade, segundo a teoria da intimidade de Sloterdijk, e cria as possibilidades de solidariedade, não está outra coisa senão a música. Diz Sloterdijk: “Quando a música é mais parecida com ela mesma, ela nos fala como musique retrouvèe”. [11]

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo.

[1] Tudo isso está em Agamben, G. What is philosophy. Stanford: Stanford University Press, 2018. Pode-se ver o argumento complete, da tese de Agamben, no meu texto “Giorgio Agamben: linguagem, voz e a tarefa da filosofia”, postado em www.academia.edu

[2] Agamben, G. A linguagem e a morte. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2006, p. 146.

[3] Idem, ibidem, p. 147.

[4] Agamben, G. A potência do pensamento. BH e SP: Autêntica, 2015, pp.105-6.

[5] Ghiraldelli Jr., P. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2011, excurso 4.

[6] Sloterdijk, P. The Aesthetic imperative.  Malden: Polity, 2017, pp. 27-45

[7] Sloterdijk, P. Sphären III – Schäume. Frankfurt aim Main: Suhrkamp, 2004, p. 382.

[8] Idem, ibidem, p. 384.

[9] What is philosophy, op. cit., p. 99.

[10] Sloterdijk, P. The Aesthetic imperative., op. cit.

[11] Sloterdijk, P. The Aesthetic imperative, op. cit. 6.

Tags: , , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *