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24/04/2017

Intimidade e verdade: Montaigne e Rousseau


Há uma passagem de Montaigne a Rousseau que em geral negligenciamos. Um túnel que atravessamos sem nos darmos conta de que caminhamos do homem do Renascimento ao homem da Modernidade alinhados por um aspecto específico: o que fornece uma definição da intimidade como lugar da verdade, e também casa do critério de verdade, e ao mesmo tempo uma redefinição da própria intimidade. Perdemos muito do entendimento de nós mesmos ao negligenciarmos as inscrições da parede desse túnel.

O trajeto Montaigne-Rousseau liga dois pontos bem nítidos, a saber, o que sai de “Sobre o arrependimento”, dos Ensaios, (2) para aportar no episódio do seio da cortesã, que está nas Confissões. (2)

No primeiro, Montaigne deixa claro que seu eu interior não tem mais ou menos autoridade para avaliar a verdade (e o certo) que o seu eu exterior. Há aí o ceticismo. Mas, então, como guiar-se? Lança mão do estoicismo: que o eu exterior não seja tão diferente do eu interior, que exista um moderação que faça com que sempre se esteja “em casa”. O eu exterior não deve fazer coisas que o distanciem do eu interior ao ponto de se tornarem estranhos um ao outro. A volta à intimidade não garante a verdade, mas ter uma intimidade para que se possa voltar é um fato relevante, pois há aí um caminho. Que o homem público, então, não seja um completo incoerente com o homem privado, mantendo-se a mesma pessoa, ou quase.

No segundo, Rousseau lembra o episódio com a bela cortesã que o faz revelar-se para si mesmo de modo inusitado. Deslumbrado com a beleza e demais qualidades da cortesã, que ele desenha como uma divindade de aspecto sensuais e maternalmente carinhosos, ele se põe a procurar um defeito nela. Por quê? Pois como poderia uma mulher daquelas ser uma simples vagabunda? Haveria de existir um defeito. O que o faz procurar é a quase certeza de que a verdade viria a quatro paredes, ali na intimidade, e principalmente porque toda a situação não poderia enganar seu coração. Como que uma vagabunda enganaria seu coração? Confirma-se essa sua capacidade de não errar quando descobre que um dos seios da moça possui um defeito (um bico não saliente). Eis a explicação, então, da condição da moça: ela é uma prostituta sim, ao menos por isso. Ele acaba por ofende-la ao tocar no assunto e insistir no assunto. E ela diz para ele que mulher não é seu caso, e sim matemática, como que se estivesse falando o então já óbvio: procure em outro lugar, não nos humanos, a perfeição. Nessa hora da leitura do texto de Rousseau não há como não lembrar de que não à toa, claro, Platão colocou na entrada da Academia: “que não atravesse o pórtico quem não sabe geometria”. Rousseau era filósofo – ela, a cortesão, viu bem. Todavia, não é isso que mostra quem é Rousseau. Só o leitor descuidado vai por essa via. Quem mostra quem é Rousseau é o próprio Rousseau, não o veredito da cortesã. Quando ele confia na intimidade e no seu coração, ele está se mostrando como o Rousseau diferente de Montaigne. Ele não é o cético do Renascimento que desconfia também do homem interior, mas ele é o romântico que aposta que o homem interior, o homem que se guia pelo coração, irá saber o certo. De fato, sabia: não se enganou quanto aos não defeitos de beleza e espiritualidade da moça, que é como o seu coração garantia ao cair de amores por ela. Se havia defeito nela, era um detalhe corporal que a punha como prostituta, mas só isso.

O texto de Rousseau é tão epistemológico quanto o texto de Montaigne. Em ambos, o que está em pauta é o lugar da verdade e o critério da verdade. No mundo romântico, que é o que Rousseau inaugura, é na intimidade que está a verdade e é pela intimidade que se manifesta o critério de verdade. Em Montaigne, esse critério não existe, no máximo vinga como guia de ação a coerência.

Esse salto de Montaigne para Rousseau pode ser inferido a partir de outras passagens da obra de ambos, claro. Se não fosse assim, essa pequena tese que exponho aqui não teria qualquer mínima legitimidade. De fato, em O Emílio Rousseau invoca a “sinceridade do coração” como critério de verdade que vem até antes do critério racional. No entanto, há mais que isso na comparação entre ambos os filósofos. Pois nesse percurso epistemológico, há também uma mudança em psicologia e filosofia social. O que se entende por intimidade também se altera. Em Montaigne, trata-se do eu interior, em Rousseau, a intimidade já ganha um traço moderno: pode ser mostrada a dois, é algo a dois (ainda que uma das figuras seja de vida pública em todos os sentidos), mas é fundamentalmente algo do âmbito sexual. Montaigne não conta casos assim, digamos, picantes, para chamar a intimidade. Rousseau o faz, quase que como nós fazemos. Nós, aliás, sempre achamos que a intimidade é sinônimo de algo ligado ao sexo. Devemos prestar atenção nisso. A intimidade se fixa com local e critério de verdade e ao mesmo tempo se sexualiza. Assim, estudar a subjetividade moderna, mais tarde, mostra ser algo que  coaduna com o estudo da sexualidade.

Claro, Foucault percebeu isso como ninguém. No seu trabalho de deixar de lado o sujeito como fundamento da história para, em troca, fazer a própria história da subjetividade, ele procurou o fio condutor do sexo. No contraponto a ele, na via em que a intimidade ganha um entendimento maior que o moderno, de modo que não se submete à sinonímia com sexo, surge Sloterdijk. Seu projeto é bem mais amplo que o de Foucault.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 15/10/2016

(1) Ensaios. São Paulo: Cia das Letras, 2009, pp. 346-63.

(2) Confissões. Bauru: Edipro, 2008, pp. 296-97.

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2 Responses “Intimidade e verdade: Montaigne e Rousseau”

  1. Alan
    15/10/2016 at 19:35

    No último parágrafo, não se poderia trocar “Foucault” por “Freud”?

    A intimidade como locus sexualizado da verdade não seria uma concepção mais freudiana?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo