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25/07/2017

A interinidade de Temer pode ajudar a diminuir o patrulhamento da esquerda na universidade?


A universidade brasileira não é dominada pela esquerda, como vocifera a direita. Está longe disso. Mas os cursos de ciências humanas e até mesmo de filosofia são, e num sentido pouco louvável. Em alguns lugares a incapacidade cognitiva chegou ao extremo. Fiquei sabendo que há grupos organizando a “resistência ao golpe”. Sim! Sério, professores que imaginávamos bem formados participando de reuniões que lembram as DCEs dos anos 60 e 70, procurando “renovar a esquerda e resistir ao golpe”. Delírio total. Infantilização soberba. 

Vão resistir de modo a falar, mais tarde, nos seus currículos, que estiveram “na luta armada” – armada de slogan estúpido! E vão renovar o pensamento de esquerda lendo Zizek! Sim, podem rir, é isso que está ocorrendo. E nem queira saber quem está nessa, para não se decepcionar com tudo e de vez.

Vai passar? Novo governo, novos tempos? Isso ajudará a novos pensadores virem para o Brasil? Ajudará um pouco o mercado editorial dar sossego nas nossas cabeças e parar com a  avalanche de Teoria Crítica e o repeteco das sua vulgatas, aquelas das do tipo feitas por Bauman? Se pararmos com isso, os professores não militantes poderão voltar a dar aula de Durkheim e Weber sem tê-los de chamar de bandidos (o mocinho é Marx)? Será que finalmente Foucault poderá ser lido  livre do marxismo de boteco e do culto à pobreza? Será que finalmente teremos chance de conhecer Sloterdijk, Rorty, Fukuyama e, enfim, ler Spinosa sem que ele seja a passagem para o materialismo que, depois, deverá alimentar o marxismo daqueles marxianos que nunca conseguiram sequer terminar o Manifesto Comunista em quadrinhos? Será que poderemos ter, de novo, o bom professor querendo ensinar os clássicos, sem tê-los de enquadrar entre “conservadores”, “reacionários”, “reformistas” e “revolucionários”? Será que poderemos de novo ter descrições dos vários modos de feminismo, e não apenas a versão que faz “a luta contra o patriarcado opressor” e que, enfim, quer colocar uniforme e coturno nas mulheres? Será que vamos ter respeito `as minorias sem fazer de grupos ligados a elas algo como a imitação do fascio?

Não sei. Mas o importante é que nossa sociedade possa respirar. De 1985 até 2003 tivemos a hegemonia da visão de esquerda do PT no âmbito da oposição. De 2003 até uns dois anos atrás, tivemos a quase hegemonia da visão do PT no âmbito da situação. Muito tempo de discurso quase único. Todo o resto não podia abrir a boca, pois era “neoliberalismo” e, mais recentemente, “fascismo”. Em torno disso veio o não estudo. Muitos alunos e professores pararam de estudar. Afinal, quem leva o estudo a sério em tempos em que há professores que dividem o saber entre o que se produz em um visão ou de esquerda ou de direita? A juventude perdeu o gosto pela conversação filosófica, passou a ficar apenas com a discussão política. Ora, discussão política não educa ninguém.

Agora, deslocando o PT do poder e o tendo na berlinda, uma vez que a máscara dessa esquerda caiu, será que poderemos ter um respiradouro que deverá se refletir na academia? Pode ser. Os professores que gostam dos clássicos e querem que seus alunos aprendam a ser inteligentes e honestos antes de ser de esquerda (ou de direita), devem estar atentos para isso. É o momento.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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8 Responses “A interinidade de Temer pode ajudar a diminuir o patrulhamento da esquerda na universidade?”

  1. Janaina
    26/05/2016 at 23:40

    Parabéns pela ótima matéria!
    Compartilho de sua opinião. Tenho 18 anos, acabei de entrar na universidade e cai de paraquedas numa greve, participei de assembléia e tudo, mas percebi exatamente tudo que o senhor relata, por ajuda de amigos e de meu pai. Eu entrei na UERJ, temo pela minha formação e pelo tipo de profissional que está saindo da universidade pública. A UERJ é uma das mais politizadas do rio e eu descobri que só existem duas pessoas que pensam como eu, o que é absurdo… Não, por ter a obrigação de ter que concordar comigo, mas eu percebi que aquilo que procuro, ser cientista, ser alguém que estuda algo não pela suas influências politica, mas sim como conhecimento, tem sido algo raro. Pior foi o diálogo que tive rapidamente com algumas pessoas, disse que não queria ter nenhum posicionamento, já que ninguém me representava na greve (e na formação acadêmica)… A resposta foi: ”Filha, você tá fazendo ciências sociais, você vai ter que se posicionar”. Mas é exatamente o contrário, alguém comprometido com a ciência, pode se posicionar, mas não a ponto daquilo influenciar em tudo de forma massiva no que se produz e estuda. Eu estou querendo ir pra UFRJ, mas eu percebi que é só mais do mesmo. E agora? O que fazer? Eu nem estudei direito e já me sinto preocupada com a minha formação. Sei que tem outras pessoas que também pensam assim, mas parece que não consigo encontrá-las!

    • 27/05/2016 at 13:23

      Boa Janaina, pensar e ser livre para tal é o melhor caminho.

  2. Diego
    25/04/2016 at 03:21

    O pior é que vão te enquadrar com o novo jargão, “isentão”. Cada hora surge um novo.

  3. José Rissoli
    25/04/2016 at 03:02

    Toda a sequência dos fatos nos faz recordar a revolução francesa…
    Apresentaram propostas utópicas ao povo.
    Usaram o povo pra chegar ao poder.
    Esqueceram o povo e abraçaram o poder corrompendo sua moral.
    Agora como pode alguém lutar por um movimento que não saiu dos palanques onde os líderes são ligados a corrupção e favorecimento de minorias da elite ?

  4. João Paulo Matheus
    24/04/2016 at 20:25

    Professor, o título da matéria assustou. Compreendi o conteúdo no primeiro parágrafo. Organizar resistência ao golpe é patético. Abraço

  5. André
    24/04/2016 at 19:43

    Aonde os professores estão se organizando para a “luta contra o golpe”?

    É verdade isso Paulo?

    • 24/04/2016 at 19:45

      André, fiquei estarrecido, mas há vários grupos de gente que perdeu a noção de tudo.

    • Orquideia
      24/04/2016 at 22:45

      Arara! [gíria inventada por mim]

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