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25/07/2017

A impotência é a vitamina de Bolsonaro. O fantasma de Ulstra.


A conversa que tivemos, Fran  e eu, com a professora da USP Janaína Paschoal, autora do pedido de Impeachment de Dilma, explica bem o que se passa no crescimento da aparente popularidade de Bolsonaro – mostrada na sua página na Internet – após seu voto no Congresso dito como homenagem ao coronel torturador Brilhante Ustra, morto o ano passado, e que viveu sempre em liberdade. 

É que, todos nós, ficamos indignados que alguém tenha a popularidade aumentada ao votar em homenagem a um covarde. Por que um covarde, ou seja, um torturador de mulheres e crianças, é repentinamente um herói para muitos? É mesmo um herói? Ou Bolsonaro é apenas um instrumento de raiva do anti-petismo menos sofisticado?

A história de Janaína explica tudo.

Conversando com Janaína ela explicou que, desde 2013, participava dos movimentos de protesto contra o governo e que, por esses movimentos serem sem organizadores formais, quando todos iam para casa, ficava a sensação de frustração, o sentimento de que aquilo “não virava nada”. Então, ela reuniu sua família e perguntou a todos se eles a apoiariam caso ela, como advogada, entrasse com um pedido de Impeachment. Obtido um sim, e todos sabendo da barra pesada que seria, Janaína começou a empreitada. Nesse processo, vieram também, via USP, Miguel Reale e Hélio Bicudo. A ideia inicialmente era dar um instrumento para as pessoas individualizadas que iam ao protesto, algo mais concreto para elas adquirirem esperança.

É interessante que os partidos não tivessem moral para assim fazer, e que uma pessoa apartidária tivesse legitimidade para tal. E mais significativo ainda é que, a partir daí, foi claro que o protagonismo do movimento foi para a classe média representadas por pessoas como a própria Janaína, professora que se fez pelo poder da universidade pública e da educação, e afastando um pouco os que pediam “intervenção militar”. Bastou surgir um instrumento de oposição na base da lei e os não-democráticos perderam o pé. Ficaram em segundo plano. Esse foi o feito de Janaína. Para mim, um grande feito.

Agora, muitas pessoas não entendem o jogo democrático. Não possuem uma escolarização pesada, como Janaína, para ter confiança no próprio taco. Então, precisam se vingar do PT, pelos seus roubos, através de uma força externa. Querem um mão vingadora vinda do Céu, e se vier do Inferno, pouco importa. Nem todas essas pessoas são efetivamente a favor da tortura, mas sentiram em Bolsonaro, com a sua ousadia programada e matreira de chamar à cena o torturador do tempo de Dilma na prisão, como uma forma de ferir o PT. Essas pessoas querem ferir inclusive, talvez, todo o mundo, a humanidade, por conta da impotência em que estão. A impotência, sabemos, é um instrumento perigoso.

Toda vez que os canais políticos de um grupo social são interrompidos, surge o ímpeto para a aventura da violência simbólica, mas não necessariamente para a violência física. Depois a raiva passa, e se os canais são reabertos e o objeto da raiva vai embora, uma boa parte dessas pessoas retorna ao jogo político normal e, inclusive, ao juízo mais razoável que diz que um torturador é um covarde, não um herói.

Claro que ajuda bem, para que isso ocorra, que existam educadores sociais, intelectuais, falando das vantagens da política liberal, para valores humanitários, para a ideia da covardia como ideia negativa, para a questão da liberdade de expressão e igualdade de oportunidades etc. Claro! Mas, fundamentalmente, é necessário que as pessoas tenham canais políticos institucionais, que elas não se sintam impotentes, postas na parede por um poder que monopoliza o direito de expor verdades. O PT fechou canais, e o fez de modo sorrateiro, de modo tipicamente contemporâneo, com um discurso aparentemente democrático. E isso torna as pessoas mais impotentes e com mais vontade de vingança. Mas, isso passa. Com alternância no poder, isso passa.

O PT vai tentar fazer isso não passar. Mais que ninguém, o PT precisa do fantasma de Ulstra e da boca torta de Bolsonaro, para ainda parecer a alguns um partido de esquerda e não apenas uma quadrilha. Mas isso é temporário, de vida curta daqui para diante. PT e Bolsonaro já deram o tempo, já se esgotaram como se esgotou a ideia de “classe trabalhadora” ou “fascismo” ou “comunismo” etc. Vão arrastar correntes por aí, e junto ainda terão professores universitários de formação intelectual fraca, cabeças que não conseguem ler novas coisas e não se dão conta de como o mundo está andando e o que se conversa “lá fora”.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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11 Responses “A impotência é a vitamina de Bolsonaro. O fantasma de Ulstra.”

  1. Ismael
    22/04/2016 at 10:38

    A Professora Janaína realizou um feito. Uma cidadã, professora universitária, por meios legítimos, transformou o sentimento da população em algo efetivo. Foi um momento histórico… A resposta à sociedade civil veio da própria sociedade civil. E veja só, de uma membra da universidade. Local, onde, no senso comum, o apoio ao governo é inquestionável em todas as instâncias.

    Ps. É surpreendente como alguns utilizam o Bolsonaro e o PT como instrumentos descartáveis, a despeito de eles ( PT e Bolsonaro), oporem-se moralmente ao que eles mesmos aprovam. Parecem alegóricas de carnaval, quando terminar o desfile…

  2. Ferdnand
    21/04/2016 at 16:45

    O PT não vai desaparecer, professor. Vai sobreviver, durante um tempo, como uma espécie de PSTU, mas ao final de um certo tempo irá ganhar uma prefeitura aqui, outra acolá, depois elegerá um deputado de destaque, um senador… até voltar a representar uma força importante na politica brsileira. O senhor esta superestimando o momento que vivemos como uma grande mudança, mas não é. Por isso o PT vai sobreviver. Sobretudo porque os partidos continuaram os mesmo e o jogo politico, passado um breve instante de retração, voltará a ser como sempre foi. Só um exemplo: o PSDB tem se pronunciado radicalmente contrario a criação de mais impostos, mas daqui há pouco, já agora, no governo Temer ou seja lá de quem for, logo logo estará defendendo a volta da CPMF como “forma de resolver a crise”. É por estas e outras que o PT não irá desaparecer, entendeu?

    • 21/04/2016 at 17:42

      Ferdand, sim, você está certo. Mas virar o PSTU é desaparecer.

  3. 21/04/2016 at 15:48

    É sempre bom ler textos coerentes, em que opiniões razoáveis e explicações realistas substituem a lobotomia e a incitação aos ânimos. Pena que é cada vez mais raro de se ler algo assim por aí.

  4. Guilherme Picolo
    21/04/2016 at 12:08

    Eu sempre me pergunto se o Bolsonaro leva a sério aquilo que diz. Não acho crível. A retórica dele pode ganhar tom de catarse para o eleitor ignorante que o apoia, mas para ele próprio não deve passar de instrumento de marketing político, que no fim garante um eleitorado fiel e a reeleição ao cargo de deputado indefinidamente.

    O eleitor do Bolsonaro é do mesmo tipo que o do Maluf: é o fundamentalista avesso ao debate, preguiçoso mental que busca soluções mágicas e age, na política, como torcedor de time de futebol.

    • 21/04/2016 at 17:47

      Picolo, ele leva a sério. Só que ele aprendeu que dá para fazer um pouco mais de auê.

    • Marcos antoniolli
      28/12/2016 at 00:24

      Bolsonaro presidente.
      Aceita.

  5. Bruno
    20/04/2016 at 22:40

    Bolsonaro “devolveu” o favor que o PT fez pra ele.

    A corrupção do partido fez com que ele ganhasse moral diante da sociedade brasileira, e o seu discurso, no momento da votação do impeachment, fez com que quase acreditássemos na história do “golpe”.

    • 21/04/2016 at 07:53

      Eles vão trocar favores ainda, durante um tempo, e logo desaparecerão.

  6. Beto
    20/04/2016 at 19:27

    A impotência é o contraponto para a vontade de potência.

    Em toda América Latina os torturados e criminosos dos regimes militares foram julgados. No Brasil, com a lei da anistia de 1979, ambos os lados foram anistiados, tiveram seus crimes perdoados.

    • 20/04/2016 at 19:29

      Beto, eu fui preso duas vezes pela ditadura militar. Mas eu não sou ressentido ou burro.

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