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26/09/2017

Impeachment é sempre político, não há “poder moderador”


Muitos de nós se esquece que o Império ainda sobrevive em todo nosso modo de ser, pois ele terminou não faz muito tempo. Estamos sempre buscando o “poder moderador” do Imperador. Alguém deve nos salvar de nossas própria peripécias – clamamos!

Mas o problema é até mais profundo. O pensamento subjacente que rege nossa modernidade é, segundo Heidegger, a “metafísica da presença”. Ou seja, ser é o ser presente, de modo que quanto mais algo se faz presente, ou seja, permanece, mais atribuímos a ele a condição daquilo que é. Assim, “o que é” (em oposição ao que não é e, portanto, nada vale), que logo deriva para as noções de real e verdade, é o que não se altera, o que paira acima de todos os conflitos e mudanças. Desse modo, temos a impressão, não só pela memória do poder moderador do Império, mas pela mentalidade ocidental calçada nessa metafísica, que há se ter um elemento fora do caos. O não-mutável está para reger o que de fato é a existência, pensamos nós.

Só um deus pode nos salvar, disse Heidegger. Mas, ele sabia bem, que Nietzsche tinha dito algo plausível: Deus está morto. Não há o tertius sem pele humana para tirar os humanos do que fazem. Os inventores da democracia liberal, crentes ou não, sabiam disso.

A democracia liberal é a terra dos conflitos. Ela é um campo político e nela, no que é concernente a ela, tudo é político. Ela institui regras que podem colaborar na política, que possuem elementos ditos técnicos, mas ela própria é um desmentido prático, cotidiano, não só do poder moderador, mas, mais que isso, da “metafísica da presença”. Sua lei é a de que aquilo que desaparece ou que não é estável também tem seu direito de ser considerado válido.

O caso do Impeachment mostra bem isso: ele precisa para ser invocado de um elemento de “crime administrativo” ou coisa parecida, mas ele não é julgado por nenhum deus ou nenhum tribunal que, mesmo humano, seja o STF, que poderia se passar por exclusivamente técnico. Um presidente é eleito pelo povo e só pode ser tirado pelos representantes do povo. Assim é nossa democracia. Não adianta um Wagner Moura ou outros recém auto-empossados cientistas políticos apelarem para a conversa de que há um tipo de golpe no Impeachment. Ele sempre será visto como golpe por quem sofre o Impeachment. Pois quem sofre o Impeachment tenta politizar a ação do Impeachment e despolitizar sua própria ação. Mas, nesse caso, a ação que faz com que se peça o Impeachment e o processo pelo qual se julga o Impeachment, ambos, como estão nas nossa leis, são políticos. De modo que o crime pelo qual se pede o Impeachment vem junto com o contexto geral no qual se envolveu o presidente a ser impedido.

Dilma está impedida pelo que fez e pelo que não fez. Fez má política. E isso, de julgá-la por tal, é legítimo. Legítimo em nosso país e na maneira que fizemos nossa democracia nos termos da lei que temos. Toda maldade política está em curso no processo de julgar um impedimento, e não há como tirá-la do processo, ela é o processo, assim como os possíveis acertos.

Paulo Ghiraldelli 58, filósofo.

Clique e veja o vídeo sobre o assunto: Resposta ao Wagner Moura

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21 Responses “Impeachment é sempre político, não há “poder moderador””

  1. Otto Triebe de Mello
    09/05/2016 at 13:38

    Julgar a Dilma porque ela fez má política? Nem está previsto isso na Constituição. Vivendo e aprendendo…rsrsrs

    • 09/05/2016 at 16:37

      Otto você pode viver anos, séculos, não vai aprender.

    • Otto Triebe de Mello
      15/06/2016 at 15:11

      Eu nunca vou aprender, o outro nao pisou no planet terra, outro nao tem vergonha, mais um na frente ‘e burro. Somente a sumidade Ghiraldelli tem razao, ‘e de matar de rir…

    • 15/06/2016 at 18:53

      Otto você só nota os fracassados, pois eles tem a ver com você, não consegue ler os que dão interlocução. É compreensível no seu caso. Você sempre aparece para gemer.

  2. Samuel
    31/03/2016 at 16:58

    O problemas da votação do Impeachment é que os deputados votantes que tiveram seus nomes citados na lava Jato fossem impedidos de votar e que o presidente da câmara também não pudesse conduzir o julgamento. Por que fica algo como: o errado julgando o errado dos outros tendo feito algo bem pior que as pedaladas fiscais.

    • 01/04/2016 at 12:51

      Samuel acho que você ainda não pisou na Terra.

  3. LMC
    31/03/2016 at 14:00

    Inspirado na música Nome Aos Bois
    dos Titãs,fiz um novo Nome Aos Bois
    dos dias de hoje aos puxa-sacos
    da hora:

    Mino Carta
    Paulo Henrique Amorim
    Tereza Cruvinel
    Paulo Moreira Leite
    Marilena Chauí
    Vladimir Safatle
    Luiz Nassif
    Emir Sader
    Wagner Moura
    Jean Wyllys
    Rafael Colombo
    Marcelo Rubens Paiva
    Bob Fernandes
    Flávio Gomes
    Fernando Morais
    Guilherme Boulos
    Chico Buarque
    Fernando Haddad
    Leonardo Boff
    Gabriel Chalita

    • Orquideia
      31/03/2016 at 23:28

      Gente!
      Até o Mino Carta?
      Mas ele não era contra o Lula?

    • LMC
      01/04/2016 at 14:50

      Ele sempre foi amigo do Lula,
      desde os anos 80,pelo menos.

  4. João Paulo
    31/03/2016 at 13:03

    Paulo,

    Eu me surpreendi com o fato de essa ideia de golpe ter ganho tantos adeptos. Não imaginei que intelectuais como Safatle, Marilena Chauí, defenderiam tal ideia. Ser contra o impeachment, tudo bem. Eu mesmo não sou a favor, apenas acho plausível, previsto na constituição, etc. Mas daí a transformar todo esse processo em golpe, acho lamentável. Lamentável também o Marco Aurélio Mello defendendo uma intervenção do STF neste processo.

    • 31/03/2016 at 13:06

      João Paulo, você ainda não sabia que Safatle é burro?

    • João Paulo
      01/04/2016 at 08:50

      Demorei a perceber, mas, infelizmente é verdade. Ele estudou tanto para tirar conclusões que muitos jovens (equivocados), que com pouco estudo ou estudo de má qualidade, tiram.

    • Tony Bocão
      01/04/2016 at 10:06

      Seria este o argumento por trás da Presidenta modificar um pouco a retórica. Agora não é mais “Impeachment é golpe!”, mas sim, “Impeachment sem crime de responsabilidade é golpe!” ?

  5. Alisson
    31/03/2016 at 10:15

    Paulo, deu agora até para o célebre “educador anarquista” da Unicamp defender o PT, e ser a favor da lei!

    Não sei se eu choro ou se dou risada!

    É muita picaretagem nesse Brazil!

  6. Henrique
    31/03/2016 at 09:39

    Hoje o povo vai parar as ruas defender a democracia, contra o golpe.

    Vamos todos!

    http://www.conversaafiada.com.br/brasil/atos-contra-o-golpe-no-brasil-e-pelo-mundo

    • 31/03/2016 at 12:53

      Henrique, site do Amorim? Pago pelo PT, igual ao do Nassif? Não se envergonha?

    • Orquideia
      31/03/2016 at 23:26

      Mais um site do qual quero distância.[a internet anda difícil ultimamente]

      [me referi ao blog do Amorim]

  7. Orquideia
    31/03/2016 at 07:36

    Para alguns sites da internet,o impeachmeant é um “golpe orquestrado pela mídia televisiva” e o povo ´”está sendo manipulado” a incentivá-lo.
    Acham que estamos sendo enganados,e se referem a nós como crianças cuja vontade não deve ser levada em consideração.
    [nem crianças são tratadas assim mais.]
    Querem falar que a má política feita é uma política menos má do que sua tentativa de correção.
    Somos uns burros_é o que expressam nas entrelinhas.

    Pior que merecemos a pecha,pois no passado “remoto” elegemos esses políticos.

    • 31/03/2016 at 09:28

      Orquídea, a palavra “orquestrada” denota, entre eles, o lugar comum de sempre. O limite do vocabulário mostra o limite das ideias.

  8. Cristine
    30/03/2016 at 21:16

    Querido Paulo:

    É uma verdadeira honra vir ao teu blog, seus artigos trazem a realidade nua e crua de uma perspectiva totalmente nova, contudo, a maioria ainda insiste na ignorância e se recusam a adquirir novos conhecimentos, o que na minha opinião é ser tão conservador e ridículo quanto aqueles que praticam o anacronismo inconscientemente e que querem voltar com as ideologias da idade média. Você é um dos professores mais inteligentes que eu tenho o prazer de conhecer nessa vida. Meus parabéns, gostaria que mais pessoas acompanhassem seu blog a fim de tentarem abrir suas cabeças, abraços da sua leitora e admiradora – Cristine Rodrigues Fernandes Santos

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