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20/09/2019

Imagem e infância: a teoria do mata-borrão


No século XIX a imagem ainda não era vilã. O texto sim. Ao final do século a aristocracia lia e tinha apreço pelos livros. O operariado tinha lá a sua literatura. Mas com a classe média, a burguesia, as coisas eram complicadas. 

Pressionada dos dois lados da pirâmide social e envolvida com as atividades industriais, comerciais e o acúmulo de bens, a classe média gerou uma moral favorecedora da disciplina do trabalho. Tudo deveria ser feito de modo a se dar bem em um lugar relativamente hostil aos setores sociais: o mercado. Nasceu com a burguesia certa “moralidade” a respeito do livro, fonte de entretenimento, prazer e, portanto, “horas perdidas” e “vida de sonhos”. A libertinagem da aristocracia e a bebedeira do operariado eram vistos por tais setores médios como a degradação par excellence. Assim, o livro que não fosse o livro de escola ou a cartilha, parecia ter poderes fantásticos e malévolos de “desestruturar a família”, conforme a sua mensagem e, talvez, por ele mesmo, como solicitador do ócio. As moças entraram o século XX recebendo duras determinações do que poderiam e não poderiam ler, muito mais que as crianças. Aliás, elas eram as crianças!

Todavia, no século XX o livro de texto foi crescentemente desbancado pela imagem quanto ao grau de periculosidade oferecida à “família cristã”. Qualquer imagem se tornou mais perigosa que o texto subversivo. Quando surgiram as histórias em quadrinhos, toda a sociedade, agora já comandada pela burguesia em costumes e regras, se revoltou. Em pouco tempo as crianças já não estariam mais conseguindo ler, e iriam se tornar animais, só sabendo “ver figuras” – é o que os professores, padres, advogados, juízes e senhoras aparentemente virgens diziam. Literatos famosos os acompanharam nisso. Até intelectuais tidos como inteligentes falaram tal coisa. Após as histórias em quadrinhos terem se popularizado nos Estados Unidos, ocorreu uma reação de vários setores americanos contra tais escritos. Eram os anos cinquenta. Jovens foram incentivados a orgulhosamente queimarem “gibis”. A acusação era a mesma que certos grupos reacionários de hoje (não raro ajudados pela esquerda!) fazem em relação à TV. Os comics seriam veículos de “luxúria”, “terror” e, enfim, responsáveis pelo “comportamento de gang” então “exibida pela juventude”. Os quadrinhos pudicos da época eram vistos como veículos de “sexo e violência” que iriam fatalmente “deseducar toda a juventude”. Iriam por a juventude “na perdição”.

O tempo passou e a coisa se repetiu com a imagem de TV. Agora, em plena época de Internet, em um mundo de profusão de imagens, há os que, em desespero e anacronicamente, estão preocupados com alguma novela! Em parte, estamos sob o jugo da demonização da imagem no momento em que a imagem reina. Estamos nisso, às vezes tropeçando em um moralismo barato, agora segundo um movimento identificado não mais a uma classe social, mas como o que é endossado pelos menos escolarizados ou os escolarizados de modo fraco. Trata-se daquelas pessoas que herdaram o que sobrou do moralismo esfarrapado e rasteiro da antiga classe média, que era então a burguesia. Essas pessoas pareciam não existir mais, mas graças ao que é a profusão de imagens associadas à Internet e, dentro dela, às redes sociais, elas puderam se mostrar presentes. Elas existiam sim!

A restrição à TV e aos aparatos de produção e apresentação de imagens, hoje em dia, não é mais classista. É preferível falar hoje, ao identificar quem indica restrições, em pessoas com menor cultura ou pessoas que querem se diferenciar falando que são cultas, que são críticas porque não veem TV, mas que, obviamente, chegam a não entender o palco urbano da TV. Junto desse tipo de “crítico” está aquela pessoa que herdou os preconceitos de todo tipo produzidos pela classe média do passado ou burguesia. São os deslocados no tempo. Podem até existir em grande quantidade, mesmo em certos países desenvolvidos. Votam nos candidatos mais conservadores, falam contra direitos de minorias e direitos humanos, inventam fantasmas como inimigos (“o comunismo” em alguns lugares, ainda; ou o “terror”; ou “o estrangeiro”) e, enfim, reproduzem o velho slogan de que “a boa sociedade” é a “dos homens de bem” e da “família cristã”. Para essas pessoas a imagem é vilã.

A imagem é o demônio para a criança, diz esse pessoal. É como se a criança não tivesse nenhum filtro semântico. É como se a imagem (associada ou não ao som) tivesse a capacidade de se mostrar para a criança do mesmo modo que ela se mostra para o adulto. Essa parcela menos escolarizada ou má escolarizada, que pensa assim, não entende a infância; vê a infância segundo a velha teoria do homúnculo, pré-Rousseau. Para tais grupos reacionários, as crianças são como pessoas adultas, apenas menores e mais fracas, são como as mocinhas eram para a burguesia passada. Segundo esse arcaísmo, se apresentadas a uma dançarina nua na TV, as crianças imediatamente olhariam para tal moça e guardariam aquela imagem, e então a imitariam para todo o sempre. Ainda segundo tal pensamento, a moça dançarina nada seria que não uma prostituta, e essa criança que a observou, antes mesmo da adolescência já estaria “perdida” no “mundo do sexo, das drogas, da impureza moral e do crime, o mundo de demônio”.

A imagem domina o século XX e surge para esse pessoal conservador que, enfim, tem menos condições de compreensão das relações entre meios de comunicação e infância, como o elemento desagregador da “família tradicional”. Essa família tradicional que, na verdade, não existe, não teria problemas se não fossem as imagens; essa família está com problemas por estarem sendo obrigadas (!) a olhar para as novelas, e as crianças se tornam “pecaminosas e luxuriosas” segundo o padrão das novelas adrede preparadas para tornarem o mundo um lugar “sem Deus”. Inicialmente subsidiária disso, agora a Internet também estaria nesse papel de Anti-cristo, para a direita política, e do maligno Capital, para a esquerda política.

O interessante que aí nessa visão esdrúxula casam-se duas formas arcaicas de compreensão das coisas, uma relativa à infância e outra sobre a imagem. É a visão do mata-borrão. A criança é tomada como o mata-borrão e a imagem a tinta. A mancha é feita sem que se possa impedir, quando um toca o outro. Eis então que nasce aí uma infância enodoada, manipulada e deseducada. Pensa-se assim segundo uma versão da mentalidade da velha classe média (a burguesia), mas agora sem fixação em um grupo social determinado. É uma vitória do passado não sobre o presente, mas sobre o futuro. E é algo tosco.

Paulo Ghiraldelli Jr., é filósofo e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalha como escritor e cartunista e tem presença constante na mídia imprensa, falada e televisiva. É diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). Atua junto com Francielle Maria Chies no programa Hora da Coruja, FLIX TV. É professor de filosofia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

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6 Responses “Imagem e infância: a teoria do mata-borrão”

  1. John
    10/04/2015 at 11:53

    Grande Paulo Ghiraldeli, impecável o seu texto, parabéns!

  2. Cesar Marques - RJ
    10/04/2015 at 01:52

    E a extrema-direita burrona já está ameaçando cuspir na sua cara: https://www.youtube.com/watch?t=109&v=voXbLqKyEFs&hc_location=ufi

    • 10/04/2015 at 04:16

      CEsar esse pessoal late e não morde, são estúpidos demais. É algo que o retardado mental ao lado deles dá risada.

    • José Silva
      10/04/2015 at 15:31

      A inteligência é obscena e pornográfica, por isso incomoda os moralistas de plantão.

    • 10/04/2015 at 15:42

      José silva a inteligência é um pouco obscena mesmo.

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