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01/05/2017

A imagem de nós mesmos e os fios condutores da filosofia de Peter Sloterdijk


Como caracterizar de modo sucinto a filosofia de Sloterdijk?

O Humanismo nos levava à pergunta “o que é o homem?”. E tinha já respostas prontas, desde a bíblica, de que o homem é feito à semelhança de Deus, até a de Aristóteles, a do homem como animal racional. Kant colocou várias perguntas para a filosofia, mas disse que todas elas podiam ser resumidas a uma só: o que é o homem?

A filosofia contemporânea tem mostrado o quanto uma visão do Homem, com o maiúsculo “H”, já não resolve muita coisa, uma vez que as metanarrativas todas, ligadas ao Humanismo, já não são um credo comum entre os intelectuais. A pergunta de Kant ficou no âmbito dos questionamentos de um senso comum escolarizado, mas sem grande envergadura filosófica. Assim, quando o filósofo alemão Peter Sloterdijk fala sobre o homem, não devemos acreditar que ele está simplesmente respondo questões típicas do século XVIII, o dos Enciclopedistas. Ele está interessado na imagem que fazemos de nós mesmos em contraste com uma nova imagem que nos poderia ser mais interessante. Esse desvio filosófico é proposital. Mas, então, qual essa imagem?

Ela se faz a partir de três fios. Primeiro: somos duplos, mas não vemos assim, não nos vemos como di-víduos, mas como indivíduos pertencentes a um “clube liberal”. Segundo: somos timóticos, mas não nos vemos assim, mas como modernos cuja psicologia deve ser descrita unicamente por razão e paixão. Terceiro: somos acrobatas, mas se nos pegamos assim, fugimos porque acreditamos que repetir exercícios não deveria fazer parte de nós.

Seguindo essa dinâmica da descrição melhor contra a descrição aceita, corre o leito da filosofia de Sloterdijk.

No primeiro caso, o que está em jogo é que Sloterdijk não vê como possível nossa solidariedade se não nos tomamos como quem vem ao mundo já em ressonância com outro, e isso fazemos porque ontogeneticamente e filogeneticamente somos mesmo duplos. Nossa subjetividade não é a do indivíduo, mas do divíduo, do duplo. Nossa subjetividade se faz a partir de esferas de ressonância, cujo primeiro modelo e o feto e a placenta, o Aqui com o seu Com, que imprime em nós a marca sinestética da companhia e, em seguida a marca sinestética-sonora da voz da mãe, cuidadosamente separada, ainda no útero, dos outros sons do corpo. Não somos seres que se socializam e, então, se tornam intersubjetivos como quem adquire a capacidade de solidariedade, mas somos desde sempre duplos que, a partir de um momento, por conta da ideologia liberal moderna, perdem essa noção que os antigos tinham bem, a de sermos seres invadidos, seres de companhia. Só com a modernidade a placenta se torna um órgão descartável e só com a modernidade os duplos vários desaparecem de nossa cultura (anjos da guarda, amigos imaginários e daimons). Não percebemos que, no interior do apartamento single, nosso ápice de conquista moderna, estamos cercados de espelho, TV e, agora, da Internet, como que na busca do parceiro desaparecido.

No segundo caso, é importante ressaltar que, como Hegel viu, somos seres que buscam reconhecimento e, para tal, cultivamos o orgulho dos feitos bravios, dos feitos de cuidado, da capacidade de sermos fundadores de boas coisas e curadores de arte e de instituições várias, de sermos soldados com patriotismo, ou de sermos ricos que fazem doações. Somos antes que eróticos, timóticos. Isto é, não temos uma psicologia que comporta só duas almas, a da razão e a dos apetites, mas também temos o que vai no peito, o thymos, o órgão da ira, da fúria, da identidade. A modernidade perdeu esse órgão, fez nascer uma psicologia sem um dos cavalos de Platão, e reduziu o homem ao composto do conflito dual entre razão e paixão. Desse modo, colocou para o lado da paixão e, portanto, para o lado inexoravelmente irracional, justamente o que nos faz ter orgulho. O homem moderno não se vê como tendo orgulho e, se se vê assim, logo é acusado de ser presunçoso e arrogante. O liberalismo pede que sejamos competidores e, no entanto, também pede que sejamos seres da paz – ambas as coisas essenciais para uma sociedade de mercado. Essa paz às vezes se faz com a retirada do thymos de nossa descrição, pois ele é o órgão que nos faz mover com energia que parece a da paixão, mas não é nada cega, pode ser guiada pela razão. Nossa identidade e nosso orgulho é parte nossa que a calmaria moderna não pode reconhecer.

No terceiro caso, Sloterdijk lembra que “onde procuramos o homens, encontramos acrobatas”. Ou seja, a religião não é dona do ascetismo, mas é o ascetismo que se faz  basicamente presente no homem, por razões de sua própria evolução, como que uma sua necessidade de se mirar nos deuses e se aperfeiçoar. A religião é um caso de ascetismo. O ascetismo é maior. Ele dá o rumo para o homem. O homem visto pela sociologia é desenhado pelo trabalho e pela linguagem, mas esquecemos que ele é fundamentalmente um ser ascético, guiado e construído por exercícios. O homem faz amanhã o que fez hoje, mas melhor, e esta sucessivamente em exercícios e repetições. O individualismo moderno muitas vezes coloca o homem nessa situação de exercício, mas tirando-lhe o sentido deste acaba por contrapor o exercício à criatividade. Na verdade, a criatividade do homem está ligada ao exercício. O homem faz exercício para se esmerar e passar patamares. Não se vendo assim, toma seu exercitar como o que deve ser tirado do seu horizonte, o que é completamente impossível. Ser acrobata é da condição humana.

Essas características que contrapõem imagens do que somos ganha, para que a história se mova, um elemento dinâmico. Seria então um quarto caso: somos seres que não gostamos de nos ver bastardos, mas nossa história existe pela bastardia. Temos de romper com pais, reais ou simbólicos, para criar o novo. A história depende de sermos sempre como São Francisco, aquele que se desnudou para encontrar Deus, negando então estar filiado ao pai biológico, que lhe queria sujeitar por meio da herança.

Aprofundando-nos em cada um desses quatro casos, e acoplando a isso a visão de Sloterdijk da sociedade da abundância (Galbraith) e suas consequências, temos a quadro geral da modernidade de Sloterdijk, ao mesmo tempo sua descrição de possibilidades, sua filosofia. Uma forma não metafísica de fazer filosofia, mas não simplesmente empírica, e sim fantasiosa. “Reconstrucionismo fantástico”, diz o próprio Sloterdijk. Algo que não vejo em nada contradizendo as linhas gerais de um Derrida e de um Richard Rorty.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo

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5 Responses “A imagem de nós mesmos e os fios condutores da filosofia de Peter Sloterdijk”

  1. tadeu de jesus
    17/08/2016 at 22:36

    Muito obrigado professor, precisava ler sobre esse assunto, mas de uma excelência no assunto, que é voce. O texto foi sucinto e caracterizou mesmo. Tem professores que desejam fazer o intercambio das filosofias de Kant com de Sloterdijk. Eu, particularmente, evitei fazer isso na minha monografia, Faculdade de Filosofia, e me dei bem.

    • 18/08/2016 at 12:25

      Sloterdijk é como Rorty uma enciclopédia de temas.

  2. Prezado Filósofo Paulo: Ler-te é uma magia que envolve todos os sentidos, a gente vai se identificando com seu texto e aprendendo sobre o ser humano. Serei sua fiel leitora, risos. Obrigada pela partilha. Luiza De Marillac BessaLuna Michel

  3. 02/06/2016 at 01:16

    Muito bom Paulo. Isso sim é acrobacia!

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Filósofo