Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

23/03/2017

A imagem do corpo como antonomásia


Do que fala a imagem? A imagem do corpo ou o corpo como imagem, para onde nos encaminha?

Vivemos sob a cultura da imagem. É lugar comum dizer essa verdade. Apesar de aprendermos a sermos o que somos, durante bom tempo, por termos sido parte de cavernas sinestésicas escuras, úteros que nos fez duplos com placentas, e sermos, como homens, “designers de interiores”, como diz Peter Sloterdijk, tendemos a nos esquecer de tudo isso. Nesse esquecimento nos encontramos, então, como seres de linguagem e, claro, linguagem por imagens. De qualquer modo, deixamos de lado o quanto gostamos de música e o quanto dependemos de sinestesias prévias (adoramos massagem e aprendemos a chutar uma bola e saber até onde ela vai, sem precisar dos olhos), para nos tomarmos como os que vivem no mundo das imagens. Ora, justamente por isso, nossa verdade de que vivemos sob a cultura e o culto da imagem, às vezes torna-se uma frase a mais, um cliché, algo pouco explicativo.

Na imagem atual, sabemos, domina a figura humana. A imagem, desde o Renascimento, tem a marca da presença da figura humana. O corpo humano é o centro da imagem. Imagem é já quase sinônimo de imagem do corpo, ao mesmo tempo em que a própria palavra imagem, uma vez pronunciada, nos remete do outdoor gigante à proliferação da cultura visual da Internet e da TV, e tudo isso sempre regrado pelo que o marketing tem definido como imagem. Mesmo a fotografia só é efetivamente arte após sua desvinculação da imagem à propaganda. Mas esta é tão forte no mundo como o nosso que expulsa pela porta ela volta pela janela: há uma arte fotográfica que é a da foto própria do marketing ou então a foto de arte cujo conteúdo é o marketing. Mas, em tudo isso, brilha o corpo. É aqui que se encerra algo a ser observado e compreendido.

O corpo que se oferece em imagens, e que nos rodeia de toda forma, que povoa nossos arredores e memória, não é mais só re-apresentação, no sentido de trazer o que não está presente para o presente. Não é só homenagem também. Nem é só indutor. O corpo escapa a tudo que o segura e prende. Mesmo que seus algozes sejam mágicos da propaganda, ele escapa. O corpo em imagem funciona, na sua eterna virtualidade, como modelo de futuro, mas em um sentido especial e inusitado, pois incerto. Não nos acostumamos com o futuro incerto, não é? Ele, corpo, imagem de corpo, tem a função da antonomásia – aprendemos isso com Thomas Macho, certamente. O corpo pode sempre substituir o elemento ali apresentado por um epíteto inesperado. A figura de Garrinha jogando pode ser trocada por “o driblador brasileiro”. Pode projetar um futuro: ou o driblador é isso, ou não vai ser nada. Ou ainda, em um contexto menos semanticamente dependente da cultura local: “o jogador de bola”. Ou se é assim, nessa postura que escapa a qualquer lei biomecânica, ou não há o jogador. Belini levantando a taça. Aquele foto com aquele corpo se tornou o modelo: sai Belini e entra qualquer comemoração de qualquer prêmio. “O vitorioso”. Ou se faz aquele gesto, ou não há ganhador de prêmio, não há êxito. Corpo de Jesus: “o crucificado”, “o redentor”, “o homem que sofre” – não o epíteto existente, “rei dos judeus”. Ninguém é sofredor se não apresenta o corpo modelo de Jesus. São possíveis milhares de outros exemplos, claro. Outras imagens não funcionam assim. A imagem como antonomásia é um privilégio e prerrogativa do corpo. Corpo como imagem, imagem de corpo. Há um mistério nisso.

Caso possamos compreender isso e perceber o quanto isso dá às imagens um poder de rebeldia, de incerteza, por conta da produção do novo e no inesperado, começaremos a entende mais coisas importantes. Uma delas: deixaremos de lado as ideias simplórias que temos a respeito da sociedade das imagens e sobre a “manipulação do marketing”. A antonomásia não pode ser determinada. Não sabemos o que uma imagem poderá virar uma vez apresentada, se ela é a imagem do corpo.

Nessa hora, voltamos a entender o quanto conta para nós termos vindo da caverna. Na verdade, não olhamos a imagem do corpo ou o corpo como imagem como quem usa os olhos. Olhos robóticos. Não! Como o corpo humano é sempre humano, nosso, a antonomásia se produz à medida que nos devolve a mundo de imersão na caverna escura e sinestésica. Olhamos para a imagem do corpo como quem tem um corpo, e isso faz a antonomásia se realizar. Ainda assim, ela é incerta. Não sabemos no que vai dar.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Tags: , , , , , , , , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo