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25/03/2017

Ideólogos contra a democracia liberal moderna


Enquanto existir o capitalismo haverá em algum lugar quem o conteste e, por isso, ideias de socialismo estarão vigentes. Parece evidente, não? Mas não é uma verdade necessária. Podemos ter mazelas de todo tipo no capitalismo e, no entanto, não termos reclamações a respeito delas, ou então termos reclamações e, no entanto, dificilmente identificadas com “socialismo”. O mais correto é dizer, então, que a modernidade produz mazelas, que se os pobres são atingidos por elas de modo grave, podem reclamar e uma tal reclamação, uma vez encaminhada politicamente, deverá criar um agenda “de esquerda”. Sim, uma vez que a esquerda é, segundo sua origem histórica e que a define, o partido dos pobres.

Assim, nesse estágio, o invento moderno que busca dar encaminhamento para uma situação dinâmica, é a democracia liberal. Ela tem como função antes não engessar a história que resolver problemas. Ela tem a função de antes equacionar problemas e alimentar esperanças que efetivamente nos levar a qualquer paraíso na Terra. Em outras palavras: a democracia não tem uma teleologia, ela é a administração do cotidiano conflituoso, que em termos macropolíticos vemos, ao menos segundo nossa visão moderna a respeito da modernidade, como um conflito entre ricos e pobres, entre grupos culturalmente hegemônicos e grupos minoritários, entre interesses de dar sequência à história e interesses em segurar a roda da vida.

Os filósofos modernos que pensam a vida política, que possuem formação para tal, podem ser críticos da democracia liberal moderna. Afinal, nós filósofos somos mesmos um tanto que desconfiados da democracia. A democracia antiga matou nosso patrono! A democracia liberal moderna não deixou de pegar outros colegas importantes. Mas, de certo modo, a democracia liberal nos deixa um espaço para continuarmos a filosofar, e achamos isso importante. Desse modo, em geral tendemos a proteger a democracia liberal antes pela sua funcionalidade em relação ao que podemos conseguir de liberdade de expressão que por qualquer virtude sacrossanta que ela possa querer possuir. É natural então que nós filósofos tenhamos o cuidado em não pedir a extinção de contendores no campo democrático, pois isso seria exatamente o fim da democracia.

Digo isso de filósofos, não de ideólogos. Estes, ao contrário, falam como se fossem filósofos, mas podem almejar sim uma sociedade onde só eles possam falar, e não os discordantes. Ou seja, podem não querer viver em uma democracia liberal mais ampla. Descobri em nosso meio dois desses ideólogos. Não à toa ocupam lugar de jornalistas no trabalho de colunistas: Pondé e Safatle.

O primeiro, Pondé, disse recentemente que o PT “nasceu do chão da fábrica, de onde nunca deveria ter saído”. Com a sua varinha jesuítica na mão e a fotografia do Papa anterior na parede, ele gostaria de por fim ao PT e todas as outras agremiações de esquerda. Ele é um democrata? Claro que é. Só que é um democrata como foram os democratas que impuseram a nós o regime de 1964. Eles criaram dois partidos, o de situação e o de oposição. Oposição poderia existir, o que não poderia existir era “contestação”, diziam eles. Ou seja, “1964” tinha vindo para ficar.

O segundo, Safatle, disse recentemente que as pessoas que se manifestam nas ruas louvando a “intervenção militar” e coisas do tipo deveriam ser criminalizadas. Com sua varinha socialista na mão e a fotografia Stalin fantasiado de Lacan na parede, ele gostaria de ver todo o PSDB, então tachado de Tea Party, fora do jogo político – talvez fora da sociedade brasileira. Ele é um democrata? Creio que sim, mas nos termos do Pondé, invertidos é claro.

A postura deles é exatamente a postura que nós filósofos tememos mais, pois não sabemos para que lado vão virar suas varinhas de açoite. A profissão de ideólogo aqui salta aos olhos: falam do alto de cátedras da mídia, mas não ouvem, não dialogam de público com ninguém. Também pouco fundamentam o que vociferam. A arte de “dar e pedir razões”, que é própria arte da filosofia, não praticam. Às vezes dão a impressão que vão praticar tal coisa, mas pulam fora. E a partir dessa praxe já é possível ver que preferem mesmo essa arte da varinha. Curiosamente esses dois ideólogos são pessoas jovens, que se viveram a Ditadura Militar, o fizeram ainda muito meninos, e talvez seja por isso que não tenham visto direito do que se trata. Ou talvez eu esteja enganado, talvez eles gostem senão de ditaduras, de democracias restritas, essas onde há o direito de falar, mas só de alguns.  Eles acham que tais regimes não irão virar ditaduras, e que o grupo a pertencem socialmente não será, então, atingido.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

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6 Responses “Ideólogos contra a democracia liberal moderna”

  1. Zé Pitaco
    22/01/2016 at 16:40

    Democracia é jogar Bombas Atômicas em Hiroshima e Nagasaki!
    Comunismo é o Gulag e a Sibéria com milhões de mortos! E isso aí.

    • 23/01/2016 at 07:46

      Zé Pitaco, nossa! Vamos comprar seus livros! É muita sabedoria!

  2. Erick Drake
    28/03/2015 at 16:11

    Paulo, essa noção de democracia como pertencente ao âmbito do contingente se aproxima muito da visão de Rorty do liberal irônico, ou seja, aquele que pertence antes ao campo das redescrições do que das ideologias?

  3. Wender de Oliveira Silva
    27/03/2015 at 22:54

    É bem fácil cair na tentação de acabar com o grupo rival que incomoda. A ideologia é uma forma de naturalizar pensamentos ideológicos tanto usados pela direita e esquerda. Para além dessa ideologia seria possível uma alternativa de pensar o Brasil filosoficamente? Talvez uma revolução semântica apoiada por filósofos do seu calibre possam em conjunto pensar um sociedade diferente. Apesar de nem sempre as grandes revoluções serem concretizadas por filósofos. Há o risco dos ideólogos sofistas tomarem conta da palavra e da sociedade com sua lábia.Teria algum jeito o ideal platônico de constituir um reino governado por filósofos existir em nossa sociedade de alguma forma?

    • 27/03/2015 at 23:00

      Wender a democracia funciona por nós mesmos, não há filósofo ou Deus para nos ajudar.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo