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14/12/2017

A ideia de uma sociedade narcísica é a tolice do momento!


No anos setenta Christopher Lasch popularizou a tese do narcisismo das elites americanas. A ideia básica era a de que a classe média americana havia se voltado para o próprio umbigo, não desejando mais saber do mundo ou do próprio país. A América teria perdido um de seus valores essenciais, o de manter ao lado do liberalismo altamente individualista um sentido forte de comunitarismo. De certo modo, seria o único lugar da terra que havia conseguido tal façanha aparentemente paradoxal, a de união de contrários, mas estava perdendo um tal dom.

Pouco tempo depois, essa tese do narcisismo, então desvinculada do contexto americano e associado à “modernidade” atual em geral, caiu nas mãos de intelectuais capengas. Logo virou um elemento essencial de pseudo-críticos antes ligados à auto-ajuda disfarçada (ou ao seu irmão espelhado, o pessimismo blasé se ar afetado) do que propriamente ao trabalho crítico. Cabe hoje, no Brasil, na boca de gente que faz livro para aqueles que precisam ter a sensação subjetiva de que não são completamente tolos, os da fila do gargarejo das palestras de midiáticos por aí. Maritacas desesperadas dizem a todo momento, como se isso fosse um conhecimento: “nossa juventude, nosso mundo é narcisista, olhem só como ficando tirando selfis por aí, e vejam como há a solidão individual, o individualismo exacerbado, o ‘salve-se quem puder'”. É fácil convencer as pessoas sem treinamento intelectual profissional dessas bobagens todas. Afinal, os selfies estão mesmo por aí, a cultura da imagem existe mesmo, e as cidades grandes não se dedicam a colocar pessoas sentadas em bancos de jardim jogando conversa fora – que seria a imagem (falsa) de uma comunidade com solidariedade. Essa visão fácil faz os não-filósofos acreditarem no palestrante que geme “vivemos numa cultura narcísica”. E os mais dramáticos aproveitam e acrescentam: “somos todos individualistas malditos”. Após uma gritaria assim em suas palestras, ou com sorrisos marotos no canto da boca, para se parecerem sabiamente pessimistas (a maioria dos pseudo intelectuais acredita que o verdadeiro intelectual é pessimista, que ele fala sobre “a realidade”, e que esta é sempre amarga – ele imita esse tipo e sua plateia, que é igual a ele, também acha isso, então sucesso na certa)

Não houve uma sociedade mais comunicacional que a sociedade moderna. Não existiu nenhuma época em que mais realizamos aquilo que nos tornamos, os animais de relacionamento forte, capazes de sacrifícios inimagináveis para manter vínculos. Para tudo consultamos os outros. Somos de tal modo solidários que até para sermos autoritários e fazer os outros perder direitos, os chamamos para conversar e queremos a adesão deles. Banalizamos o amor, mas ele é tão forte que mesmo banalizado em palavras, não desaparece em atos. Qualquer pequena catástrofe e largamos tudo para criarmos correntes de ajuda. Até nossos selfies são, de certo modo, consulta e, claro, aviso aos outros, busca pelos outros. Já há muito tempo não acreditamos, como Durkheim fez, que precisamos investigar a possibilidade de anomia, que estaria no horizonte, e que foram  a base para os seus estudos sobre solidariedade. Hoje, acreditamos na solidariedade como básica e indestrutível, e nossos estudos sobre ela são mais sofisticados, pois queremos é saber de sua fontes. A pergunta dos melhores filósofos é pela nossa capacidade linguística como elemento nosso próprio, e mais que isso, por aquilo que Martin Buber ficou deslumbrado: de onde vem nossa tendência inexorável ao relacionamento, que se manifesta nas crianças, e que não depende sequer da linguagem. Não à toa a grande investigação de Peter Sloterdijk é pelas fontes de solidariedade. Quando nos colocamos seriamente, não investigamos narcisismo social, mas levamos a sério Nietzsche, que nos colocou na condição de “animais de rebanho”. Dizer que somos narcisistas é simplesmente não compreender Angela Merkel, Obama e Luis Ruas. É não entender o crescimento do veganismo, da consciência ecológica, da construção de cidades com calçadões, da proliferação das imagens de nós mesmos que são lançadas como milhares de garrafas ao mar. Claro que podemos estar sozinhos na multidão, mas ser sozinho não é ser solitário e muitos menos associal ou não solidário. Casamos e ainda queremos, mesmos a duras penas, famílias. Alguém duvida disso, após ter saído da adolescência?

De fato, a modernidade abre as portas para a vida individual, para o individualismo. Faz-nos acreditar que ficamos juntos não porque temos a tendência para ficarmos juntos, mas porque celebramos um contrato – a tese do jusnaturalismo, de Hobbes a Kant passando por Locke e, de certo modo, chegando até Rawls. A ideia do contrato nos faz achar que ou somos eus cartesianos, isolados e abstratos, que se põe juntos por opção ou coação, ou somos seres isolados, mas articulados posteriormente pela linguagem, afinados por uma intersubjetividade de tipo habermasiana. Essa ideia liberal nos ajudou a quebrar amarras feudais e próprias do Antigo Regime, mas ela nos engana, como qualquer doutrina que tem um componente ideológico necessário, se feita para nos dar segredos antropológicos sobre nós mesmos ou essências aristotélicas sobre nossa “natureza”. Ela não nos deixa ver o quanto somos articuladamente de rebanho, e isso por uma força interior que nos percorre cosmicamente. Somos frutos da vinculação antes familiar, de origem judaico-cristã, que propriamente seres políticos à moda grega, os que foram forçados à vida comum por conta das qualidades trazidas por Hermes. Somos mais próximos dos mitos bíblicos que dos mitos gregos, mais ligados ao Gênesis que ao mito de Protágoras.

A tese do narcisismo é tola, em especial porque aparece junto da tese da projeção. Segundo tal tese somos voltados para nosso umbigo, seríamos todos auto-centrados de forma tão radical que até nosso amor não estaria dirigido aos outros, mas a nós mesmos: amamos nos outros o que projetamos de nosso neles – eis a tese que encanta apressadinhos. Claro que essa tese pode ser instrumento para o psicanalista, mas elemento da sua técnica, e não como uma visão de mundo válida. Os estoicos souberam falar da nossa tendência em perceber um campo nosso, próprio, de refúgio, algo que também os animais teriam, mas ao mesmo tempo foram eles que perceberam que tínhamos a capacidade e a necessidade de colocarmos o thymos em atuação. Seríamos tão emotivos e entrelaçados com outros que teríamos que nos educar para tomar distância. O pathos da distância não seria algo próprio, mas aprendido a duras penas. Ninguém nasceria nobre, mas poderia se tornar nobre, ou seja, um ser isolado em cima de seu cavalo. Por isso os estoicos programaram uma filosofia educativa, de modo a tornar as pessoas estoicas, distantes da emotividade comprometedora.

Tenho por hábito dizer que não somos animais políticos, como nos ensinou Aristóteles, mas animais de família, como nos ensinou Tomás de Aquino. No meu jargão: o homem é um animal que tem mãe. Tendo mãe, é alguém que está fundamentalmente envolto em simbiose, ressonância, vida conjunta. Viemos do âmbito de uma ontologia do Dois, forjada no pré-nascimento, e continuamos, após o nascimento, nessa eterna reconstrução de um grande útero no qual cabe sempre no mínimo dois, isso quando não cabe mais irmãos. Nossa experiência é essencialmente coletiva. Somos bi-unidades, bolhas ovais de ressonâncias internas. E não temos condição de ser outra coisa. A rede da Internet é a rede atual que um dia foram os mares das Grandes Navegações, quando os europeus saíram por aí “fazendo contato”. Gastamos milhões em projetos de “contato com ETs”, sem retorno, sem lucro, ano a ano. Capitalistas, sim, gente altamente interessada em lucro rápido, investe na loucura de encontrar mais gente, sem que isso envolva lucro! Queremos essa junção que nos traga de volta a felicidade de vivermos juntos com a nossa amiga placenta, que quando abandonamos é rapidamente substituída por vozes, gênios, mãe etc., Se não fazemos isso, perecemos.

O narcisismo social da boca de palestrantes midiáticos atuais é talvez a maior bobagem que já escutei desse pessoal, e olha que esse pessoal capricha ao dizer besteira!

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 28/12/2016

Gravura: Peter Sloterdijk na Itália

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3 Responses “A ideia de uma sociedade narcísica é a tolice do momento!”

  1. Pedro de Sousa Portela
    20/01/2017 at 01:17

    Não acredito que a sociedade americana seja narcisista no sentido psicológico, antropológico ou existencial, mas é individualista no seu apurado senso de propriedade privada, isso é!

  2. Eduardo Rocha
    30/12/2016 at 03:36

    Paulo, o que é a desespiritualização da ascese?

    • 30/12/2016 at 10:57

      Ascese é, para Nietzsche, algo interno da religião, Sloterdijk diz que ela é maior, que a religião é parte dela. Desse modo, ascese é, para Sloterdijk, inerente às antropotécnicas, começa com o fato de termos de ficar na vertical, e treinamos para isso, até o fato de você estudar para entrar na faculdade.”Onde procurar o homem, vai encontrar acrobatas” – gente do treino não igual, ascendente.

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